Cuba perde uma geração: país pode ter perdido até 25% da população em cinco anos
Uma miríade de crises paralelas fez com que 25% da população do país o tenha deixado, criando, inadvertidamente, a pior crise enfrentada por Havana

Cuba enfrenta desafios que já são conhecidos pelo mundo:um governo autoritário resistente a novas reformas, uma economia em crise e, ao longo de toda a sua história, forte e constante pressão americana. Todavia, o país enfrenta uma crise oculta que não chega à atenção global - o maior êxodo de cuabanos para o exterior na história da nação insular.
Desde 2020, o governo cubano admite, em estatísticas oficiais, que a população do país segue uma tendência de declínio acentuada. Segundo as informações de Havana, a população é atualmente de cerca de 9,7 milhões.
Todavia, um novo estudo de campo do think tank Council on Foreign Relations (CFR) estima que a verdadeira escala do êxodo pode ser muito maior, com entre 1,6 e 2,75 milhões de cubanos deixando o país desde 2020, o que representa uma queda de 13 a 25% da população total.
A dimensão da onda migratória supera em muito os principais episódios anteriores de saída da população cubana. O êxodo iniciado em 2021 já é estimado em três vezes o total combinado dos grandes movimentos migratórios registrados após a Revolução de 1959, incluindo o Mariel, em 1980, e a crise dos balseiros, em 1994.
O grande êxodo cubano
Desde 2025, até 25% da população cubana pode ter deixado o país (Orlando Sierra/AFP)
O movimento começou em meio ao colapso econômico provocado pela pandemia e pelo endurecimento das sanções americanas, e foi agravado pela queda da produção de petróleo da Venezuela, principal fonte de energia de Cuba, após a remoção de Maduro do poder pelos EUA. A economia centralizada, marcada por décadas de baixo crescimento e subinvestimento, tinha pouca capacidade de absorver novos choques.
A crise levou a apagões cada vez mais frequentes, à escassez de combustível, à perda do poder de compra e à inflação após uma reforma monetária, salarial e de preços. Em 11 de julho de 2021, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas para protestar contra as condições econômicas e exigir liberdade. O governo respondeu com prisões e novas medidas contra a dissidência.
Com a repressão política e a deterioração das condições de vida, a emigração passou a ser vista por muitos cubanos como a principal alternativa para melhorar sua situação. No fim de 2021, mais de 15 mil já haviam atravessado a selva do Darién, enquanto uma rota muito mais longa se consolidava pela Nicarágua.
Em novembro daquele ano, a Nicarágua retirou a exigência de visto para cubanos, o que permitiu a expansão dos voos entre Havana e Manágua. Até janeiro de 2024, mais de 400 mil cubanos haviam chegado ao país, muitos pagando milhares de dólares pelas passagens antes de seguir para o norte.
Os Estados Unidos também facilitaram parte desse fluxo durante o governo de Joe Biden, ao reativar programas de reunificação familiar e criar um mecanismo de entrada com autorização humanitária. A mudança de política no segundo governo de Donald Trump, porém, encerrou esses programas e restringiu as vias de entrada para cubanos.
A redução das entradas nos Estados Unidos não interrompeu a saída de cubanos, mas alterou seus destinos. Segundo o CFR, os encontros de migrantes cubanos nas fronteiras americanas caíram 98% entre outubro de 2025 e janeiro de 2026, em comparação anual, enquanto centenas de milhares passaram a buscar alternativas em países como Espanha e Brasil.
Mais de 600 mil cubanos solicitaram a cidadania espanhola entre 2022 e 2025, com base em uma legislação que reconhece os descendentes de espanhóis. No Brasil, os pedidos de refúgio quase dobraram em 2024, ultrapassando 44 mil, enquanto as comunidades cubanas se expandiram em cidades como Curitiba e Montevidéu.
Choques internos
Pobreza extrema tira milhões de Cuba, e êxodo piora condições internas (YAMIL LAGE / AFP/Getty Images)
O impacto, porém, é mais profundo dentro da própria Cuba. A saída de médicos, enfermeiros, professores e outros profissionais qualificados enfraquece os serviços públicos já pressionados, enquanto a falta de trabalhadores também afeta a produção agrícola.
A pesquisa de campo do CFR descreve fazendas com vagas disponíveis e recursos para contratação, mas sem pessoas suficientes para preenchê-las.
A emigração também está alterando as relações sociais. Famílias com parentes no exterior têm maior acesso a remessas em moeda estrangeira e a oportunidades do setor privado, enquanto pessoas sem familiares fora da ilha enfrentam maiores dificuldades para arcar com os custos de bens e serviços.
Ao mesmo tempo, a saída de adultos deixa crianças e adolescentes sob os cuidados de parentes ou conhecidos.
O fenômeno acelera ainda mais o envelhecimento da população. Entre os que deixaram Cuba de 2021 a 2024, havia 133 mulheres para cada 100 homens, e 80% dessas mulheres estavam em idade reprodutiva. Em 2024, o país registrou menos nascimentos do que em qualquer outro ano desde 1899, segundo os dados apresentados no estudo.
As projeções demográficas apontam para uma contração ainda maior. Demógrafos citados pelo CFR estimam que a população cubana pode cair pela metade até 2100, enquanto as próprias estatísticas governamentais indicam que, até 2050, mais de um terço dos habitantes poderá ter mais de 60 anos.
Isso reduziria a força de trabalho disponível para sustentar uma população cada vez mais idosa.
Mesmo uma eventual transição política e econômica não resolveria rapidamente o problema.
O estudo aponta que a democratização e a estabilização raramente levaram grandes contingentes de emigrantes a retornar de forma permanente, embora uma diáspora numerosa e empreendedora possa contribuir por meio de remessas, investimentos, novos negócios e transferência de conhecimento.
Nesse cenário, a crise migratória deixou de ser apenas uma consequência dos problemas cubanos e passou a reforçá-los. Mesmo que o país consiga recuperar sua economia e superar o atual impasse político, terá de fazê-lo com uma população menor, mais envelhecida e com uma parcela relevante de trabalhadores qualificados vivendo no exterior.
