Cúpula da Otan começa com desafio de lidar com distanciamento dos EUA

Representantes dos países que compõem a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) se encontrarão nos dias 7 e 8 de julho em Ancara, na Turquia, para uma cúpula que pretende revisar as conquistas da organização desde o último encontro no ano passado em Haia, na Holanda.
A avaliação era de que o desempenho do bloco seria positivo, refletindo o esforço para ampliar sua capacidade militar diante do cenário de segurança no continente.
Além de atingir ameta de destinar ao menos 2% do Produto Interno Bruto (PIB) aos gastos militares, os países europeus também avançaram rumo ao novo objetivo da OTAN: elevar esse percentual para 3,5% até 2035, acrescido de outros 1,5% em investimentos em infraestrutura relacionada à defesa.
No âmbito da União Europeia, iniciativas como o programa ReArm Europe e a linha de financiamentos SAFE ampliaram a margem fiscal dos Estados-membros para acelerar esses investimentos.
Esse movimento é impulsionado, sobretudo, pela percepção de que a Europa precisa fortalecer suas capacidades militares diante da guerra na Ucrânia e da persistência da ameaça representada pela Rússia. O objetivo da cúpula em Ancara era discutir como transformar o aumento dos investimentos em capacidades militares concretas. Como resumiu o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, "a Rússia não teme compromissos, mas capacidades".
Todavia, como aponta o think tank Council on Foreign Relations (CFR), o encontro deste mês tem longas sombras.
O fator Trump
O presidente americano Donald Trump, ao lado do secretário de Estado Marco Rubio, durante reunião da Otan, em Haia,Holanda, no ano passado (Nicolas Tucat/AFP)
A guerra entre Israel e Irã, somada à insatisfação do presidente americano Donald Trump com a postura adotada por alguns aliados europeus, reduziu as expectativas em relação à cúpula de Ancara. O conflito expôs divergências na aliança, especialmente quanto ao apoio logístico às operações de Washington.
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, condenou a guerra e recusou o uso de bases militares conjuntas e do espaço aéreo espanhol por forças norte-americanas. A Itália também levantou questionamentos jurídicos quanto à participação nas operações, enquanto o Reino Unido inicialmente demonstrou hesitação antes de confirmar que permitiria o uso de suas bases pelos Estados Unidos.
As diferenças provocaram tensões às vésperas da reunião em Ancara. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, classificou o encontro como "provavelmente a reunião mais importante da história da OTAN", afirmando que havia questões dentro da aliança que precisavam ser esclarecidas e resolvidas.
O episódio também reforçou os planos do Departamento de Defesa dos Estados Unidos de revisar sua presença militar na Europa. Durante a reunião dos ministros da Defesa da OTAN, realizada em Bruxelas em 18 de junho, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, classificou como "vergonhosa" a recusa de alguns aliados em autorizar o uso de suas bases militares e anunciou uma revisão, com duração de seis meses, do posicionamento das forças norte-americanas no continente.
Segundo informações divulgadas pela imprensa europeia e norte-americana, os Estados Unidos avaliam reduzir em cerca de um terço o número de caças F-16 e F-15 destinados às missões da OTAN, cortar pela metade a presença de bombardeiros estratégicos, diminuir a frota de aviões-tanque e retirar um submarino lançador de mísseis e um porta-aviões do conjunto de capacidades disponibilizadas à aliança em situações de crise.
Em paralelo, o governo de Donald Trump já anunciou a retirada de aproximadamente 5 mil militares da Alemanha ao longo dos próximos seis a doze meses e cancelou o envio previsto de um batalhão equipado com sistemas de fogo de longo alcance.
Impresivibilidade
Reprodução artística da sede da Otan, em Bruxelas, na Bélgica (Dursun Aydemir/Anadolu Agency/Getty Images)
Os países europeus esperavam negociar com os Estados Unidos uma transição gradual para uma nova divisão de responsabilidades dentro da Organização. A proposta, descrita pelo subsecretário de Defesa norte-americano, Elbridge Colby, como uma "OTAN 3.0", previa um roteiro conjunto para que a Europa assumisse progressivamente uma parcela maior da defesa do continente.
As recentes sinalizações de Washington, no entanto, aumentaram o receio de que os Estados Unidos optem por reduzir sua presença militar de forma unilateral, sem aguardar que os aliados europeus desenvolvam as capacidades necessárias para preencher as lacunas deixadas pelas forças norte-americanas.Entre as principais deficiências apontadas estão os sistemas de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR), especialmente satélites e plataformas de alerta antecipado, além de capacidades de defesa aérea e antimísseis, armamentos de longo alcance, guerra cibernética, inteligência artificial e guerra eletrônica.
Enquanto autoridades norte-americanas defendem que a pressão decorrente da retirada de tropas e equipamentos é necessária para acelerar o rearmamento europeu, governos do continente alertam que esse processo pode deixar vulnerabilidades importantes na segurança regional durante o período de transição.
Segundo o CFR, esse impasse tende a dominar a cúpula da OTAN em Ancara. A expectativa das lideranças europeias é preservar um ambiente de cooperação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, repetindo a estratégia adotada durante a reunião do G7 realizada na França.
O objetivo é reduzir o risco de novas retiradas repentinas de tropas e, ao mesmo tempo, avançar nas discussões sobre o apoio militar à Ucrânia, especialmente no fortalecimento de sua defesa aérea. Entre as prioridades de Kiev está a obtenção de uma licença dos Estados Unidos para produzir localmente os mísseis do sistema Patriot.
Mesmo que a reunião produza avanços diplomáticos, analistas avaliam que dificilmente será estabelecido um processo estruturado para a chamada "OTAN 3.0". Ainda que os países europeus consigam apresentar um cronograma comum para ampliar suas capacidades militares, não há garantia de que Washington o siga como base para futuras decisões sobre sua presença militar no continente.
Diante desse cenário, a avaliação do CFR é de que a Europa precisará acelerar o fortalecimento de sua própria capacidade de defesa, com menor dependência dos Estados Unidos. Isso inclui investimentos em capacidades estratégicas voltadas para a dissuasão da Rússia, além do desenvolvimento de mecanismos próprios de planejamento, comando e controle militar.
Embora essa estratégia possa sobrepor algumas funções atualmente desempenhadas pela OTAN, especialistas da CFR argumentam que a tendência de redução do compromisso norte-americano com a segurança europeia deverá continuar independentemente dessas iniciativas, tornando indispensável uma maior autonomia do continente na área de defesa.
