Curtume catarinense bate recorde em selo ambiental e amplia presença global

A unidade mais recente do Grupo Viposa, inaugurada há um ano em Nova Andradina, no Mato Grosso do Sul, alcançou 83 pontos na certificação LEED Platinum, a maior nota já registrada no Brasil para um edifício industrial na categoria Operação e Manutenção.
Com sede em Caçador, no Meio-Oeste de Santa Catarina, a Viposa tem mais de 70 anos de história e está entre os cinco maiores curtumes do país. O grupo mantém três unidades industriais e emprega mais de 1.500 pessoas. Por ano, processa cerca de três milhões de peles bovinas. Desse total, 70% da produção seguem para o mercado externo, atendendo clientes da Ásia, Europa e América do Norte.
O reconhecimento ganha ainda mais relevância porque a fábrica de Nova Andradina opera atualmente com apenas 40% da capacidade instalada. A expectativa é chegar a 100% nos próximos quatro anos, acompanhando a ampliação da carteira de clientes e da demanda internacional. Toda a produção da nova unidade é destinada à exportação.
Antes de entrar em funcionamento, a planta exigiu três anos de trabalho. O desenvolvimento do projeto consumiu aproximadamente um ano e a construção, outros dois.“Essa certificação começa desde o primeiro prego colocado na obra”, afirma Eduardo Seleme, CEO do Grupo Viposa.
Instalada em um terreno de 200 mil metros quadrados, a unidade possui cerca de 30 mil metros quadrados de área construída. O projeto incorporou iluminação natural, ventilação cruzada, aproveitamento de águas pluviais, automação no abastecimento, equipamentos de maior eficiência energética e sistemas individualizados de controle do consumo de água e energia.
A fábrica também utiliza fulões de polipropileno, grandes cilindros empregados no processamento do couro. Os equipamentos aumentam a precisão no controle dos volumes utilizados, reduzem o consumo de água durante a limpeza e tornam o processo mais eficiente.
A avaliação considerou o desempenho efetivo da unidade em funcionamento e elevou o empreendimento ao nível Platinum, o mais alto do sistema LEED. Na categoria Operação e Manutenção, são analisados critérios como eficiência energética, uso da água, tratamento de efluentes, gestão de resíduos e qualidade dos ambientes internos.
Mais do que um selo ambiental, a certificação funciona como credencial comercial em cadeias globais nas quais rastreabilidade, emissões, origem da matéria-prima e desempenho ambiental passaram a influenciar diretamente a escolha de fornecedores.
Couro brasileiro em marcas icônicas
A excelência alcançada pela Viposa no processamento do couro abriu espaço em algumas das cadeias de fornecimento mais exigentes do mundo. Entre cerca de seis clientes estratégicos estão montadoras premium, de marcas que são sinônimo de carros de luxo, incluindo fabricantes alemãs e norte-americanas.
Mais recentemente, uma gigante chinesa de veículos elétricos e híbridos também passou a integrar o portfólio da companhia. Nos programas atendidos pela Viposa, a montadora utiliza couro fornecido pela empresa brasileira.
Os nomes dos clientes não são divulgados em razão de acordos de confidencialidade e compliance. As parcerias, porém, ajudam a dimensionar o nível técnico exigido em um mercado no qual pequenas diferenças de tonalidade, textura, resistência ou acabamento podem inviabilizar o fornecimento.
Segundo Eduardo Seleme, a China produz aproximadamente 31 milhões de veículos por ano, enquanto o Brasil fabrica cerca de 2,3 milhões. A diferença mostra o potencial representado pela entrada das empresas chinesas na carteira da Viposa.
Nos automóveis premium revestidos com couro natural, cada veículo utiliza, em média, de três a quatro peles bovinas. O material não se restringe aos bancos. Também pode ser aplicado em painéis, portas, consoles, volantes e outros componentes internos.
Um programa de fornecimento para 100 mil automóveis pode demandar entre 300 mil e 400 mil peles. O desafio não está apenas no volume. Partes originadas de animais diferentes precisam apresentar a mesma cor, textura, maciez, resistência ao desgaste e comportamento diante de variações de temperatura e luminosidade.
É nesse equilíbrio entre escala, uniformidade e personalização que a Viposa construiu sua reputação. O couro semiacabado permite ajustar tonalidade, resistência, maciez e outras propriedades conforme as especificações de cada cliente. Na etapa final, o material recebe pintura, gravação, polimento e camadas de proteção, com prioridade para produtos à base de água e biodegradáveis.
Uma auditoria conduzida por um cliente do setor automotivo atribuiu 99,11% de conformidade às unidades da companhia. Em outra avaliação, feita por uma empresa do setor de energia, a Viposa alcançou 86% no desempenho operacional e 99% nos critérios de sustentabilidade.
Com sete de cada dez unidades produzidas destinadas ao exterior, sustentabilidade e rastreabilidade deixaram de representar apenas compromissos ambientais. Tornaram-se condições de acesso aos mercados internacionais.
Embora o setor automotivo seja uma das aplicações mais sofisticadas do couro produzido pela Viposa, está longe de ser o único.A companhia também fornece para marcas globais da moda e do luxo, com produtos comercializados em vitrines de Paris, Milão e Nova York. Entre os clientes está uma tradicional maison francesa, fundada no século XIX e reconhecida internacionalmente por bolsas, malas e artigos de alto padrão.
O couro processado pelo grupo também abastece a indústria moveleira, na qual é utilizado em sofás, poltronas e revestimentos, além de fabricantes de equipamentos de proteção individual, os EPIs.
Nesse segmento, o material é empregado principalmente em calçados de segurança destinados a trabalhadores da indústria, da construção civil e de atividades que exigem proteção contra impacto, abrasão, calor e outros riscos operacionais.
A empresa também exporta cabedais, como são chamados os calçados já montados, mas ainda sem a sola. O formato permite transportar um número maior de pares no mesmo espaço, reduzindo custos e emissões logísticas.Assim, o mesmo couro pode revestir o interior de um automóvel premium, compor uma bolsa de luxo, cobrir um sofá de alto padrão ou proteger os pés de um trabalhador no chão de fábrica.
Cadeia de produção integrada
A estrutura industrial da Viposa está distribuída entre Santa Catarina, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. As três unidades cumprem funções complementares.
Em Várzea Grande, no Mato Grosso, ocorre a etapa inicial do processamento da pele bovina, com a produção do chamado couro wet blue. A proximidade com frigoríficos permite trabalhar com a pele verde, sem a necessidade de sal para conservação, preservando a qualidade da matéria-prima e reduzindo impactos ambientais.
Em Nova Andradina, no Mato Grosso do Sul, são realizadas etapas intermediárias e o semiacabamento. É nesse estágio que se definem características como cor, maciez, resistência e propriedades específicas para cada aplicação.
A fábrica sul-mato-grossense foi concebida como uma das principais bases para a expansão futura do grupo. Mesmo operando com 40% da capacidade, tornou-se a unidade mais visível da estratégia ambiental da companhia. Toda a produção realizada na planta segue para o mercado internacional.
Em Caçador, em Santa Catarina, onde a empresa nasceu, concentram-se as atividades de maior valor agregado: acabamento final, laboratórios, pesquisa e desenvolvimento, inovação tecnológica e relacionamento comercial com os clientes.A distribuição permite aproximar as etapas iniciais das regiões fornecedoras de matéria-prima e manter em Santa Catarina a inteligência do negócio.
Energia renovável e rastreabilidade
A rastreabilidade tornou-se outra frente decisiva, especialmente diante das exigências internacionais relacionadas ao desmatamento. A Viposa trabalha com o tema desde 2014 e passou a utilizar sistemas de georreferenciamento em 2019.
A companhia realizou 4.591 análises de desmatamento zero, ampliou em 26% o recebimento de relatórios socioambientais e superou a meta de rastrear a matéria-prima até a fazenda de nascimento dos animais. O objetivo era chegar a 10%; o resultado alcançou 11,9%.Sem comprovar a origem da matéria-prima, um fornecedor pode perder acesso a mercados da Europa e de outras regiões que ampliaram as exigências socioambientais.
Em Nova Andradina, foram plantadas 168.146 mudas de eucalipto em 155 hectares. Em Várzea Grande, são outros 31,52 hectares, com aproximadamente 29 mil mudas.A unidade certificada também colocou em funcionamento uma usina solar conectada à rede. A energia é utilizada principalmente na estação de tratamento de efluentes e no setor de recurtimento.
Pelo critério baseado na escolha de compra, os certificados de energia renovável zeraram as emissões associadas à eletricidade e reduziram o total líquido para 3.446,5 toneladas de dióxido de carbono equivalente.Nas três unidades, a captação de água chegou a 651.687 metros cúbicos, enquanto o descarte de efluentes tratados somou 444.116 metros cúbicos.
Na gestão de resíduos, 74,11% do volume gerado foi destinado ao aproveitamento agrícola, principalmente por meio da utilização do lodo tratado. Outros 9,02% seguiram para a produção de fertilizantes, 0,58% para reciclagem ou reuso e 16,3% para destinação final ambientalmente adequada.
A área de pesquisa e desenvolvimento da Viposa criou 14 novos artigos, entre couros semiacabados, acabados e produtos para calçados, desenvolvidos conforme as demandas dos clientes.
Origem familiar
A trajetória da Viposa se confunde com a história da família Seleme. Elias Seleme Neto foi um dos sócios fundadores e, posteriormente, assumiu o controle da empresa, conduzindo sua expansão e diversificação industrial. Elias é pai de Eduardo Seleme, atual CEO do Grupo Viposa, e de Gilberto Seleme, presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina, a FIESC.
Sob a segunda geração, o grupo ampliou a presença internacional e intensificou os investimentos em tecnologia, eficiência produtiva, sustentabilidade e desenvolvimento de produtos de maior valor agregado.
Fundada em 1954, a Viposa cresceu mantendo um perfil reservado. A empresa não divulga faturamento nem os nomes das marcas atendidas. A discrição contrasta com a dimensão alcançada pela produção, presente em alguns dos mercados mais disputados do mundo.
O consumidor não encontrará o nome da Viposa em um automóvel, uma bolsa de luxo, um sofá ou um calçado de segurança. Ainda assim, há uma boa chance de que o couro presente nesses produtos tenha saído de uma indústria catarinense que transformou inovação, sustentabilidade e excelência industrial em passaporte para alguns dos mercados mais exigentes do mundo.
