Custo de vida será central nas eleições de meio de mandato dos EUA, diz Maurício Moura
Economista, fundador do Instituto Ideia e professor da Universidade George Washington, fala sobre impactos das midterms, inclusive para o Brasil

RESUMO +
As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos chegam à reta final como teste do governo Donald Trump e renovarão os 435 assentos da Câmara e um terço do Senado. Segundo Maurício Moura, da universidade George Washington University e do instituto IDEIA, o custo de vida domina a decisão do eleitor. Uma maioria democrata pode frear tarifas e ampliar a regulação das empresas de tecnologia.
As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, as chamadas midterms, chegam à reta final como o principal termômetro político e econômico da atual administração Donald Trump em Washington.
Com a renovação de todos os 435 assentos da Câmara dos Representantes e de um terço do Senado, o pleito definirá se a Casa Branca manterá sua força legislativa ou se enfrentará um Congresso de maioria democrata, um cenário que tem potencial para reconfigurar o mercado de ações americano, a regulamentação das big techs e as políticas tarifárias que afetam diretamente o comércio com parceiros como o Brasil.
No entanto, o fator decisivo para mobilizar o eleitor americano nas urnas será o próprio bolso. De acordo com o pesquisador Maurício Moura, da George Washington University e do Instituto Ideia, a pauta ideológica perde força diante do aperto financeiro doméstico.
"O tema que une a oposição e que é o principal motivo para o bom desempenho dos democratas nas pesquisas é justamente o custo de vida", afirma Moura. O especialista diz que a inflação nos supermercados e a alta da gasolina transformaram a capacidade de pagamento (affordability) no verdadeiro motor desta eleição, diminuindo debates sobre política externa.
Moura também afirma que as midterms serão "cruciais" para os negócios.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Ron Przysucha/US Dept of State/Divulgação)
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As pesquisas indicam um avanço importante dos democratas no Legislativo com as midterms. Se esse cenário se confirmar, o que podemos esperar de impactos na relação dos EUA com o Brasil?
Do ponto de vista de política de Estado, a mudança é muito pequena, porque quem cuida da relação com o Brasil é o Departamento de Estado americano, onde o Congresso tem pouca ingerência. Por outro lado, há uma expectativa de que um Congresso com maioria democrata possa colocar freios nas questões tarifárias impostas pelo presidente Donald Trump. Nesse caso, obviamente, pode haver um impacto positivo para o Brasil, mas ainda é uma possibilidade condicional.
Olhando para os dados de opinião pública, o americano médio que vai às urnas nestas midterms se importa com o que acontece na América Latina? Ou a inflação e a economia doméstica engolem todo o debate, deixando a política externa apenas como retórica para as bolhas mais engajadas?
O eleitor americano está basicamente preocupado com o custo de vida, o que eles classificam como affordability. Além disso, em alguns estados, a política de imigração de Trump tem sido um aspecto bastante negativo. Muitos votaram nele esperando um maior controle de fronteiras, mas as ações da agência de imigração (ICE), vistas como violentas, truculentas e sem o devido processo legal, acabaram afetando negativamente a popularidade do presidente. Um exemplo claro disso é o estado do Texas.
As midterms costumam ser o palco para o "voto de protesto". Os dados recentes indicam que o eleitor americano está buscando alternativas mais radicais ou voltando ao centro? E como essa dinâmica do pêndulo reflete o nível de exaustão e polarização do eleitor brasileiro?
Depende muito de cada estado e de cada disputa estadual, pois cada corrida eleitoral tem uma situação particular. No entanto, o tema que une a oposição e que é o principal motivo para o bom desempenho dos democratas nas pesquisas é justamente o custo de vida. Esse fator está sendo duramente afetado pelo preço da gasolina e dos supermercados e, claro, relaciona-se com a guerra, que é amplamente impopular.
Quais comportamentos das urnas americanas de hoje os estrategistas brasileiros devem observar com mais atenção para entender os próximos passos da direita e da esquerda aqui no Brasil?
A principal lição é observar a centralidade do tema do custo de vida. Esse é um assunto que tem pautado disputas eleitorais em diversas circunstâncias e em vários lugares do mundo, e continuará sendo decisivo nas urnas.
Se você precisasse explicar para um empresário ou tomador de decisão brasileiro por que ele não pode ignorar o resultado dessas eleições legislativas de agora, qual seria o seu principal argumento?
O principal argumento é que uma provável mudança no Congresso americano mexe diretamente com as expectativas do mercado financeiro nos EUA. Atualmente, as ações do setor de tecnologia são as grandes responsáveis por sustentar a bolsa americana, e existe o temor de que os democratas possam impor legislações que sirvam de freio para essas empresas. Um dos temas quentes na eleição tem sido a construção de data centers em diversos estados, algo ao qual os democratas se opõem de forma clara. Isso significa que poderemos ver um efeito direto no mercado de ações, somado à questão comercial, já que a oposição pode colocar travas nas tarifas adotadas pelo governo Trump. Portanto, tanto o cenário para o mercado de capitais quanto a política de tarifas tornam essa eleição um evento crucial para os negócios.
