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TecnologiaBDR
31/08/2026
8 min

Da era Steve Jobs aos US$ 5 trilhões: os números dos 15 anos de Tim Cook na Apple

Tim Cook deixa o comando da Apple após 15 anos com receita recorde, US$ 877 bilhões devolvidos aos acionistas e o desafio da inteligência artificial para o sucessor John Ternus

Da era Steve Jobs aos US$ 5 trilhões: os números dos 15 anos de Tim Cook na Apple

Tim Cook nunca quis ser Steve Jobs — e talvez seja exatamente por isso que, na terça-feira, 1º de setembro, ele deixará a Apple mais valiosa do que em toda a sua história.

Em 15 anos à frente da empresa, o executivo transformou o que era visto como um risco de sucessão em uma das trajetórias mais bem-sucedidas de criação de valor das big techs americanas.

Quando assumiu, em 24 de agosto de 2011, logo após a renúncia de Jobs, a Apple valia pouco menos de US$ 350 bilhões em bolsa — uma fortuna, mas ainda uma fração do que viria a se tornar.

Em 30 de julho deste ano, na última teleconferência de resultados de Cook como CEO, a empresa chegou a bater brevemente US$ 5 trilhões de valor de mercado — hoje opera em torno de US$ 4,5 trilhões, depois de uma correção no pregão seguinte ao balanço.

Entre um número e outro, estão 15 anos de decisões operacionais discretas (mais sobre cadeia de suprimentos, disciplina financeira e novas fontes de receita do que sobre grandes lançamentos revolucionários), que ajudaram a sustentar essa valorização.

De US$ 350 bi a US$ 5 tri: a explosão no valor de mercado da Apple

Ao longo da gestão de Cook, as ações da Apple subiram entre 1.900% e 2.180%, dependendo do período exato de comparação.

A empresa foi a primeira do mundo a atingir US$ 1 trilhão em valor de mercado, em agosto de 2018; dobrou para US$ 2 trilhões em agosto de 2020; chegou a US$ 3 trilhões em janeiro de 2022; e cruzou a marca de US$ 4 trilhões em outubro de 2025 — antes de flertar com os US$ 5 trilhões no fim do mandato de Cook.

Um trimestre de 2026 que supera todo o faturamento de 2011

O crescimento do negócio em si acompanhou a valorização em bolsa.

Em 2011, a receita anual da Apple foi de US$ 108 bilhões; no terceiro trimestre fiscal de 2026, encerrado em junho, a empresa faturou US$ 109,4 bilhões — mais do que todo o ano fiscal de 2011 em um único trimestre, segundo observação do analista Wamsi Mohan, do Bank of America, feita durante a última teleconferência de resultados de Cook.

A receita anual total da empresa no ano fiscal de 2025 foi de US$ 416,16 bilhões.

O lucro líquido também disparou: US$ 112 bilhões no ano fiscal de 2025, oito vezes o valor registrado em setembro de 2010, véspera da chegada de Cook ao comando — um avanço de 699%, alcançado apesar de obstáculos como a pandemia de covid-19 e as tensões geopolíticas entre Estados Unidos e China.

A era dos Serviços: a grande virada de chave de Tim Cook

A receita do iPhone saiu de US$ 47 bilhões em 2011 para US$ 54,3 bilhões apenas no trimestre mais recente — uma prova de que o produto que já definia a empresa antes de Cook assumir segue como pilar do negócio.

Mas a marca mais duradoura de sua gestão talvez seja a criação de uma nova frente de receita: o segmento de Serviços — que inclui App Store, iCloud, Apple Music e Apple Pay — faturou US$ 109,16 bilhões no ano fiscal de 2025, um volume que sozinho superaria a receita da maioria das empresas listadas no índice S&P 500.

App Store: sob a gestão de Cook, setor de serviços da Apple cresceu (Silas Stein/Getty Images)

2,5 bilhões de aparelhos e a transição para os chips Apple Silicon

A base instalada de dispositivos ativos da Apple — iPhones, iPads, Macs e demais produtos em uso — multiplicou-se por 12 durante o mandato de Cook, ultrapassando 2,5 bilhões de aparelhos.

Foi também sob sua gestão que a Apple concluiu a transição dos Macs dos processadores Intel para os chips próprios da linha Apple Silicon, iniciada em 2020 e finalizada em toda a linha até 2023.

Retorno aos acionistas: US$ 877 bi em recompras de ações

Ao longo dos 15 anos, Cook devolveu cerca de US$ 877 bilhões aos acionistas por meio de recompras de ações — uma cifra que ajuda a explicar por que a ação da Apple hoje é negociada a um múltiplo de cerca de 35 vezes o lucro projetado, patamar tipicamente reservado a empresas de software de alta margem, e não a fabricantes de hardware.

Quando Cook assumiu, em 2011, a Apple era negociada a um múltiplo de lucro na faixa de 10 a 15 vezes.

Quantos produtos novos a Apple lançou sob Cook?

Diferentemente de Steve Jobs — responsável por criar o Mac, o iPod, o iPhone e o iPad —, Cook não inventou uma categoria de produto totalmente nova a cada poucos anos.

Mas, ao longo de 15 anos, expandiu o portfólio da Apple para muito além do smartphone, criando ou consolidando pelo menos cinco novas frentes de produto.

A primeira foi o Apple Watch, lançado em 2015— a primeira categoria de hardware inteiramente nova da empresa desde a era Jobs, hoje um dos produtos mais lucrativos e consistentes do portfólio, com recursos de saúde como monitoramento de eletrocardiograma, detecção de queda e, mais recentemente, rastreamento de hipertensão e apneia do sono.

Segundo a consultoria Counterpoint Research, o Apple Watch liderou o mercado global de smartwatches no primeiro trimestre de 2026, com 23% de participação em unidades vendidas — a maior fatia entre todos os fabricantes.

Em 2016 vieram os AirPods — inicialmente ridicularizados nas redes sociais por seu formato, hoje um dos acessórios mais vendidos da história da eletrônica de consumo, com cerca de 80 milhões de unidades vendidas apenas no ano fiscal de 2025 e receita anual estimada em US$ 10 bilhões.

Em 2017, veio o iPhone X, redesenho que aboliu o botão físico "home" e introduziu o reconhecimento facial Face ID — modelo que se tornou referência de design para toda a indústria de smartphones.

E, em 2024, veio a aposta mais ambiciosa do período: o Vision Pro, óculos de computação espacial que introduziu a Apple em uma categoria totalmente nova de hardware imersivo — ainda que, até aqui, sem repetir o sucesso comercial das apostas anteriores.

O gargalo da gestão: o atraso na corrida da inteligência artificial

Nem todos os números do período são de crescimento — e o mais visível dos tropeços recentes de Cook tem nome: Siri.

A Apple anunciou o Apple Intelligence em 2024 prometendo uma versão radicalmente mais inteligente da assistente de voz, com maior personalização e capacidade de executar tarefas complexas dentro dos próprios aplicativos do usuário.

O lançamento, previsto originalmente para 2025, foi adiado — mesmo depois de a empresa já ter veiculado propaganda do recurso — para "o ano seguinte", segundo comunicado da própria Apple à época.

Em dezembro de 2025, a companhia trocou o comando do projeto. John Giannandrea, executivo à frente da estratégia de IA da empresa, anunciou aposentadoria, e a supervisão da área passou a ser dividida entre o diretor de operações Sabih Khan, o chefe de serviços Eddy Cue e Amar Subramanya, contratado vindo de Google e Microsoft, agora subordinado ao chefe de software Craig Federighi. A liderança direta da nova Siri ficou com Mike Rockwell, o mesmo executivo que havia comandado o lançamento do Vision Pro.

Em junho deste ano, durante a WWDC — conferência anual de desenvolvedores da Apple —, a empresa confirmou o que já era especulado havia meses: a nova Siri vai rodar sobre o Gemini, modelo de IA do Google, e não sobre uma tecnologia construída inteiramente dentro de casa.

Segundo a Apple, isso não significa que dados de usuários serão repassados ao Google — os modelos do Gemini seriam usados como base para o processamento próprio da Apple, batizado de Apple Foundation Models —, mas a decisão expôs, de forma pública, a dimensão do atraso da empresa na corrida por IA generativa iniciada com o lançamento do ChatGPT, em 2022.

A nova versão, batizada de "Siri AI", segue oficialmente prevista para este ano — a Apple tem até 31 de dezembro para cumprir o prazo que ela mesma estabeleceu publicamente, algo raro para uma empresa conhecida por nunca revelar antecipadamente seu roteiro de produtos.

Enquanto isso, a companhia segue atrás de rivais como Alphabet e Nvidia na disputa pelo posto de empresa mais valiosa do mundo — ambas hoje mais diretamente associadas ao avanço da infraestrutura e dos modelos de IA que redefinem o setor de tecnologia.

Quem assume o lugar de Tim Cook?

John Ternus entrou na Apple em 2001, ainda como membro da equipe de design de produto, e passou por praticamente todos os principais lançamentos de hardware da empresa nas duas décadas seguintes.

Foi promovido a vice-presidente de engenharia de hardware em 2013 e a vice-presidente sênior da mesma área em 2021 — cargo que ocupava até assumir a Apple.

O fim de uma era: Tim Cook deixa comando da Apple depois de 15 anos

Ao longo da carreira, teve participação direta no desenvolvimento de produtos como iPhone, iPad, Mac, AirPods e Apple Watch, e foi ele quem apresentou publicamente o MacBook Neo, em março deste ano.

Aos 51 anos, Ternus é descrito por colegas e pela imprensa especializada como um engenheiro respeitado e um líder de produto querido internamente — alguém que construiu reputação nos bastidores, ao contrário de executivos mais midiáticos do setor de tecnologia.

Diferentemente de Cook, cuja especialidade sempre foi operações e cadeia de suprimentos, Ternus tem formação e trajetória construídas dentro da própria engenharia de produto, o que alimenta a expectativa de que ele reforce a cultura de design da empresa daqui para frente.

AutorTamires Vitorio
FonteExame
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