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21/09/2026
6 min

Da etiqueta da Seleção à moda premium: como SC reinventa a indústria têxtil

La Moda, com 40 anos, e Haco, com 98, mostram na Casa EXAME SUL como tradição familiar, criação e tecnologia redesenham a indústria da moda em Santa Catarina

Da etiqueta da Seleção à moda premium: como SC reinventa a indústria têxtil

Uma começou como uma pequena confecção infantil no Sul de Santa Catarina e hoje reúne marcas de moda que movimentam mais de R$ 1,3 bilhão em sell-out.

A outra nasceu produzindo cadarços, há quase um século, e atualmente fabrica mais de 1 milhão de metros de etiquetas por dia — entre elas, o brasão que já esteve no peito da camisa da Seleção Brasileira.

Separadas por quase seis décadas de história, La Moda e Haco ajudam a explicar uma transformação que vai muito além das fábricas. A indústria catarinense que cresceu em torno de fios, teares, malharias e confecções passou a disputar também os territórios da criação, tecnologia, varejo, experiência e construção de marcas.

Foi essa mudança que colocou frente a frente Bruna Olivo, vice-presidente criativa do Grupo La Moda; Hugo Olivo, CEO da companhia; e Alberto Lowndes, CEO da Haco, no talk “A Moda em Transformação”, realizado na Casa EXAME SUL, durante o 5º CBA Networking Experience, em Florianópolis

“Santa Catarina abriga um dos maiores polos têxteis do Brasil. E falar sobre têxteis e tecidos termina em moda”, afirmou Bruna, que falou sobre o desafio de inovar, em especial na criação, sem perder a identidade, o legado das marcas.

Os números ajudam a dimensionar o terreno onde essas empresas cresceram. O setor de têxtil, confecção, couro e calçados reúne mais de 170 mil empregos formais em Santa Catarina e responde por quase 19% dos postos de trabalho da indústria estadual.

Boa parte desse legado foi construída no Vale do Itajaí, onde Blumenau e Brusque se consolidaram como alguns dos principais centros têxteis do país. No Sul do estado, outra vertente da indústria ganhou força, especialmente nas últimas décadas, com empresas que começaram na fabricação e avançaram para a construção de marcas próprias.

É nesse segundo movimento que aparece a história da família Olivo.Fundado em 1986, em Nova Veneza, por Arcílio e Vera Olivo, o Grupo La Moda começou com uma pequena confecção de roupas infantis, a La Moda Bambini. Durante cerca de duas décadas, esse foi o negócio da família.

A virada veio em 2006, com a criação da Lança Perfume. A empresa deixou a moda infantil, entrou no vestuário feminino adulto e começou uma transformação que acabaria levando a companhia para muito além da confecção.

Depois vieram a My Favorite, em 2016, e a Lança Perfume Easy, em 2021. Mais recentemente, o grupo avançou para o segmento super premium com a BO, marca autoral de Bruna Olivo.

Hoje, a La Moda produz mais de 4 milhões de peças por ano, atende aproximadamente 3 mil lojistas multimarcas, mantém lojas próprias e comercializa seus produtos também fora do Brasil. Em 2025, os sites das marcas somaram cerca de 30 milhões de acessos, enquanto o sell-out anual do grupo superou R$ 1,3 bilhão.

A transformação também alterou a relação com quem está na outra ponta do balcão. A companhia passou a investir em treinamento, conteúdo, inteligência comercial e ferramentas para os lojistas que trabalham com suas marcas.

Ou seja: a indústria deixou de entregar apenas roupa. Passou a participar também de como o produto é apresentado, vendido e percebido pelo consumidor.

Para Hugo Olivo, essa expansão carrega um componente adicional: a continuidade de um negócio familiar que chegou à segunda geração mantendo a família dentro da operação.

“São 40 anos de história, desde a fundação da empresa, e isso nos enche de orgulho. Temos uma marca catarinense de moda. É um prazer compartilhar um pouco da nossa visão de negócio e ajudar o mercado a se desenvolver, principalmente a moda e o varejo”, afirmou.

Hugo ocupa o comando executivo do grupo, enquanto Bruna Olivo atua na liderança criativa e Bianca Olivo também está diretamente ligada à construção das marcas. A família que começou produzindo roupas infantis no interior catarinense hoje administra um negócio que reúne indústria, criação, atacado, varejo, canais digitais e construção de marca.

Do cadarço ao brasão da Seleção Brasileira

Se a La Moda mostra como uma confecção pode se transformar em um grupo de moda, a Haco conta essa história pela outra ponta da cadeia.

Fundada em 1928, no interior de Blumenau, a empresa começou produzindo cadarços. Quase um século depois, transformou a identificação de marcas em um negócio global e chega aos 98 anos sob o comando da quarta geração da família.

“É uma empresa de 98 anos e eu sou da quarta geração da família”, afirmou Alberto Lowndes durante o encontro.Hoje, a Haco possui mais de 40 mil metros quadrados de parque fabril, cerca de 1,3 mil colaboradores, atende clientes em mais de 40 países e tem capacidade para produzir mais de 6 bilhões de etiquetas por ano.

Outro número traduz melhor a escala industrial: são mais de 1 milhão de metros de etiquetas produzidos diariamente.Mas talvez o exemplo mais visível dessa fábrica catarinense caiba em poucos centímetros.

A relação da Haco com a Seleção Brasileira remonta a décadas. Na Copa do Mundo de 2022, o brasão da CBF aplicado no uniforme utilizado pela equipe no Catar foi produzido em Blumenau. Os patches foram fabricados com material 100% reciclado, dos fios aos acabamentos.

Na prática, uma das imagens mais reconhecidas do esporte brasileiro carregava no peito um produto made in Santa Catarina.A empresa também desenvolveu brasões para alguns dos principais clubes brasileiros e transformou aquilo que, à primeira vista, seria apenas um acabamento da roupa em produto de tecnologia, identidade e valorização de marca.

É justamente nesse ponto que Lowndes mostra o quanto o modelo de negócio se distanciou da antiga fábrica de etiquetas.“A gente trabalha diretamente com moda, então cria cada vez mais a coleção junto com os clientes. A gente brinca que somos um birô de criação”, afirmou.

A expressão traduz uma mudança importante. A Haco já não entra necessariamente no processo quando a roupa está pronta. A empresa pesquisa comportamento, tendências e varejo e participa, em alguns casos, do próprio desenvolvimento das coleções dos clientes.

Seu portfólio também cresceu. Além das etiquetas tradicionais, a companhia trabalha com soluções como RFID, tecidos jacquard, transfers, metais, tags, embalagens e identificação inteligente.

É uma mudança que acompanha a própria transformação da indústria da moda.Inteligência artificial, digitalização da produção, integração de dados e ciclos cada vez menores entre criação, fabricação e venda passaram a fazer parte de um mercado pressionado pela velocidade da ultra fast fashion e pelo avanço das importações.

Nesse cenário, as histórias da La Moda e da Haco acabam se encontrando.Uma começou fazendo roupa infantil e hoje administra marcas de moda com alcance nacional e internacional. A outra nasceu produzindo cadarços e, quase cem anos depois, fabrica bilhões de etiquetas, desenvolve tecnologia e ajuda os próprios clientes a criar coleções.

Uma coloca a roupa na vitrine. A outra, muitas vezes, produz justamente o detalhe que diz ao consumidor quem está por trás dela.Na Casa EXAME SUL, as duas trajetórias chegaram ao mesmo ponto: na moda, fabricar continua sendo essencial, mas já não é suficiente.

A indústria catarinense construída sobre fios, teares e confecções está avançando sobre criação, tecnologia, varejo e construção de marcas. E talvez esteja justamente nessa capacidade de mudar sem romper com a própria história uma das explicações para empresas familiares conseguirem atravessar não apenas coleções, mas gerações.

AutorRafael Martini
FonteExame
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