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Mundo
07/10/2026
5 min

Da falta de professores à crise fiscal: por que a França voltou às ruas

Quase 90 mil manifestantes foram às ruas nesta terça-feira, ampliando a pressão sobre o governo francês a poucos meses das eleições presidenciais

Da falta de professores à crise fiscal: por que a França voltou às ruas

Quase 90 mil estudantes, professores e pais saíram às ruas nesta terça-feira, 6, em diversas cidades da França, em uma nova jornada nacional de protestos contra as condições do sistema público de ensino.

O Ministério do Interior contabilizou 86 mil participantes pela manhã e estimou que até 40 mil ainda poderiam participar da manifestação em Paris, segundo o jornal britânico The Guardian.

O movimento começou ainda em 21 de setembro, na escola Saint-Exupéry, nos subúrbios ao norte de Paris, onde estudantes se uniram a professores em uma mobilização contra a falta de funcionários e recursos.

Embora a escola tenha recebido suas demandas e encerrado a paralisação inicial, os protestos rapidamente se espalharam para outras instituições e ganharam dimensão nacional.

A mobilização passou a atingir cidades de diferentes regiões, com bloqueios nas entradas das escolas e confrontos com a polícia. Nesta terça-feira, a União Nacional dos Estudantes de Liceu afirmou à mídia que cerca de 1.800 das 3.700 escolas de ensino médio do país estavam bloqueadas ou fechadas, embora autoridades locais tenham tentado transferir algumas aulas para o formato on-line.

Protestos

Pessoas participam de uma manifestação que integra um dia de ações em âmbito nacional, convocado por estudantes do ensino médio — com a adesão de sindicatos e professores —, que, há dias, exigem melhores condições de ensino, em protestos marcados por confrontos violentos em Paris, em 6 de outubro de 2026.

Por trás da revolta estão problemas acumulados no sistema educacional, como salas superlotadas, prédios deteriorados e a ausência frequente de professores sem substituição adequada.

O número de alunos do ensino secundário aumentou em cerca de 250 mil desde 2008, enquanto o de professores caiu no mesmo período, segundo os dados apresentados pelo movimento.

A pressão sobre o sistema também aumentou após o aumento do número de nascimentos em 2010, o que elevou o número de estudantes justamente quando as escolas enfrentavam anos de redução real de recursos. No setor público, cerca de 70% das salas têm mais de 30 alunos, segundo os dados citados nas manifestações.

A violência, porém, transformou a crise educacional em um problema de segurança pública. Embora muitos atos tenham ocorrido de forma pacífica, manifestantes incendiaram lixeiras, danificaram estruturas e arremessaram objetos contra policiais, que responderam com cassetetes, gás lacrimogêneo e munições de controle de distúrbios.

Desde o início dos protestos, 24 escolas foram incendiadas ou saqueadas, segundo o Ministério da Educação. O governo contabiliza 715 policiais e 215 adolescentes feridos, além de 6.100 prisões, a maioria envolvendo menores de idade, enquanto mais de 1.800 pessoas estão sendo processadas.

Alguns episódios envolvendo adolescentes aumentaram a controvérsia em torno da atuação policial. Um jovem de 15 anos teve a mão amputada após uma explosão durante um confronto no norte do país, enquanto um adolescente de 16 anos perdeu a visão de um olho após ser atingido na cabeça durante um bloqueio em Tours.

Outro caso ocorreu nos subúrbios de Paris, onde um adolescente de 14 anos perdeu a maior parte dos dentes após um policial disparar uma granada a curta distância. Organizações de direitos humanos, sindicatos e grupos estudantis acusam as forças de segurança de uso desproporcional da força; o Ministério do Interior abriu dez investigações internas sobre alegações de violência policial.

Crises sobre crises

Um manifestante atira uma pedra durante uma manifestação de estudantes do ensino médio em Paris, em 6 de outubro de 2026, como parte de um movimento nacional de protesto contra as condições de ensino.

O governo, por sua vez, tenta responder às reivindicações centrais dos estudantes, entre elas a substituição de professores ausentes, a revisão da jornada escolar, que pode se estender das 8h às 18h, e a recuperação de prédios deteriorados. O primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, determinou que seus ministros tratem diretamente dessas demandas.

As manifestações também assumiram uma dimensão política a sete meses das eleições presidenciais que definirão o sucessor de Emmanuel Macron, tanto devido aos problemas institucionais quanto aos financeiros por trás da crise. A esquerda radical, especialmente La France Insoumise, de Jean-Luc Mélenchon, passou a apoiar os estudantes e a marcar presença nas manifestações. Devido a isso,a incumbência acusa o partido de estimular ou até mesmo organizar os bloqueios.

A fragilidade das contas públicas que levou aos problemas e à instabilidade política também deve pesar na eleição presidencial. A candidata de extrema direita, Marine Le Pen, aparece na liderança das pesquisas e promete reduzir o déficit para menos de 3% do PIB em 18 meses — o país fechou 2025 com o déficit equivalente a 5,1% do PIB —, embora analistas questionem como o plano poderia conciliar cortes expressivos com a promessa de não aumentar impostos nem reduzir os principais gastos sociais.

Ao mesmo tempo, Lecornu tem pouco espaço fiscal para ampliar os gastos com educação no curto prazo. O governo prepara um ajuste de 54 bilhões de euros no orçamento de 2027, que pode incluir o congelamento dos salários de servidores, como professores, enquanto o Parlamento terá 70 dias para discutir a proposta em meio a uma forte divisão política.

A disputa orçamentária ocorre sob pressão dos mercados, com os juros dos títulos franceses de 10 anos subindo 1,29 pontos percentuais no ano. A França encerrou 2025 com déficit equivalente a 5,1% do PIB e dívida de 119% do PIB, muito acima dos limites previstos pelas regras fiscais da União Europeia.

Assim, uma revolta que começou com professores ausentes, salas superlotadas e escolas deterioradas passou a se cruzar com os dois grandes problemas que moldarão a política francesa nos próximos meses: a dificuldade de financiar os serviços públicos e a disputa sobre como corrigir as contas do país.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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