Da força da água a novos mercados: essa empresa gaúcha mira R$ 150 milhões com nova expansão
Após 38 anos, a “Hidroenergia” passa a se chamar “Keltra” e busca turbinar o negócio no Brasil e no exterior. Como? Apostando em novas fontes de energia

Depois de construir uma história de 38 anos fornecendo equipamentos para hidrelétricas, uma indústria do interior do Rio Grande do Sul decidiu que chegou a hora de ir além da força da água.
A Hidroenergia, empresa familiar fundada em Ijuí, no noroeste do Rio Grande do Sul, entra em uma nova fase sob a marca Keltra. O movimento vem acompanhado de duas novas verticais de negócios, expansão da fábrica e R$ 18 milhões em investimentos entre 2026 e 2027.
À frente desse novo ciclo está o engenheiro civil Rafael Kieling, CEO da companhia e filho de Marcos Kieling, fundador da companhia que morreu em setembro de 2024.
“Fui crescendo dentro da empresa e adquirindo conhecimento, estando muito próximo das usinas e fazendo gestão em campo”, afirma o CEO, que começou na área de projetos e passou pela operação e pela gestão antes de assumir o comando.
Agora, sua missão é usar a engenharia desenvolvida ao longo de quase quatro décadas nas hidrelétricas para disputar outros mercados.
“A ideia é posicionar a empresa de uma maneira diferente, tanto para o mercado nacional quanto para o mercado externo,” diz o CEO.
O objetivo, segundo Kieling, é levar uma companhia que faturou R$ 81 milhões em 2025 para aproximadamente R$ 94 milhões neste ano e alcançar R$ 150 milhões até o fim da década.
A companhia já participou de projetos relevantes no Brasil e no exterior. Entre eles estão o Complexo Guanhães, da Cemig, em Minas Gerais, com fornecimento realizado em 2020, e mais recentemente, a empresa conquistou um novo contrato para a PCH Edgard de Souza, da Emae, em Santana de Parnaíba (SP). O projeto, firmado em 2026 em consórcio com a SEEL, envolve o fornecimento de equipamentos e a execução de obras.
Rafael Kieling, CEO da Keltra: “A ideia do novo nome é posicionar a empresa de uma maneira diferente, tanto para o mercado nacional quanto para o mercado externo" (Keltra/Divulgação)
Das hidrelétricas para novos mercados
A história da companhia começou no setor elétrico, com a fabricação de reguladores de velocidade e tensão e outros equipamentos destinados a pequenas centrais hidrelétricas.
A partir dos anos 2000, a empresa passou a produzir turbinas hidráulicas. No final daquela década, incorporou também a fabricação de geradores.
O portfólio foi crescendo até permitir que a empresa fornecesse diferentes componentes da chamada ilha de geração de uma pequena usina, incluindo turbinas, geradores, reguladores e sistemas de automação.
“Temos uma base tecnológica e de engenharia muito forte, desenvolvida ao longo desses 38 anos. Isso nos leva a um patamar diferente e possibilita o nosso crescimento”, afirma o CEO.
Atualmente, a companhia tem capacidade para produzir entre 300 e 400 toneladas de equipamentos por ano, em uma média de 15 a 20 projetos.
A fabricação funciona sob encomenda. Como turbinas e geradores são desenvolvidos especificamente para cada usina, o volume varia conforme o porte dos projetos contratados.
“O prazo médio entre a contratação e a entrega dos equipamentos para uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH) é de 14 a 16 meses”, afirma Kieling.
A transformação em Keltra pretende levar essa experiência para além das hidrelétricas.
A empresa passa a trabalhar com três frentes: o negócio tradicional de hidroenergia e as novas verticais de automação e infraestrutura.
Na automação, o plano é aplicar a tecnologia já desenvolvida para usinas hidrelétricas em outras fontes de geração de energia, como solar, eólica e térmica.
“Como já temos o desenvolvimento da tecnologia de automação para hidrelétricas, levamos esse desenvolvimento para outras fontes de geração de energia”, diz Kieling.
Na infraestrutura, a companhia pretende fornecer equipamentos para obras hidráulicas, saneamento e grandes barragens, entre outras aplicações.
“Diversificamos de forma relacionada”, afirma o executivo. “Levamos nossa competência para esses setores também, e isso potencializa o nosso crescimento.”
O prazo médio entre a contratação e a entrega dos equipamentos da Keltra para uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH) é de 14 a 16 meses (Keltra/Divulgação)
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A escolha do novo nome: Keltra
Como a empresa vai atender além das hidrelétricas, o novo nome procura preservar a origem e o novo momento.
O nome Keltra reúne referências ao sobrenome Kieling (K), à energia elétrica (EL) e às palavras transformação e trabalho (TRA).
A ideia é que a nova marca represente a mudança sem apagar o que veio antes.
“Queremos vestir a camisa Keltra, mas sem esquecer o legado da Hidroenergia e tudo que nos trouxe até aqui”, afirma. “É essa história que vai nos dar força para potencializar a Keltra.”
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R$ 18 milhões para ampliar a fábrica
A mudança de posicionamento será acompanhada por investimento industrial.
A companhia tem R$ 8 milhões em investimentos contratados para 2026 e pretende desembolsar outros R$ 10 milhões até o final de 2027, totalizando R$ 18 milhões no ciclo.
O dinheiro será usado para ampliar a estrutura em Ijuí. A fábrica de turbinas ganhará cerca de 1.100 metros quadrados, enquanto aproximadamente 1.800 metros quadrados serão acrescentados principalmente à área de automação e fabricação de painéis de comando.
Também está prevista a compra de equipamentos industriais de maior porte, como tornos verticais e horizontais.
“Estamos adquirindo equipamentos de grande porte para alcançar equipamentos maiores, para podermos fabricar equipamentos maiores, que é o que será demandado por esses clientes”, afirma Kieling.
Com a expansão, a capacidade anual de fabricação de turbinas e geradores deverá alcançar entre 500 e 600 toneladas, ante as atuais 300 a 400 toneladas.
O avanço está relacionado, entre outros fatores, à expectativa da companhia com novos projetos de pequenas centrais hidrelétricas no país.
A empresa acompanha os empreendimentos que comercializaram energia em leilões e precisarão entrar em operação nos próximos anos, diz Kieling.
“Estamos nos preparando para esse crescimento, para essa demanda das PCHs e também pensando na nossa expansão”, afirma.
Com a expansão, a capacidade anual de fabricação de turbinas e geradores da Keltra deverá alcançar cerca de 600 toneladas, ante as atuais 400 toneladas (Keltra/Divulgação)
De 240 para 300 funcionários
O investimento também deverá movimentar o mercado de trabalho de Ijuí.
A companhia emprega atualmente cerca de 240 pessoas e pretende chegar a 300 funcionários até 2027. Na prática, a expansão deve abrir aproximadamente 60 vagas.
A demanda é especialmente por mão de obra técnica, incluindo profissionais de engenharia, elétrica, usinagem, soldagem e tornearia mecânica.
A empresa mantém relacionamento com universidades e escolas técnicas da região para formar e contratar esses profissionais.
“É uma mão de obra muito técnica. Temos um grande relacionamento com a universidade aqui no noroeste do estado, escolas técnicas, fornecedores e prestadores de serviço”, diz Kieling.
Segundo o empresário, aproximadamente 80% dos profissionais da engenharia da empresa foram formados na própria região.
“São pratas da casa, como a gente gosta de dizer.”
Por enquanto, o aumento da produção continuará concentrado no Rio Grande do Sul.
“Nossa força está aqui. As pessoas estão aqui e temos muitas parcerias na região”, afirma.
No futuro, porém, a companhia não descarta instalar escritórios comerciais e postos avançados de serviços no Sudeste, Centro-Oeste ou mesmo no exterior, principalmente para ficar mais próxima dos clientes.
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Uma indústria no berço da soja
A permanência em Ijuí também ajuda a contar uma particularidade da trajetória da companhia.
Embora a Keltra tenha se especializado em energia, ela cresceu em uma região cuja economia tem raízes profundas no agronegócio.
Ijuí está localizada no noroeste gaúcho, próxima a municípios que se desenvolveram a partir da produção agrícola e da indústria de máquinas e equipamentos.
Kieling cita Santa Rosa, também no noroeste do estado, como uma cidade conhecida na região como “berço nacional da soja”. O desenvolvimento do agronegócio ajudou, segundo ele, a atrair universidades, indústrias, serviços e profissionais especializados para os municípios do entorno.
“É uma região muito forte no agro e que se desenvolveu a partir dessa base agrícola. Isso trouxe muito desenvolvimento para a nossa região”, afirma.
A economia local, porém, deixou de depender exclusivamente do campo.
“Tem raízes no agro, mas diversificou bastante. Panambi, Ijuí e Santa Rosa são polos industriais da região noroeste”, diz Kieling.
É nesse ecossistema que a Keltra pretende concentrar a próxima etapa de expansão.
A meta de R$ 150 milhões
A expansão da fábrica, as novas verticais e a internacionalização sustentam uma meta ambiciosa para uma indústria que encerrou 2025 com R$ 81 milhões de faturamento.
Para este ano, a expectativa é crescer cerca de 15%, levando a receita para aproximadamente R$ 94 milhões.
Até 2029 ou 2030, o objetivo é alcançar R$ 150 milhões.
“É o nosso projeto de crescimento. Não digo que estamos sendo tão otimistas, mas é o que enxergamos que o mercado pode trazer para a gente”, afirma Kieling.
O executivo conhece de perto, porém, os altos e baixos de comandar uma indústria no Brasil.
Segundo ele, um dos momentos mais difíceis da história da companhia aconteceu durante a crise econômica entre 2014 e 2016. A empresa teve prejuízos e precisou passar por uma reorganização para atravessar o período.
“Não só nós, como todo o mercado sofreu. Tivemos que nos reorganizar e nos reestruturar para passar por aquela fase”, diz. “Nos reinventamos e estamos fortes novamente, praticamente uma década depois.”
Agora, depois de construir uma empresa movida pela força da água, o desafio da Keltra será provar que consegue encontrar energia para crescer também em outros segmentos e países.

Exportações podem passar de 10% para 40%
O plano para chegar aos R$ 150 milhões de faturamento não depende apenas do mercado brasileiro.
Hoje, aproximadamente 10% da receita da companhia vem do exterior. Até 2030, a meta é fazer essa fatia chegar a 40%.
O foco será principalmente a América Latina. A companhia já atende mercados como Argentina, Colômbia e Peru, além de países da América Central.
“O nosso objetivo como empresa é transformar esse mercado externo em 40% do nosso faturamento”, afirma Kieling.
Os produtos exportados continuam concentrados no core histórico da empresa: turbinas, geradores, painéis de comando e reguladores destinados a hidrelétricas de pequeno e médio porte.
A companhia, porém, já conseguiu levar sua tecnologia para bem mais longe.
Entre 2019 e 2020, realizou um fornecimento para o Japão, projeto que Kieling considera um marco na trajetória internacional da Hidroenergia.
“O Japão mostrou a força da nossa indústria e a nossa capacidade de desenvolver tecnologia”, diz.
Um novo passo internacional pode estar próximo. Segundo o CEO, a empresa negocia um contrato relevante fora do Brasil em parceria com outra companhia brasileira. A expectativa é de concluir as negociações em cerca de 90 dias.
“Vai ser um marco muito importante para nos posicionarmos nesse mercado externo”, afirma.
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