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28/10/2026
9 min

Da IA ao espaço: 10 tendências que vão transformar a transição energética até 2050

Estudo da MIT com apoio da Deloitte aponta tecnologias que podem acelerar a descarbonização e oportunidades para o Brasil em energia limpa, armazenamento e novos combustíveis

Da IA ao espaço: 10 tendências que vão transformar a transição energética até 2050

A inteligência artificial está no centro de uma nova corrida global por energia: até 2030, o consumo de eletricidade dos data centers poderá mais que dobrar, segundo projeções da Agência Internacional de Energia (IEA).

Com a demanda energética em alta, governos e empresas enfrentam um novo desafio: como garantir eletricidade suficiente para sustentar o avanço tecnológico sem comprometer as metas de descarbonização?

Ao mesmo tempo em que pressiona o consumo, a própria IA pode ajudar a tornar os sistemas elétricos mais eficientes, prever a geração de fontes renováveis e otimizar a distribuição de energia.

O quebra-cabeça ganha outra peça diante das tensões geopolíticas e dos conflitos internacionais, que colocam a segurança energética no foco de decisões estratégicas. 

É nesse cenário que dez megatendências, da inteligência artificial à geração de energia no espaço, prometem transformar o setor energético até 2050 e revolucionar um futuro mais limpo. .

Apresentado nesta quarta-feira, 28, durante o Energy Summit no Rio de Janeiro, o relatório foi produzido pelo MIT Technology Review Brasil, com apoio da Deloitte, e analisou mais de 60 macrotendências tecnológicas e regulatórias.

Segundo Hudson Mendonça, CEO do Energy Summit, o foco é apontar caminhos para conciliar o crescimento da demanda por eletricidade, a segurança energética e a transição para uma economia de baixo carbono.

“O que estamos vendo agora é diferente. A demanda por energia vai crescer junto com a IA, a eletrificação, a digitalização e a reindustrialização. Isso exige adicionar soluções, combinar tecnologias e construir um sistema muito mais flexível, integrado e resiliente”, afirmou. 

A análise parte do conceito de adição energética: diante do aumento do consumo mundial, a descarbonização dependerá não apenas da substituição de fontes tradicionais, mas também da incorporação de novas tecnologias, infraestruturas e modelos de negócio.

Isso significa que, além de ampliar a geração renovável, o setor precisará investir em armazenamento de eletricidade, modernização das redes, novos combustíveis e soluções capazes de garantir a continuidade do abastecimento.

O que está em jogo para o Brasil

Para o Brasil, a transformação pode abrir oportunidades em diferentes segmentos da economia, da produção de biocombustíveis ao processamento de minerais utilizados em baterias e motores elétricos.

O país vantagens para participar dessa corrida: mais de 85% da matriz elétrica brasileira é renovável, além de o território contar com disponibilidade de biomassa, reservas de minerais estratégicos, infraestrutura portuária e experiência tecnológica em operações de petróleo e gás em águas profundas.

Essas condições podem favorecer a atração de data centers mais sustentáveis, o desenvolvimento de combustíveis de baixa emissão e a criação de novas cadeias industriais ligadas à transição energética.

Por outro lado, o potencial não garante protagonismo. O estudo aponta obstáculos relacionados à regulação, ao financiamento, à infraestrutura e à capacidade de transformar conhecimento tecnológico em projetos de escala comercial.

“O Brasil aparece nessas tendências não por uma única vantagem, mas pela combinação de várias. O ponto central agora é transformar potencial em execução e fazer governo, empresas, academia, investidores e empreendedores avançarem na mesma direção”, destaca Mendonça.

Um dos caminhos é ampliar a participação brasileira nas cadeias de minerais críticos. Em vez de atuar apenas na extração de lítio, níquel, nióbio e terras raras, o país poderia avançar no processamento, refino e fabricação de produtos de maior valor agregado.

Na área de combustíveis renováveis, a experiência com o etanol e a disponibilidade de biomassa também tornam favorável desenvolver soluções verdes destinadas a setores de difícil eletrificação e alta emissão, como aviação e navegação.

Da energia limpa à fusão nuclear: o que muda até 2050?

Segundo o estudo, as transformações não devem ocorrer ao mesmo tempo.

As aplicações de inteligência artificial no setor elétrico e os sistemas de armazenamento de energia aparecem entre as tendências mais próximas, com horizonte de avanço entre 2026 e 2028.

Outras tecnologias ainda enfrentam barreiras técnicas e econômicas. É o caso da fusão nuclear, cuja aplicação comercial em larga escala permanece incerta, e da geração de energia no espaço, considerada uma "possibilidade de longo prazo". 

A diferença entre os estágios de desenvolvimento também mostra que a transição energética dependerá de soluções disponíveis hoje e de tecnologias que ainda precisam demonstrar viabilidade econômica.

Para Patricia Muricy, sócia-líder para a indústria de energia, recursos naturais e industriais da Deloitte, a capacidade de integrar essas inovações será determinante para o funcionamento do sistema energético.

“A modernização das redes elétricas e dos sistemas de monitoramento e operação torna-se fundamental para garantir confiabilidade, eficiência e resiliência", afirmou, reforçando o papel decisivo da IA para ampliar a capacidade de previsão, otimização e tomada de decisão em um ecossistema "cada vez mais integrado, dinâmico e orientado pela inovação". 

As 10 megatendências da energia até 2050

O relatório identifica dez frentes tecnológicas com diferentes horizontes de desenvolvimento e oportunidades para o Brasil.

1. Energia para a IA e IA para energia (2026–2028)

A expansão dos data centers deve elevar a demanda por eletricidade, enquanto a inteligência artificial pode ajudar a prever a geração renovável e otimizar a operação dos sistemas elétricos.

A matriz renovável brasileira representa uma vantagem para atrair investimentos, desde que acompanhada de infraestrutura e capacidade de conexão à rede.

2. Flexibilidade e armazenamento em escala (2026–2028)

Baterias de grande capacidade, armazenamento de longa duração e usinas virtuais podem ajudar a equilibrar a oferta e a demanda de eletricidade. Essas tecnologias ganham importância com a expansão da geração solar e eólica, que enfrenta o gargalo da intermitência e depende das condições climáticas. 

Com quase R$ 20 bilhões em jogo, o Brasil prevê dois leilões de baterias para dezembro. Na terça-feira, 27, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou os editais para os contratos que terão início em agosto de 2028.

3. Minerais críticos e valor industrial (2027–2032)

Os minerais críticos já estão no centro da disputa geopolítica e serão cada vez mais relevantes para a produção de baterias, motores elétricos e materiais necessários para a transição energética.

A China detém a maior parte da capacidade mundial de processamento e refino desses materiais, além de dominar a oferta de terras raras, e os Estados Unidos querem reduzir essa dependência, buscando diversificar fornecedores e atrair parceiros com reservas relevantes.

Nesse cenário, o Brasil, que possui grandes reservas de nióbio, lítio, níquel e terras raras, ganha peso estratégico e pode negociar investimentos que tragam industrialização para o país, em vez de se limitar ao papel de exportador de matéria-prima.

4. Robótica e inteligência artificial no petróleo e gás (2026–2030)

Robôs submarinos, sensores inteligentes e sistemas autônomos podem ampliar a automação das operações offshore (em alto-mar). A experiência brasileira no pré-sal é apontada como uma vantagem para desenvolver e aplicar essas tecnologias.

5. Soluções baseadas na natureza e bioeconomia florestal (2026–2029)

Projetos de conservação, restauração florestal e manejo sustentável podem criar novas oportunidades econômicas ligadas à natureza. O desenvolvimento desse mercado depende de financiamento, monitoramento e mecanismos que garantam a integridade ambiental.

6. Biorrefinarias avançadas e combustíveis renováveis (2026–2030)

Combustível sustentável de aviação (SAF), biometano, diesel verde (HVO) e etanol de segunda geração podem contribuir para reduzir emissões em atividades nas quais a eletrificação é mais difícil. A disponibilidade de biomassa e a experiência do setor sucroenergético favorecem o Brasil.

7. Infraestrutura para mobilidade elétrica e híbrida flex (2026–2029)

O crescimento dos veículos elétricos e híbridos exigirá mais pontos de recarga e integração com a rede elétrica. No Brasil, a combinação de eletrificação e biocombustíveis aparece como uma alternativa para a descarbonização do transporte.

8. Fusão nuclear (2035–2045)

A tecnologia busca reproduzir, de forma controlada, o processo de fusão de núcleos atômicos para gerar energia. Apesar dos avanços científicos, a produção comercial em larga escala ainda depende da superação de desafios tecnológicos e econômicos.

9. Energia no espaço (2038–2050)

A geração solar em órbita e o desenvolvimento de microrreatores orbitais estão entre as possibilidades de longo prazo. Ainda experimentais, essas tecnologias podem abrir novas frentes de pesquisa e desenvolvimento, inclusive para o Brasil.

10. Hidrogênio verde marítimo e combustíveis sintéticos (2030–2038)

O uso de eletricidade renovável para produzir hidrogênio e combustíveis derivados, como amônia e metanol de baixa emissão, pode contribuir para a descarbonização da navegação e da indústria siderúrgica. A infraestrutura portuária e a oferta de energia renovável são vantagens brasileiras para o desenvolvimento dessa cadeia.

AutorSofia Schuck
FonteExame
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