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CarreiraBDR
06/11/2026
6 min

Da IBM aos boards, ela fechou os 10 anos do ABP-W: ‘Temos muito a dizer sobre o mundo que criamos’

Conselheira e professora em Melbourne, Alice Sidhu fala sobre carreira, inovação e o lugar das mulheres à mesa

Da IBM aos boards, ela fechou os 10 anos do ABP-W: ‘Temos muito a dizer sobre o mundo que criamos’

Alice Sidhu passou cerca de 25 anos em cargos executivos, com passagens por IBM e HP, antes de trocar a rotina corporativa pelos conselhos e pela sala de aula. Em 30 de outubro, levou essa trajetória ao palco do encontro de 10 anos do ABP-W, programa da Saint Paul para mulheres que se preparam para conselhos de administração. O evento aconteceu na sede da escola, na Rua da Consolação, em São Paulo.

Última palestrante do dia, ela apresentou "Women Who Change the Future", sobre o papel das mulheres na inovação. "Não escolhemos o mundo que herdamos, mas temos muito a dizer sobre o mundo que criamos", diz.

Hoje conselheira e professora associada à Melbourne Business School, Alice soma mais de 20 anos de experiência em transformação digital, inovação e estratégia.

De estudos clássicos aos dados

Alice estudou direito e estudos clássicos, com filosofia no currículo, uma formação que, segundo ela, se mostrou útil agora que o debate sobre inteligência artificial ganhou espaço. O primeiro emprego foi com dados e análise na área de cadeia de suprimentos.

Foi ali que aprendeu que a tecnologia fazia as coisas acontecerem, mas não era o fim em si. A trajetória, diz, foi uma combinação de vontade própria e oportunidade. "Constantemente mudando e buscando mais desafios, em vez de ficar parada", afirma.

Depois de anos em empresas privadas, em funções globais, ela foi para o setor público. A diferença, conta, está no horizonte e no alcance. No governo, não há acionistas cobrando resultados a cada trimestre, e os projetos afetam milhões de pessoas.

Um sistema que ainda não existia

O projeto que mais marcou a carreira de Alice veio depois dos incêndios florestais do Black Saturday, na Austrália. O governo anunciou um sistema nacional de alertas de emergência sem saber se ele era viável. "A tecnologia não existia", diz.

Alice liderou a equipe comercial da implementação, ao lado de quem comandava a frente de serviços de emergência. Em cerca de seis meses, o time desenvolveu a tecnologia, testou o sistema e fez a educação da população, que somava na época cerca de 24 milhões de pessoas. Foi o primeiro sistema do tipo no mundo, e ainda está em uso.

A lição, segundo ela, é que propósito claro, equipe certa e valores alinhados tornam possível o que parecia impossível. Ela não romantiza o processo. "Ninguém teve um fim de semana por uns seis meses", lembra. A única hora livre para correr era às 5h da manhã.

A tecnologia como lanterna, não como resposta

Na IBM, Alice integrou a equipe que trabalhou com a cidade de Rochester, nos Estados Unidos, em iniciativas contra a pobreza sistêmica. A cidade, sede da Kodak, havia sido rica e enfrentou o fechamento da empresa e a perda de empregos. Segundo ela, tinha uma das maiores taxas de pobreza infantil do país.

O trabalho ensinou que dados bem analisados tiram a emoção do debate e ajudam a construir consenso sobre a existência de um problema. Mas só isso não basta.

"A tecnologia não é a resposta. Não dá para simplesmente instalar a tecnologia e esperar que ela resolva as coisas. É preciso trazer as pessoas junto", diz. Para Alice, os dados ajudam a escolher por onde começar e a mostrar resultados rápidos, o que cria impulso. Sem isso, as pessoas perdem a esperança.

Por que trocar o cargo executivo pelos conselhos

Foram cerca de 25 anos em cargos corporativos. Há uma década, Alice decidiu mudar. Queria ver uma linha direta entre o que fazia e os resultados.

A carreira executiva, diz, ensina a navegar a complexidade e as dinâmicas das organizações. O conselho oferece outra perspectiva. "Não é mão na massa, mas você pode usar tudo o que sabe para dar uma boa direção", afirma. O desafio é entender que o conselheiro responde por uma função e apoia o time executivo, mas não executa.

A sala de aula entrou na história sem planejamento. Na educação executiva, Alice valoriza o espaço seguro para simular e experimentar, algo que muitos executivos não encontram nas empresas.

Uma semana com a graduação da Saint Paul

Na semana do evento, Alice também deu aulas para alunos da graduação da Saint Paul. A primeira surpresa foi a curiosidade da turma sobre Vegemite, a pasta salgada típica da Austrália. A segunda, a quantidade de alunos que já tocam negócios próprios.

"Eles são muito criativos e muito inovadores", diz. "Acho que vão ser uma geração para ficar de olho." No último dia, um debate revisou o conteúdo da semana antes da prova. Os alunos estavam nervosos, mas toparam o desafio e foram bem.

Inovação sem jaleco

No ABP-W 10 anos, Alice apresentou a palestra "Women Who Change the Future". O convite inicial era falar de inovação, e ela quis evitar uma lista de invenções e patentes.

A palestra mostrou como a inovação aparece em diferentes áreas, nos negócios, na saúde, na filantropia, na ética e na governança. Passou pelo passado, pelo presente e pelo futuro, com histórias de mulheres como uma romancista, uma estilista e uma artista que faz música com inteligência artificial.

A ideia de que cada geração pode moldar o mundo que cria é, para ela, a oportunidade de inovação para as mulheres. E não é preciso ser fundadora, mandar foguetes ao espaço ou usar gola rolê preta para fazer parte disso.

Sobre a década do programa, ela credita o resultado às participantes e à equipe da diretora Christiane Aché. "É um testemunho das mulheres que fizeram parte dele", diz.

‘Nunca entrei em um espaço que não tivesse conquistado’, diz

Na maior parte da carreira, Alice foi a única mulher na sala. Ela tenta não se prender a isso. O que funciona, diz, é não cair na dúvida, comum entre mulheres, sobre ter merecido o lugar à mesa.

"Nunca entrei em um espaço que eu não tivesse conquistado. Então por que eu não deveria ocupá-lo?", afirma. "Nunca sinto que preciso dizer algo porque sou mulher. Só falo quando tenho algo a dizer."

No conselho em que atua hoje, todos os outros integrantes são homens. Ela não vê nisso um problema nem um mérito. "Não estou ali pela diversidade. Estou ali pela experiência diferente que tenho", diz.

Ela faz questão de reconhecer os homens com quem trabalha, no conselho e em outros times. Muitas vezes, lembra, uma mulher só entra na sala se alguém lhe der a chance. Por isso, defende que a discussão não vire "nós contra eles", e sim uma mesa de pessoas com competências diferentes que se respeitam.

Saber quando liderar e quando seguir

Para Alice, liderança significa saber quando liderar e quando seguir, cercar-se de pessoas muito boas e dar espaço a elas. "Se você faz as pessoas ao seu redor se destacarem, você se destaca também", diz.

O mais difícil, avalia, é assumir uma posição contrária ao consenso quando ela é necessária. Na definição dela, liderar é fazer a coisa certa na hora certa.

Da IBM aos conselhos, Alice Sidhu construiu seu lugar à mesa com repertório e experiência. Há dez anos, o ABP-W, da Saint Paul, prepara executivas para esse mesmo caminho. Conheça o Advanced Boardroom Program for Women

AutorGabriella Uota
FonteExame
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