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ESGESGACS
01/09/2026
9 min

Dados de 40 anos mostram como a seca na Amazônia já ameaça o agro, alerta especialista

Cientista brasileira afiliada a Princeton lidera pesquisa que liga chuvas de Terras Indígenas a 57% da renda do agro no país

Dados de 40 anos mostram como a seca na Amazônia já ameaça o agro, alerta especialista

A Amazônia não está caminhando de maneira uniforme para um único ponto de colapso. Em vez disso, diferentes partes da floresta vêm perdendo resiliência em velocidades distintas, pressionadas por combinações também diferentes de seca, calor, fogo e desmatamento.

Essa é uma das principais ressalvas feitas pela cientista do sistema terrestre Marina Hirota ao analisar o futuro da maior floresta tropical do país.

Diretora científica do Instituto Relva e pesquisadora afiliada ao Brazil Lab, da Universidade de Princeton, e à Universidade Técnica de Munique, Hirota estuda pontos de não retorno, ou tipping points, limiares críticos a partir dos quais a dinâmica de um ecossistema pode se acelerar e se tornar muito mais difícil de controlar.

“É muito difícil dizer que toda a Amazôniaestá perdendo resiliência junto, como um sistema”, afirma. “O que a gente tem evidência, de fato, é que diferentes partes da Amazônia estão perdendo resiliência em diferentes velocidades.”

A cientista participa nesta terça-feira, 1, do painel “O futuro é amazônico”, durante o Encontro Futuro Vivo, evento realizado pela companhia de telecomunicações Vivo. Hirota debaterá com Ilona Szabó, cofundadora do Instituto Igarapé, Maria José Cruz, líder comunitária e presidente da associação agroflorestal SEMEAR, e Raquel Tupinambá, líder indígena do povo Tupinambá, bióloga e empreendedora.

A discussão parte de uma questão que há anos ocupa parte importante da pesquisa climática: até que ponto uma floresta submetida a perturbações sucessivas consegue se recuperar antes de mudar de estado?

Para Hirota, entender essa dinâmica exige abandonar a ideia de que a Amazôniaé um bloco homogêneo. “Dentro da Amazônia, temos muitas Amazônias”, diz. “São florestas que têm composição de espécies diferentes.”

Essa diferença significa que uma mesma perturbação pode provocar respostas distintas dependendo da região. Uma floresta no sul da Amazônia submetida ao fogo, por exemplo, não necessariamente reage da mesma maneira que uma floresta no leste do bioma.

Várias Amazônias dentro da mesma Amazônia

A combinação entre fatores é um dos elementos centrais dessa equação. “Você tem desmatamento ou desmatamento mais aumento de temperatura. Em alguns lugares, mais chuva. Você tem fogo interagindo com todas essas coisas”, afirma Hirota.

É essa sobreposição de pressões que pode acelerar mudanças já em curso. A cientista compara o funcionamento da floresta ao de um organismo humano. Pessoas diferentes podem reagir de maneira distinta à mesma febre. Da mesma forma, regiões diferentes da Amazônia podem apresentar limiares críticos distintos.

O chamado ponto de não retorno, segundo Hirota, não deve ser entendido apenas como um momento em que toda a floresta colapsa de uma só vez.

Localmente, diferentes partes do sistema podem ultrapassar seus próprios limites antes de uma mudança mais ampla.

“O sistema pode colapsar a partir de uma parte muito importante ou pode ser que pequenas partes comecem a falhar de forma assíncrona até mudar a configuração do sistema como um todo”, explica.

O elemento central está na velocidade da transformação. Antes de um limiar crítico, uma redução gradual de chuva, por exemplo, pode produzir efeitos também graduais. Depois desse limite, a mesma perturbação pode gerar impactos muito maiores.

“Quando você cruza um limiar crítico, a sua mudança acelera”, diz Hirota. “Você não tem mais previsibilidade do que vai acontecer e não tem mais controle sobre isso.”

Ela evita, porém, tratar esse processo como absolutamente irreversível. “Na vida real é difícil reverter, mas não é que seja irreversível”, afirma. “É muito difícil, no tempo de vida humana, reverter. É imprevisível, quase irreversível e sem controle.”

Os sinais dessa transformação já aparecem em diferentes partes do território. No sudeste daAmazônia, segundo Hirota, uma estação seca mais prolongada e intensa já está associada a mudanças na composição da floresta. Um estudo com aproximadamente 40 anos de dados identificou a substituição gradual de espécies por outras mais adaptadas a ambientes com menos chuva e maior variabilidade ao longo do ano.

A floresta continua sendo floresta, mas deixa de ser exatamente a mesma. “A composição da floresta está mudando”, afirma. Os impactos também atingem diretamente as populações.

O aumento da temperatura, a redução da chuva e a fumaça dos incêndios se combinam com efeitos sobre a saúde. Hirota cita o aumento de doenças cardiorrespiratórias e mudanças no ciclo de vida de mosquitos associados à malária como exemplos das consequências já observadas.

O problema, segundo ela, não está apenas na média de temperatura, mas nos limites fisiológicos de pessoas e plantas.

“A Amazônia é quente”, diz. “Mas quando você sai de 34 graus para 36 graus, o limiar que o corpo humano e as plantas aguentam fisiologicamente continuar funcionando vai depender muito da pessoa e da planta.”

Mudanças no ritmo de chuvas

Essa heterogeneidade também aparece no regime de chuvas. Enquanto algumas partes da Amazônia registram redução das precipitações, outras podem apresentar aumento. Por isso, Hirota evita estabelecer um único limite aplicável a toda a floresta.

Em escala mais ampla, no entanto, alguns parâmetros ajudam a indicar em quais condições a presença de floresta se torna mais ou menos provável.

Segundo a cientista, regiões da América do Sul com cerca de 2.000 milímetros de chuva por ano têm alta probabilidade de permanecer florestadas. Entre 1.000 e 2.000 milímetros, diferentes configurações de vegetação podem ocorrer. A duração da estação seca também é determinante.

Se o período seco ultrapassa cinco meses, explica Hirota, torna-se mais difícil manter determinadas formações típicas da Amazônia. Ainda assim, chuva e temperatura não atuam sozinhas. “Esses 1.000, 2.000 milímetros por ano são sempre mediados por uma perturbação”, afirma.

Essa perturbação pode ser fogo, mudanças climáticas, desmatamento ou a combinação entre eles. O fogo tem papel especialmente importante porque a floresta amazônica não é adaptada a queimadas recorrentes.

Quando os incêndios passam a se repetir, espécies incapazes de tolerar o fogo tendem a desaparecer e outras, mais resistentes, passam a ocupar o espaço.

Hirota faz uma ressalva sobre um termo frequentemente usado para descrever esse processo. Ela evita dizer que áreas degradadas da Amazônia se tornam “savana”.

Para a cientista, o uso dessa palavra pode criar uma equivalência equivocada com o Cerrado, bioma marcado por alta biodiversidade e por espécies adaptadas a uma dinâmica ecológica própria. “Em alguns lugares da Amazônia pode parecer uma savana, mas não passa de floresta degradada.”

Essas áreas podem se tornar mais abertas, apresentar menor diversidade de árvores ou ser dominadas por poucas espécies. Em alguns casos, gramíneas invasoras associadas à pecuária também passam a ocupar o ambiente.

O resultado não é a formação de um novo Cerrado, mas uma floresta empobrecida e submetida a um processo contínuo de degradação.

Impacto em outros biomas

A preocupação com a perda de resiliência não se restringe à Amazônia. Na avaliação de Hirota, outros ecossistemas brasileiros já mostram sinais relevantes de transformação.

No Pantanal, a redução da disponibilidade de água altera o pulso de inundação que sustenta parte importante do funcionamento do bioma.

A cientista relata que grandes propriedades passaram a perfurar poços para garantir água à produção. Para ela, o impacto ultrapassa a agropecuária e alcança também o modo de vida pantaneiro, historicamente organizado em torno das cheias e secas.

Na Caatinga, a mudança é mais gradual. O aumento de temperatura combinado ao clima semiárido aproxima algumas regiões de condições cada vez mais áridas.

Nos ambientes marinhos, os corais aparecem entre os sistemas mais pressionados. Ondas de calor no oceano vêm provocando mudanças significativas nesses ecossistemas.

No Brasil, inclusive espécies consideradas mais resistentes já apresentam branqueamento. Se a transformação dos biomas tem consequências ecológicas, ela também chega à economia.

Um trabalho liderado por Hirota analisou a relação entre as Terras Indígenas da Amazônia, a circulação de água pela atmosfera e a produção agropecuária.

A estimativa apresentada pelo grupo de pesquisa aponta que as chuvas associadas a esses territórios sustentam 57% da renda agropecuária brasileira e influenciam as precipitações sobre cerca de 80% das áreas produtivas.

O trabalho utiliza modelagem física para rastrear a água presente na atmosfera e, depois, atribui valor a ela de acordo com o setor econômico influenciado.

Para Hirota, esse tipo de cálculo ajuda a deslocar parte da discussão ambiental para uma dimensão econômica mais direta. “A água não tem fronteiras geográficas”, afirma.

Isso significa que uma área preservada pode contribuir para a disponibilidade de água em regiões produtivas localizadas a grandes distâncias.

A cientista avalia que os modelos econômicos ainda precisam avançar para incorporar melhor essas conexões. Grande parte da valoração ambiental, segundo ela, permanece concentrada no carbono armazenado em determinada área. A provisão de água exige outra lógica.

“Rastrear de onde vem a água que você usa e valorar isso é cada vez mais importante”, diz. A partir daí, abre-se espaço também para ampliar instrumentos como pagamentos por serviços ambientais, hoje frequentemente associados ao carbono.

A questão se torna ainda mais relevante diante de eventos climáticos extremos. Hirota avalia que parte do alarme provocado por fenômenos extremos decorre menos de um excesso de preocupação e mais da falta de preparação do país.

El Niño preocupa, mas culpa é do despreparo

A incerteza sobre como diferentes regiões da Amazônia vão responder também aparece nas projeções para o El Niño. Hirota afirma que é difícil antecipar exatamente onde estarão os maiores impactos, justamente porque a resposta depende da interação entre condições do Pacífico e do Atlântico e das características de cada parte da floresta.

Isso não significa, segundo ela, que os alertas em torno do fenômeno sejam exagerados.

“Eu acho que o alarde que a gente está fazendo é uma consequência do despreparo que a gente tem para lidar com qualquer impacto”, afirma.

Para Hirota, a preocupação com um El Niño intenso deveria vir acompanhada de planejamento para seus possíveis efeitos. 

Na avaliação dela, o Brasil ainda reage depois que enchentes, secas ou crises de abastecimento já começaram, em vez de estruturar previamente planos de contingência.

A cientista cita o Japão como exemplo de um país em que a população convive com instruções claras sobre como agir diante de terremotos, tsunamis e outros desastres.

No Brasil, segundo Hirota, comunidades, municípios, estados e governo federal precisam definir antecipadamente protocolos para enchentes, falta de água e outros extremos.

“Sabemos, estamos monitorando. E daí?”, questiona. Para ela, a adaptação depende justamente de transformar monitoramento em capacidade de ação.

Isso pode incluir desde orientações para evacuação até planos comunitários e estruturas locais de resposta. “Como a gente se prepara para isso? Como a gente treina para isso?”, pergunta.

A discussão sobre a Amazônia, portanto, passa menos por identificar uma única data ou um único ponto de colapso e mais por acompanhar onde a floresta já está mudando, quais pressões se sobrepõem e quanto de capacidade de recuperação ainda permanece em cada região.

É esse conjunto de respostas distintas que, na avaliação de Hirota, define o risco real para o sistema.

AutorLetícia Ozório
FonteExame
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