Data center a gás viram tendência nos EUA e impulsionam mercado de geradores

O avanço dos data centers, impulsionado pela inteligência artificial, abriu uma nova frente de disputa no setor de energia dos Estados Unidos. Com instalações que precisam operar sem interrupção e consomem grandes volumes de eletricidade, empresas de tecnologia passaram a buscar geração própria para fugir das filas de conexão às redes tradicionais.
O movimento tem beneficiado principalmente fabricantes de geradores elétricos. Segundo levantamento do Wall Street Journal, parte relevante dos novos projetos de data centers no país passou a incluir sistemas próprios movidos a gás natural.
Entre os empreendimentos que informaram seus planos, cerca de 55% devem usar turbinas a gás, enquanto 29% pretendem adotar motores alternativos, equipamentos semelhantes aos usados em carros e embarcações. A Agência Internacional de Energia estima que os data centers norte-americanos possam consumir até 130% mais energia até 2030 em relação aos níveis atuais.
A pressão não envolve apenas o volume de eletricidade, mas também a velocidade de entrega. Grandes projetos de infraestrutura elétrica podem levar anos para serem concluídos, o que levou empresas de tecnologia a recorrerem a soluções instaladas diretamente perto das operações.
A procura já aparece nos resultados de fabricantes, segundo o WSJ. A Innio informou que suas vendas para data centers mais que dobraram no primeiro trimestre ante o mesmo período do ano anterior. A Caterpillar afirmou que sua carteira de pedidos de motores alternativos, usados também nos setores de petróleo e gás, cresceu mais de 3,5 vezes. Já a Rolls-Royce registrou alta de 35% na receita ligada a data centers no último trimestre de 2025.
Motores a gás ganham espaço pela disponibilidade
A vantagem dos motores alternativos está no prazo. Segundo a BloombergNEF, esses equipamentos podem ser entregues entre um e dois anos. Turbinas aeroderivadas podem levar até três anos, enquanto alguns modelos de grande porte usados por concessionárias chegam a ter espera de sete a oito anos.
Embora sejam menores e menos eficientes que turbinas, os motores alternativos são mais fáceis de produzir em módulos, podem ser instalados com mais rapidez e respondem melhor a variações bruscas no consumo de energia. Essa característica é relevante para estruturas de alta demanda computacional, nas quais oscilações de carga podem ser frequentes.
O novo mercado tende a ampliar também a receita com manutenção. Como data centers funcionam quase continuamente, os equipamentos precisam de acompanhamento mais frequente. Relatório da RBC Capital Markets estima que clientes do setor podem gerar até 2,5 vezes mais receita para a Innio do que a base tradicional da companhia.
A expansão, porém, levanta dúvidas sobre eventual excesso de capacidade.Innio e Caterpillar anunciaram planos para ampliar linhas de produção, enquanto o setor observa se o crescimento dos data centers será suficiente para absorver todos os novos equipamentos.
Energia nuclear entra na disputa de longo prazo
Além da geração a gás natural, a energia nuclear voltou ao centro da discussão sobre o futuro dos data centers. A tecnologia é vista como alternativa de longo prazo por oferecer eletricidade contínua, característica considerada estratégica para instalações que dependem de alta disponibilidade energética.
Segundo o Departamento de Energia dos Estados Unidos, a combinação entre inteligência artificial e aprendizado de máquina pode fazer com que data centers consumam até 12% da produção total de energia americana em 2028. O órgão afirma que usinas nucleares operam em alta capacidade por longos períodos e podem atender à exigência de confiabilidade dessas estruturas.
Novos modelos, como pequenos reatores modulares e microreatores, também são citados como alternativas para diferentes tamanhos de instalação. Esses equipamentos poderiam, em tese, ser construídos próximos aos próprios data centers, reduzindo custos de transmissão e perdas na distribuição.
Outra possibilidade é usar estruturas nucleares já existentes. Em 2024, a Microsoft e a Constellation Energy firmaram um acordo de compra de energia por 20 anos para reativar a unidade 1 da usina de Three Mile Island, nos Estados Unidos, com o objetivo de abastecer operações da empresa de tecnologia.
Apesar do potencial, a energia nuclear ainda enfrenta obstáculos relevantes, como licenciamento, custos elevados e necessidade de cadeias de fornecimento de combustível. Por isso, no curto prazo, a expansão dos data centers deve continuar sendo atendida principalmente por gás natural, fontes renováveis e usinas nucleares já em operação.
