De café a mercado: Cidade Matarazzo mira R$ 1,5 bilhão e prepara últimas novidades do complexo em SP
Nova sala subterrânea, projeto de longevidade e operações gastronômicas devem ocupar os espaços restantes do antigo Hospital Matarazzo, na Bela Vista

RESUMO +
O complexo de hotelaria, gastronomia, cultura e varejo Cidade Matarazzo prepara, em 2026, sua última fase de ocupação, após receber mais de R$ 3 bilhões em investimentos. As próximas aberturas incluem uma sala imersiva para 1.500 pessoas, novos restaurantes e uma operação de saúde e longevidade prevista para o primeiro semestre de 2027.
A transformação de um antigo hospital abandonado a poucos metros da Avenida Paulista ainda não terminou. Depois de receber hotel, clube privado, restaurantes, centro cultural, lojas e negócios ligados à economia regenerativa, a Cidade Matarazzo prepara uma nova leva de aberturas para preencher os últimos espaços disponíveis do complexo.
É a reta final de um projeto que já consumiu mais de R$ 3 bilhões em investimentos. Em 2025, o conjunto movimentou mais de R$ 1 bilhão. Para 2026, a expectativa é ultrapassar R$ 1,5 bilhão.
O fluxo diário também mudou de escala: David Laloum, Managing Partner de Culture e Community da Mata Company, estima entre 10 mil e 15 mil pessoas por dia em condições normais, enquanto Alexandre Allard, idealizador do projeto, fala em picos de até 20 mil visitantes.
A lista recente de inaugurações ajuda a explicar o avanço. Nos últimos meses, o complexo recebeu o restaurante afro-brasileiro Preta Maria, a primeira operação permanente no país do confeiteiro Antonio Bachour, a primeira boutique brasileira da YSL Beauty e uma expansão do Mata Lab. O Mata Città, aberto no fim de 2025, ganhou ainda um mercado próprio.
Agora, o plano é ocupar o que resta. Entre as próximas novidades estão uma sala subterrânea de experiências com capacidade estimada para 1.500 pessoas, novos projetos gastronômicos e uma operação dedicada a saúde e longevidade que Allard descreve como um “hospital do terceiro milênio”.
“É o último capítulo”, afirma o empresário sobre a frente de saúde. A previsão é lançar o projeto no primeiro semestre de 2027.
O que ainda falta abrir no Cidade Matarazzo
Uma das apostas mais ambiciosas está escondida no subsolo.
Durante visita da EXAME ao complexo, Laloum apresentou uma sala ainda em fase de testes, integrada à Casa Bradesco, pensada para funcionar de maneiras diferentes ao longo do dia. A proposta é receber exposições e experiências imersivas e, em determinados períodos, apresentações musicais, DJs e eventos.
O espaço terá capacidade aproximada para 1.500 pessoas. O principal ativo tecnológico são cerca de 700 metros quadrados de telas de LED, que somam 280 milhões de pixels. Laloum compara a densidade das imagens à de grandes projetos imersivos internacionais.
“Vamos produzir coisas que nunca aconteceram antes”, diz Allard. A ideia, segundo ele, é aproximar música, público e imagem em espetáculos concebidos especificamente para a sala.
A operação representa também uma consequência direta da engenharia adotada para reconstruir o antigo hospital. Como boa parte dos edifícios históricos era tombada e Allard não queria eliminá-los para ganhar área construída, uma parcela importante da expansão aconteceu abaixo do solo.
Foi ali que surgiram estacionamentos, circulação, estruturas técnicas e novos espaços comerciais e culturais. A estratégia permitiu ampliar a área útil sem apagar os prédios que deram origem ao projeto.
Há outras frentes sendo preparadas. Na gastronomia, Allard e Laloum mencionam novas operações, entre elas um boteco desenvolvido com a chef Janaína Torres, proprietária do Bar da Dona Onça.
Por que a saúde será o último capítulo
O fechamento do ciclo terá uma coincidência histórica.
Antes de virar um empreendimento de hotelaria, gastronomia, cultura e varejo, o terreno abrigava o Hospital Umberto I, também conhecido como Hospital Matarazzo, e a Maternidade Condessa Filomena Matarazzo. O hospital encerrou as atividades em 1993, e os edifícios permaneceram sem função permanente durante quase duas décadas.
Agora, Allard pretende voltar à saúde por outro caminho.
O empresário ainda não revelou em detalhes o modelo de negócio, os serviços ou o investimento específico, mas afirma que a operação será dedicada a saúde e longevidade. Na entrevista, definiu o projeto como um “hospital do terceiro milênio” e disse que se trata de uma obra de grande porte.
“Como foi um hospital, agora nós vamos criar lá o hospital do terceiro milênio”, afirmou.
Para Allard, a operação fecha a lógica imaginada para o complexo: permitir que diferentes atividades façam parte de uma mesma jornada — da alimentação à cultura, da moda ao trabalho e, por fim, ao cuidado com a saúde.
A própria Mata Company passou a apresentar a longevidade como uma das próximas áreas do ecossistema, ao lado de hospitalidade, cultura, gastronomia, moda, design, beleza e negócios regenerativos.
Quais foram as aberturas mais recentes
Enquanto os últimos projetos não ficam prontos, a maior mudança recente pode ser percebida na gastronomia e no varejo.
Em julho, foi inaugurado o Preta Maria, restaurante idealizado por Allard e concebido ao lado de Bela Gil. A cozinha parte de referências afro-brasileiras e de tradições da diáspora africana pesquisadas ao longo de três anos.
O cardápio passa por influências de países como Nigéria, Benim, Costa do Marfim, Angola, Moçambique e Senegal. Ingredientes como quiabo, dendê, painço, amendoim, inhame, feijões, folhas e raízes dividem espaço com preparos como yassa e mafé. O projeto arquitetônico foi desenvolvido pelo Estúdio Guto Requena, com Gabriela de Matos e Mateus Fraga.
Gastronomia e ancestralidade no mesmo espaço: Preta Maria abriu em julho com cozinha concebida por Bela Gil e referências afro-brasileiras. (Leandro Fonseca /Exame)
Outra chegada foi o Café Mata by Bachour, primeira operação permanente no Brasil do confeiteiro Antonio Bachour. A abertura acrescentou uma nova porta de entrada ao complexo, desta vez pela confeitaria.
A estratégia gastronômica já vinha ganhando escala com o Mata Città, aberto em dezembro de 2025. São 1.600 metros quadrados divididos em sete ambientes, em um projeto inspirado pela ligação entre São Paulo e a imigração italiana.
Em 2026, a marca ganhou ainda o Mercato Mata Città, com 160 metros quadrados. A loja começou com mais de 1.300 itens, uma adega com quase mil rótulos e 18 linhas próprias. Cerca de 80% do portfólio é nacional. O planejamento é ampliar de 180 para 300 SKUs (tipos de produtos) autorais até o fim do ano.
O conjunto inclui ainda o Lavva, que combina churrasco brasileiro e referências do Korean barbecue. Laloum afirma que os restaurantes são, em sua maioria, negócios controlados pelo próprio grupo, diferentemente de alguns espaços comerciais alugados a marcas externas.
Outro espaço próximo ao Lavva está sendo preparado como uma extensão mais descontraída da operação de carnes. Laloum também mostrou à reportagem uma área destinada a um futuro conceito de restaurante e bar. Segundo ele, esses projetos estão entre as peças que devem completar o mix antes da abertura da operação de longevidade.
É justamente essa última frente que deve marcar o encerramento da etapa atual de ocupação. “Aí não tem mais espaço para nada”, afirmou Laloum durante a visita.
Como o varejo entrou na estratégia
Essa lógica aparece também no Mata Lab.
A plataforma ocupa aproximadamente 3 mil metros quadrados e reúne mais de 300 marcas. Em 2026, passou por uma nova fase de expansão, com espaços específicos para beleza, bolsas, sapatos e óculos.
A área de beleza reúne mais de 80 marcas, majoritariamente brasileiras, enquanto o espaço dedicado a bolsas e calçados trabalha com mais de 20 nomes. A proposta é combinar empresas já conhecidas com criadores que ainda têm pouca ou nenhuma presença física.
“O nosso papel é apresentar essas marcas para novos públicos”, diz Laloum. Segundo ele, parte das empresas presentes nasceu no digital ou ainda não possui lojas em São Paulo, e o fluxo do complexo funciona como uma vitrine tanto para consumidores brasileiros quanto estrangeiros.
O endereço passou, ao mesmo tempo, a atrair grupos internacionais que queriam estrear formatos no país.
Em agosto, a YSL Beauty inaugurou sua primeira boutique física no Brasil dentro do Mata Lab. Com 27 metros quadrados, o espaço também se tornou o único ponto de venda físico brasileiro da coleção de alta perfumaria Le Vestiaire des Parfums e marcou a estreia nacional da ferramenta de recomendação de maquiagem Shade Match.
É uma estratégia híbrida. Há espaços operados pelo grupo, áreas baseadas em curadoria e marcas que alugam pontos próprios.
“A maior parte dos espaços a gente opera ou aluga. O nosso papel é a curadoria”, diz Laloum.
Quem colocou dinheiro no Cidade Matarazzo
O complexo Cidade Matarazzo tem dois donos: BM Empreendimentos e BM Varejo. Apesar de ser o idealizador, Allard é sócio minoritário do projeto.
Na estrutura financeira divulgada por Allard à EXAME em 2024, ele afirmou ter investido R$ 1 bilhão. Outro R$ 1 bilhão veio da Chow Tai Fook Enterprises, holding de Hong Kong que é acionista majoritária da BM Empreendimentos. Outros sócios somavam aproximadamente R$ 500 milhões, além de financiamento bancário.
A parceria com a CTF começou a ganhar escala em 2017. Na época, as empresas anunciaram um aporte adicional de R$ 295 milhões, depois de um primeiro investimento de private equity de R$ 395 milhões.
O empreendimento também havia levantado R$ 250 milhões em financiamento com o então Banco Votorantim.
Esse capital financiou um projeto que levou anos para sair do papel. Allard apresentou sua primeira proposta pelo terreno em 2007. A aquisição foi concluída em 2011 por R$ 117 milhões, em parceria com o fundo WWI. As obras ganharam força em 2015 e precisaram conciliar um empreendimento de grande escala com a preservação dos edifícios históricos.
O primeiro grande ativo a operar foi o Rosewood São Paulo, instalado entre a antiga maternidade recuperada e a Torre Mata Atlântica, projetada pelo arquiteto francês Jean Nouvel.
Depois vieram Soho House, Casa Bradesco, Mata Lab, AYA Earth Partners e, gradualmente, os restaurantes e demais espaços.
