De canetas emagrecedoras à marca própria para carnes: o investimento do Assaí no novo consumidor

O brasileiro que entra hoje em uma loja do Assaí não é o mesmo de dez anos atrás. Compra mais proteínas, busca conveniência, faz pedidos pelo aplicativo, neste mês já poderá sair com medicamentos e, em breve, talvez até abasteça o carro no estacionamento.
A transformação desse consumidor tem levado o Assaí a redesenhar seu próprio modelo de negócios.
Em entrevista exclusiva ao De Frente com CEO, da EXAME, Belmiro Gomes, presidente do Assaí desde 2011, afirma que a companhia vive uma das maiores mudanças desde sua fundação. A estratégia é deixar de ser apenas um atacarejo para se tornar um ecossistema de serviços, acompanhando novas tendências de consumo, saúde e mobilidade.
"O consumidor está mudando, e o varejo precisa mudar junto. O Assaí de hoje é muito diferente do de dez anos atrás e continuará se transformando nos próximos dez", afirma o CEO.
Até o nome da companhia está passando por mudança. Aos poucos, a empresa está deixando de lado o sobrenome “Atacadista” para atrair além de empresas, clientes do varejo também.
Isso faz parte de uma estratégia de uma empresa que está pensando em um crescimento de longo prazo. No último ano, o Assaí faturou R$ 84,7 bilhões, e hoje emprega cerca de 90 mil pessoas e recebe aproximadamente 40 milhões de clientes por mês.
Mas, para Belmiro, o crescimento dos próximos anos dependerá menos da abertura de novas lojas e mais da capacidade de entender como o consumidor brasileiro está mudando – e precisando.
O impacto das canetas emagrecedoras
Uma das transformações que mais chamam a atenção do executivo vem da medicina.
Na visão de Belmiro, a popularização dos medicamentos à base de GLP-1 (conhecidos como canetas emagrecedoras ou pelos famosos nomes como Mounjaro e Ozempic) deve provocar uma das maiores mudanças já vistas no varejo alimentar.
"Acho que vai impactar o mercado alimentar como um todo. É uma revolução da medicina", afirma o presidente.
Segundo ele, a mudança não é apenas no setor farmacêutico. Ela chegará diretamente ao carrinho de compras.
"Sabemos que haverá uma redução no consumo de carboidratos e alcoólicos e um aumento no consumo de proteína, suplementação e creatina", diz.
A percepção fez o Assaí antecipar alguns movimentos. Nos últimos anos, a rede ampliou a operação de açougues e serviços de fatiamento, reforçando categorias de proteínas.
"Quando nós entramos no açougue e no fatiamento, já era uma busca para aumentar a venda de proteína", afirma.
Agora, a companhia também entra oficialmente no mercado farmacêutico.
O Assaí entra no "mundo da saúde"
No próximo dia 16 de julho, a rede inaugura a primeira farmácia dentro de uma loja, na unidade da Marginal Tietê, em São Paulo.
O projeto é apenas o início de um plano mais amplo.
"O plano é chegar a mais de 200 farmácias nos próximos anos", afirma Belmiro.
Segundo o executivo, só neste ano a companhia deve gerar mais de 3 mil empregos no Brasil (considerando a abertura de 5 lojas em São Paulo, somadas às 25 farmácias previstas para este ano).
A proposta vai além da venda de medicamentos tradicionais.
As farmácias também irão comercializar canetas emagrecedoras, à medida que a operação seja estruturada e os produtos estejam disponíveis.
"Com o projeto da farmácia vamos posicionar o Assaí no que estamos chamando de mundo da saúde", afirma.
Para Belmiro, a mudança acompanha uma tendência de longo prazo.
"Hoje esses medicamentos ainda são caros. Mas a tendência é que, com o tempo, eles se tornem mais acessíveis. Queremos estar preparados para essa transformação”, afirma.
Marcas próprias ganham espaço
A transformação também passa pelas gôndolas.
Depois de consolidar marcas próprias em categorias como arroz, amendoim e outros alimentos, o Assaí ampliou a estratégia para proteínas, no começo deste ano.
O objetivo, segundo Belmiro, é aumentar a participação das marcas próprias em um mercado onde o Brasil ainda está muito atrás de países mais desenvolvidos.
Enquanto em mercados maduros essas marcas representam cerca de 23% das vendas do setor alimentar, no Brasil a participação gira em torno de 3%.
Há espaço, portanto, para crescer oferecendo produtos com preços mais competitivos e maior fidelização dos consumidores.
Um ecossistema além dos alimentos: o investimento em serviço financeiro e em posto de gasolina
As farmácias representam apenas uma das novas frentes de crescimento.
Após encerrar a parceria exclusiva com o Itaú herdada do GPA, o Assaí prepara uma operação própria de serviços financeiros. A empresa aguarda autorização do Banco Central para lançar soluções voltadas aos cerca de 1 milhão de clientes B2B, entre restaurantes, padarias, escolas e pequenos comerciantes.
No radar estão produtos como maquininhas de pagamento, programas de cashback, crédito e outros serviços financeiros.
"Não era para termos 80% da população endividada, e boa parte disso tem relação com a inflação do país, mas também com as empresas de aposta”, diz Belmiro. "O Brasil é o país que tem mais acesso a sites de apostas no mundo, mais do que Estados Unidos, Inglaterra e Turquia juntos."
A empresa também ampliou sua presença digital, tornou-se a maior vendedora de alimentos dentro do iFood e iniciou uma parceria com o Mercado Livre para expandir sua atuação nos marketplaces.
Outra aposta está nos estacionamentos.
Com cerca de 17 milhões de veículos circulando mensalmente por suas lojas, o Assaí estuda entrar no segmento de postos de combustíveis e de recarga para veículos elétricos.
"Com o avanço da eletrificação, talvez consigamos entregar energia mais barata do que a própria casa do consumidor", afirma.
Menos lojas, mais inovação
Toda essa transformação acontece em um momento em que a companhia desacelerou a expansão física para priorizar a redução da dívida bilionária com a compra e reforma de 66 pontos do Extra, realizada em 2021.
"O plano era abrir cerca de 15 lojas por ano. Neste ano, vamos abrir cinco", afirma.
Com um cenário de juros muito mais altos do que o previsto, Belmiro conta que teria feito a compra do Extra se fosse neste ano. Não há arrependimento, só teria feito uma negociação diferentes, considerando o patamar de juros dos últimos anos.
"Hoje pagamos cerca de R$ 7 milhões por dia em despesas financeiras, incluindo sábados, domingos e feriados”, diz. "Quando me perguntam qual série estou assistindo, eu brinco que é uma série de terror chamada Selic”.
Mesmo com menos inaugurações, Belmiro afirma que a agenda de inovação nunca foi tão intensa.
"Estamos investindo menos do que gostaríamos para reduzir a dívida, mas preparando o Assaí para um novo ciclo de crescimento."
Na visão do executivo, o atacarejo do futuro deixará de ser apenas um local para abastecer a despensa.
"Queremos aumentar a participação sobre o cliente que já compra conosco. Não é apenas vender mais alimentos, mas resolver mais necessidades no mesmo lugar."
A transformação, segundo Belmiro, começou há alguns anos, mas está apenas no início. Se depender dos planos da companhia, o consumidor do futuro poderá entrar no Assaí para comprar carne, abastecer a despensa, retirar medicamentos, contratar serviços financeiros, carregar o carro elétrico e, eventualmente, abastecer o veículo - tudo no mesmo endereço.
