De comércio a defesa: como a China ampliou sua influência no Uruguai
Aprofundamento de relações entre Pequim e Montevidéu pode resultar em um aporte para a presença chinesa na América do Sul, o que preocupa os EUA

A relação entre a China e o Uruguai ganhou novas dimensões nos últimos anos, com o aprofundamento de vínculos comerciais, políticos, militares e institucionais. Pequeno em território e população, o país sul-americano tornou-se um dos parceiros mais economicamente integrados a Pequim no Hemisfério Ocidental, aponta um novo artigo do think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS).
O movimento ganhou força em fevereiro de 2026, quando o presidente uruguaio Yamandú Orsi realizou uma visita de Estado a Pequim e assinou acordos para ampliar a cooperação, especialmente nas exportações de carne e farinha de peixe. Outros entendimentos, inclusive em áreas consideradas sensíveis, como a ciência e a mídia, não foram divulgados publicamente.
A aproximação econômica também criou condições para que Pequim ampliasse sua influência política na América Latina.
Em março, o governador da província de Durango, Felipe Algorta, cancelou uma viagem planejada a Taiwan após uma reunião com o então embaixador chinês no Uruguai, que argumentou que a visita seria incompatível com a política nacional de “Uma Só China”.
Segundo o CSIS, a trajetória diplomática de Montevidéu ajuda a explicar o cenário atual. O Uruguai estabeleceu relações com a República Popular da China em fevereiro de 1988 e, desde então, elevou progressivamente o nível da parceria.
Em 2016, os dois países firmaram uma parceria estratégica, seguida pela adesão uruguaia à Iniciativa do Cinturão e Rota, em 2018.
Em 2020, Montevidéu também passou a integrar o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, liderado pela China.
Três anos depois, em novembro de 2023, os governos elevaram a relação ao status de parceria estratégica abrangente, consolidando uma aproximação que passou a envolver diferentes setores da economia e do Estado uruguaio.
Parceria ou dependência?
Exportações chinesas encontram grandes mercados e portas cada vez mais abertas na América Latina (Joe Raedle/Getty Images)
O comércioé um dos principais pilares dessa relação: em 2025, o Uruguai exportou cerca de US$ 3,5 bilhões para a China e importou US$ 3,3 bilhões, mas a composição dessas trocas revela uma dependência relevante — mais de 90% das exportações uruguaias são produtos primários e agrícolas, enquanto o país importa uma ampla variedade de bens manufaturados e tecnológicos chineses.
A China responde atualmente por cerca de 26% das exportações uruguaias, segundo o CSIS, participação que pode aumentar caso avance um acordo de livre comércio entre Pequim e o Mercosul, apura o artigo.
O tema é uma prioridade do governo de Orsi, que assumiu a presidência pro tempore do bloco em junho de 2026, ampliando sua capacidade de impulsionar a discussão.
Apesar do peso comercial, os investimentos chineses no Uruguai ainda são relativamente modestos em comparação aos realizados em países maiores da região.
O estoque de investimentos de empresas chinesas era de US$ 247 milhões em 2020 e permanece abaixo de US$ 1 bilhão atualmente, em parte devido ao tamanho reduzido do mercado uruguaio e às dificuldades legais e financeiras.
Quase metade dos investimentos chineses está concentrada no setor agrícola, incluindo participação em terminais portuários e frigoríficos.
Alguns desses empreendimentos, no entanto, enfrentaram dificuldades financeiras, enquanto empresas chinesas também abandonaram projetos no país, como ocorreu com uma companhia de tabaco que encerrou suas operações em uma zona franca uruguaia em janeiro de 2026.
No setor automotivo, as empresas chinesas também tiveram resultados mistos. A fábrica da Lifan em San José foi fechada em 2021, enquanto a Brilliance cancelou um projeto de unidade industrial dois anos antes.
Em contrapartida, companhias chinesas ganharam espaço na mobilidade elétrica, fornecendo ônibus e táxis elétricos e conquistando participação crescente na frota de transporte público.
A presença chinesa também se estende à infraestrutura e às telecomunicações. Empresas do país participaram de projetos relacionados ao porto de Montevidéu, enquanto Huawei e ZTE ampliaram sua atuação no setor de tecnologia, incluindo a construção da rede 5G da estatal Antel e a obtenção de contratos relevantes no mercado uruguaio.
Essa presença tecnológica, porém, vem acompanhada de preocupações quanto à segurança de dados.
O CSIS aponta que empresas chinesas estão sujeitas às leis nacionais de inteligência e de cibersegurança de Pequim, que podem obrigá-las a fornecer informações ao governo chinês quando solicitadas, o que suscita questionamentos sobre os riscos associados à infraestrutura digital uruguaia.
Base sólida
Presidente da China, Xi Jinping, estabelece uma forte rede política com diversos países do sul global (World Economic Forum/Pascal Bitz/Divulgação)
A influência chinesanão se limita à economia. Pequim também construiu redes de relacionamento com políticos, meios de comunicação, universidades e empresários uruguaios.
A cooperação inclui acordos de compartilhamento de conteúdo entre a agência Xinhua e meios estatais uruguaios, viagens de jornalistas à China e a atuação de um Instituto Confúcio na Universidade da República desde 2017.
A dimensão militar é outro componente dessa aproximação. O Uruguai recebeu doações chinesas de veículos e equipamentos, enquanto oficiais uruguaios participaram de treinamentos na China.
Em 2024, um novo protocolo de defesa resultou na doação de equipamentos como cozinhas e geradores móveis, tanques de água, um caminhão-tanque e rádios digitais.
Em janeiro de 2026, o navio-hospital chinês Silk Road Ark fez uma escala de quatro dias em Montevidéu, na primeira visita de um navio de guerra chinês ao país.
Para Washington, a combinação entre dependência comercial, presença tecnológica, vínculos políticos e cooperação militar torna o Uruguai um caso relevante na disputa por influência na América Latina, apura o CSIS.
Os Estados Unidos ainda mantêm bases importantes para ampliar sua presença no país, inclusive por meio de investimentos de empresas como Google e Microsoft. Mas as limitações de recursos para financiar alternativas econômicas e de segurança reduzem a capacidade de Washington de competir diretamente com Pequim.
O caso uruguaio, portanto, é apresentado no artigo primeiramente como um teste da capacidade dos Estados Unidos de conter a expansão da influência chinesa no hemisfério ocidental, mesmo em democracias com instituições sólidas.
Para Washington, oferecer alternativas em áreas como investimentos, segurança, cooperação policial e bolsas de estudo poderia ajudar Montevidéu a diversificar seus vínculos sem abandonar a relação econômica com Pequim, diz o think tank.
