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28/08/2026
15 min

De dentista no Brasil a bilionário na China: quem é Liu Chung, dono de um império de R$ 7,9 bilhões

Nascido em Taiwan e naturalizado brasileiro, o empresário estudou Odontologia em São Paulo antes de fundar a gigante Nine Dragons Paper

De dentista no Brasil a bilionário na China: quem é Liu Chung, dono de um império de R$ 7,9 bilhões

O nome Nine Dragons significa, literalmente, “Nove Dragões”. Na cultura chinesa, os dois elementos carregam uma simbologia poderosa.

“O dragão está historicamente associado à força, prosperidade e poder, enquanto o número nove remete à longevidade e grandeza”, afirma Daniel Lau, diretor executivo e conselheiro de empresas chinesas na América Latina há mais de 20 anos.

Foi com esse nome que Liu Ming Chung, um taiwanês que cresceu e estudou no Brasil, ajudou a construir um império do outro lado do mundo.

Hoje, aos 63 anos, o empresário é vice-presidente do conselho e CEO da Nine Dragons Paper, companhia fundada em 1995 e que se tornou uma gigante global na fabricação de papel e celulose com sede na China.

O negócio está crescendo no mundo literalmente com a força do dragão chinês, tanto que colocou Liu no clube dos super-ricos brasileiros.

O executivo (naturalizado brasileiro) aparece na 47ª posição da Lista Forbes Bilionários Brasileiros 2026, com patrimônio estimado em R$ 7,9 bilhões. No levantamento dos maiores bilionários ligados ao agronegócio, ele ocupa a quinta colocação.

Para Lau, a companhia tem um grande peso no mercado asiático - e no mundo.

“A Nine Dragons Paper é simplesmente a maior produtora de papel para embalagens da China e de toda a Ásia e uma das maiores do mundo”, afirma.

A empresa, segundo Lau, ocupa uma posição estratégica na cadeia industrial chinesa porque fornece não apenas papelão ondulado, mas também material para as caixas utilizadas no transporte de produtos fabricados no país.

“Quando você vê em uma caixa de papelão o termo ‘Made in China’, muito provavelmente a embalagem veio da Nine Dragons Paper”, diz o consultor.

A origem dessa fortuna, no entanto, está a milhares de quilômetros do Brasil. Mas foi justamente aqui que uma parte importante da história do empresário começou.

Daniel Lau, diretor executivo e conselheiro de empresas chinesas: “Existe uma citação na China: ‘Reis e nobres, generais e ministros: tais dignidades são moldadas e formadas, não são inatas’” (Arquivo pessoal /Divulgação)

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De Taiwan para o Brasil - e da Odontologia para os negócios

Liu nasceu em Taiwan, mas cresceu no Brasil e se naturalizou brasileiro. Em São Paulo, seguiu uma trajetória que, à primeira vista, tinha pouca relação com o setor que o transformaria em bilionário: formou-se em Odontologia pela Universidade de Santo Amaro (Unisa), em 1983.

A carreira de dentista, porém, acabou ficando para trás.

Liu entrou no comércio internacional e construiu uma experiência que posteriormente seria determinante para a criação da Nine Dragons Paper. Segundo a própria companhia, ele acumula mais de 34 anos de experiência em comércio internacional e mais de 26 anos em gestão corporativa.

“Uma das características de um empresário chines é construir seu legado, trabalhando arduamente para alcançar seus objetivos e onde as dificuldades e desafios encontrados na jornada são incentivadores para superar de si mesmo”, afirma o consultor Lau.

Para o consultor a trajetória multicultural de Liu Ming Chung é o pilar central que explica seu sucesso.

“Trata-se de um perfil resiliente de um empresário que tem a capacidade unir cadeias globais de suprimentos com eficiência operacional, transformando visões locais em escala mundial”, afirma Lau.

Liu Ming Chung viveu, estudou e trabalhou em diferentes países e continentes, que segundo Lau, moldaram seu perfil como empresário de sucesso em uma época de intensa globalização e expansão internacional.

“Existe uma citação na China: ‘Reis e nobres, generais e ministros: tais dignidades são moldadas e formadas, não são inatas’”, afirma Lau.

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Uma empresa global – e familiar

A trajetória empresarial também se mistura com a história familiar.

Sua mulher, Cheung Yan, já atuava no comércio de papel recuperado. Antes da criação da fabricante chinesa, o casal esteve envolvido no comércio de papel recuperado entre Estados Unidos e China.

A oportunidade estava justamente na conexão entre as duas economias. Enquanto os Estados Unidos tinham uma grande oferta de papel recuperado, a rápida industrialização chinesa ampliava a demanda por matéria-prima para a fabricação de papel e, principalmente, embalagens.

Foi nesse cenário que, em 1995, Cheung Yan, Liu Ming Chung e Zhang Cheng Fei, (irmão de Cheung), fundaram a Nine Dragons Paper. A companhia estabeleceu sua sede em Dongguan, na província de Guangdong, no sul da China.

Os três são reconhecidos oficialmente pela própria Nine Dragons como fundadores do grupo.

A empresa nasceu em um momento particularmente favorável para quem conseguia enxergar o crescimento da indústria chinesa e uma necessidade que viria junto com ela: embalar tudo aquilo que o país começava a produzir e exportar para o mundo.

“A China se consolidou como o principal polo manufatureiro global, gerando uma massiva demanda por embalagens de papelão ondulado tanto para o mercado interno como para a exportação de bens de consumo”, afirma Lau.

A empresa, segundo o consultor brasileiro, se posicionou estrategicamente nos maiores centros industriais para capturar a massiva demanda por caixas de papelão.

“Nos últimos anos, a demanda aumentou. Com a ascensão do comércio eletrônico e de plataformas de entrega rápida dentro e fora da China, a empresa viu um impulso nos resultados”, afirma Lau.

A produção da Nine Dragons Paper começou efetivamente alguns anos depois. Em 1998, a primeira máquina de papel da base de Dongguan entrou em operação, com capacidade anual projetada de 200 mil toneladas de kraftliner, tipo de papel utilizado principalmente na fabricação de embalagens de papelão ondulado.

Liu Ming Chung, CEO da Nine Dragons Paper, com Cheung Yan, esposa de Liu e presidente do conselho. O casal fundou uma das maiores empresas de papel do mundo na China (South China Morning Post / Colaborador/Getty Images)

Como os 'Nove Dragões do Papel' viraram uma gigante global

A aposta ganhou escala. A Nine Dragons Paper avançou sobre o mercado de papéis para embalagens e expandiu sua capacidade produtiva à medida que a China se consolidava como uma das principais potências industriais do planeta.

Em 2000, apenas dois anos após o início da produção, a capacidade anual da companhia já havia alcançado 1 milhão de toneladas.

Em 3 de março de 2006, pouco mais de uma década depois da fundação, a Nine Dragons Paper abriu seu capital na Bolsa de Hong Kong.

Foi também em 2006 que a estrutura de comando da companhia passou a aparecer formalmente nos documentos da empresa aberta: Cheung Yan como presidente do conselho; Liu Ming Chung como vice-presidente do conselho e CEO; e Zhang Cheng Fei como diretor-executivo e vice-CEO.

Liu permanece como vice-presidente do conselho e CEO desde então.

A divisão de funções entre os três fundadores permanece bastante clara atualmente.

Cheung é responsável pelo desenvolvimento corporativo geral e pelo planejamento estratégico do grupo. Liu responde pela gestão e planejamento corporativo, desenvolvimento de novas tecnologias de fabricação, aquisição de equipamentos produtivos e gestão de recursos humanos. Já Zhang Cheng Fei atua na gestão das operações e dos negócios, incluindo áreas como marketing, finanças, compras, vendas e tecnologia.

A dimensão alcançada pela companhia ajuda a explicar a fortuna construída pela família.

A Nine Dragons afirma ser atualmente o maior grupo fabricante de papel do mundo em capacidade de produção. A companhia informa capacidade anual projetada superior a 25 milhões de toneladas e emprega mais de 20 mil pessoas.

Entre os concorrentes, Lau cita alguns concorrentes que tem presença global. A Smurfit Westrock é uma delas, mas é dentro da China que ele afirma que existem grandes concorrentes que competem ferozmente pelo mercado chines e com rápido crescimento.

“É o caso da Lee & Man Paper e outras dezenas de competidores locais, mas a Nine Dragon continua muita à frente de seus competidores locais”, afirma o consultor.

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Em 3 de março de 2006, pouco mais de uma década depois da fundação, a Nine Dragons Paper abriu seu capital na Bolsa de Hong Kong. (Photo by Dominic Nahr/South China Morning Post via Getty Images) (South China Morning Post / Colaborador/Getty Images)

Da China para novos mercados

O grupo também deixou de depender apenas da China. Além das diversas bases produtivas chinesas, a internacionalização levou a Nine Dragons para mercados como Vietnã, Estados Unidos e Malásia.

A primeira grande expansão internacional ocorreu em 2008, quando o grupo adquiriu uma participação de controle na Cheng Yang Paper, no Vietnã, marcando sua entrada no Sudeste Asiático.

A estratégia também mudou ao longo dos anos. Além dos papéis para embalagens que ajudaram a construir o negócio, a Nine Dragons avançou para produtos de maior valor agregado e para uma cadeia mais integrada entre celulose e papel.

Nos últimos anos, essa integração ganhou força. A companhia colocou em operação novas linhas de produção de celulose de madeira, incluindo projetos nas bases de Beihai e Jingzhou, na China.

Isso significa que a Nine Dragons Paper não é apenas uma fabricante de papel e embalagens: a empresa também produz celulose, utilizada como matéria-prima em sua própria cadeia e comercializada em determinadas operações.

Mas, segundo fontes do mercado, a história empresarial da Nine Dragons Paper está concentrada na Ásia e na América do Norte e não hpa planos de se instalar no Brasil.

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Mais de R$ 7 bilhões em receita

Os números mostram a escala alcançada pelo negócio.

No ano fiscal encerrado em 30 de junho de 2025, a Nine Dragons Paper registrou receita de aproximadamente R$ 7,9 bilhões, segundo a lista da Forbes. O volume vendido alcançou o recorde de 18 milhões de toneladas por ano, com um time de 20 mil funcionários.

O coração do negócio continua sendo papel para embalagens. Essa divisão respondeu por cerca de 90% da receita da companhia no período, enquanto os 10% restantes vieram de papéis para impressão e escrita, papéis especiais de maior valor agregado e produtos de celulose.

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Um império que segue familiar

A Nine Dragons Paper cresceu, abriu capital e atravessou fronteiras, mas preservou uma característica desde a fundação: a presença da família no comando.

Os três fundadores continuam diretamente ligados à administração da companhia.

Cheung Yan, mulher de Liu e irmã de Zhang Cheng Fei, é presidente do conselho. Cabe a ela, segundo a empresa, comandar o desenvolvimento corporativo e o planejamento estratégico do grupo.

Liu Ming Chung permanece como CEO e vice-presidente do conselho, enquanto Zhang Cheng Fei é atualmente vice-presidente do conselho e vice-CEO.

A próxima geração também já está nos negócios.

O filho do casal, Ken Liu, formado com honras em Governo pela Universidade Harvard, é diretor-executivo, vice-presidente do conselho e vice-presidente da Nine Dragons.

Ele também é responsável pelos negócios do grupo na América do Norte. Antes de entrar definitivamente no negócio familiar, trabalhou como consultor da PwC nos Estados Unidos, atendendo empresas dos setores de tecnologia, telecomunicações e bancos.

Outro filho do casal, Lau Chun Shun, também já teve participação na estrutura societária e de governança do grupo.

A presença da segunda geração mostra que os "Nove Dragões do Papel" construídos por Cheung, Liu e Zhang começam a avançar para uma nova geração.

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AutorLayane Serrano
FonteExame
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