De gigante petroquímica a uma dívida de US$ 11 bilhões: como a Braskem (BRKM5) chegou às portas da recuperação extrajudicial
Crise da Odebrecht, desastre ambiental em Maceió, sobreoferta global e uma pesada dívida ajudam a explicar como uma das maiores petroquímicas do mundo chegou até o ponto de precisar renegociar os seus débitos com credores

Gigante desde o nascimento, a Braskem (BRKM5) passou pouco mais de duas décadas colecionando superlativos. Tornou-se a maior produtora de resinas termoplásticas das Américas e está entre as maiores petroquímicas do planeta. Mas a trajetória de crescimento também foi acompanhada por crises de proporções igualmente bilionárias.
Da derrocada da ex-Odebrecht ao desastre ambiental de Maceió, passando pelo pior ciclo da indústria petroquímica em anos, os problemas foram se acumulando — assim como as dívidas.
Agora, a empresa deve entrar com um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar US$ 10,9 bilhões com os credores. O ajuizamento do pedido já foi aprovado pelo conselho de administração, mas ainda depende de certos documentos.
Como ela chegou até aqui?
Quem é a Braskem
Criada em 2002, a Braskem é a maior produtora de resinas termoplásticas das Américas, maior produtora de polipropileno dos Estados Unidos e líder na produção de polietileno no México. É a sétima maior petroquímica do mundo.
Se ela já nasceu grande, seus acionistas controladores também eram gigantes. Ela foi fundada a partir da integração a partir da integração de seis empresas do grupo Odebrecht — Copene, OPP, Trikem, Proppet, Nitrocarbono e Polialden —, com a Petrobras como sócia estratégica.
No mesmo ano, passou a ter suas ações negociadas na bolsa de valores brasileira, a B3, e com ADRs (recibos de ações) negociadas na NYSE, em Nova York.
Nos anos seguintes, cresceu por meio de aquisições e abertura de novas fábricas. Em 2009, criou uma joint venture com a mexicana Idesa, a Braskem-Idesa, para a implementação de um projeto petroquímico no México.
Com cerca de 8 mil funcionários, a empresa tem diversas plantas espalhadas pelo Brasil, além de unidades nos Estados Unidos, no México e na Alemanha.
O que a Braskem faz
Apesar do seu tamanho, você não vai encontrar produtos com a marca Braskem em nenhuma loja.
Ela é produtora de químicos básicos, como eteno e propeno, e também os transforma em resinas termoplásticas como o polietileno (PE), polipropileno (PP) e PVC. Esses produtos são depois comprados por indústrias que criarão os produtos finais vendidos aos consumidores.
Além de usar nafta, um líquido obtido a partir da destilação do petróleo, também usa etanol como matéria-prima renovável, criando o eteno verde e o PE Verde.
Crise da Odebrecht
Uma das principais acionistas da empresa, o grupo Odebrecht, enfrentou uma crise de proporções desastrosas após o início da Operação Lava Jato, em 2014.
As investigações expuseram um esquema gigante de corrupção e pagamento de propinas em troca de contratos públicos no Brasil e no exterior.
O grupo entrou em recuperação judicial em 2019, com dívidas de mais de R$ 98,5 bilhões, R$ 83 bilhões delas dentro do processo. Mais um superlativo na história: foi a maior recuperação judicial da história corporativa brasileira.
Desastre ambiental em Maceió
Os problemas da Braskem não acabam com sua (agora ex) acionista. A exploração de sal-gema (cloreto de sódio) feita pela empresa em Maceió, no Alagoas, levou ao afundamento de diversos bairros.
Estudos do Serviço Geológico do Brasil confirmaram que as atividades de mineração da empresa desestabilizaram o solo, provocando rachaduras, afundamentos e a evacuação em massa de áreas inteiras.
A empresa firmou acordos com o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público Estadual (MPE) e a Defensoria Pública para indenizar os moradores e financiar obras de estabilização.
O valor total dos compromissos assumidos ultrapassa R$ 4 bilhões, incluindo indenizações, realocação de famílias e recuperação ambiental.
Em junho deste ano, veio mais um revés para a empresa. A Justiça Federal aceitou denúncia do Ministério Público Federal (MPF) e tornou a Braskemré por crimes ambientais relacionados ao caso do afundamento do solo em Maceió.
Até agora, a petroquímica provisionou cerca de R$ 20 bilhões em seu balanço para cobrir os impactos do desastre geológico que veio à tona entre 2018 e 2019.
A venda para a IG4
Uma das maiores consequências da crise da ex-Odebrecht para a Braskem foi a mudança em sua estrutura acionária.
Já com seu novo nome, a Novonor, o ex-grupo Odebrecht, vendeu sua participação na Braskem para a IG4, para renegociar cerca de R$ 20 bilhões de dívidas que tinha com diversos bancos. Esses passivos tinham como garantia ações da petroquímica.
Em abril, depois de muito vai e vem, a Novonor passou sua participação de 50,1% dos papéis preferenciais e 5,9% do capital total para o Shine I Fundo de Investimento em Participações (FIP), assessorado pela IG4 Capital.
Na prática, trata-se de uma conversão de dívida em participação acionária: credores da Novonor passam a se tornar sócios indiretos da Braskem por meio do fundo, e dividem a Braskem com a maior petroleira do país.
A Petrobras manteve 47,03% do capital votante e 36,15% da participação total. Cerca de 2,86% das ações preferenciais e 29,53% do capital total estão em circulação no mercado.
"Foi celebrado o contrato de compra e venda para transferência de sua participação acionária na Braskem à IG4 Capital, o que levará ao encerramento de um ciclo de décadas de investimento pela Novonor dedicado à construção de uma das petroquímicas mais relevantes do mundo, em parceria com a Petrobras", disse a Novonor na ocasião.
Uma pandemia no meio do caminho
Não basta uma controladora encrencada e um desastre ambiental: a indústria petroquímica também enfrenta um ciclo global de baixa dos preços dos seus produtos.
Bem como toda a indústria petroquímica mundial, a Braskem (BRKM5) viveu tempos de muita fartura durante a pandemia do novo coronavírus, num ciclo de alta que perdurou até o final de 2021.
A crise sanitária, que paralisou o mundo, trouxe uma vantagem inesperada para o setor: a demanda por insumos para máscaras, seringas para vacinas e outros produtos de PVC explodiu, mantendo a indústria operando a todo vapor.
Lá em 2021, as ações chegaram a ser negociadas por volta de R$ 70. Hoje, o valor está por volta dos R$ 4,90.
Porém, quando o mundo começou a voltar ao normal, em 2022, o cenário mudou drasticamente. O fervor por insumos petroquímicos começou a cair, e a Braskem se viu, junto com toda a indústria global, inserida em um superciclo de baixa com sobreoferta de resinas plásticas.
Quem contribuiu para isso foi a China, que buscava autossuficiência na produção de polietileno e polipropileno, inundando o mercado global.
E esse ciclo ainda não dá sinais de arrefecer. Ainda que a guerra no Oriente Médio tenha elevado o preço do petróleo e, consequentemente, dos produtos vendidos pela Braskem, esse efeito se dissipou mais rápido do que o mercado esperava, e os valores desses materiais já voltaram aos níveis pré-guerra.
As dívidas da Braskem
No segundo trimestre, a Braskem chegou a apresentar um raro alívio. A gigante petroquímica registrou lucro líquido de R$ 3,33 bilhões no segundo trimestre de 2026 (2T26), revertendo o prejuízo de R$ 267 milhões apurado no mesmo período do ano passado.
Com aumento de 37% da receita líquida em dólares e de 22% em reais, o Ebitda recorrente da companhia somou R$ 5,25 bilhões entre abril e junho, um salto expressivo frente aos R$ 427 milhões registrados um ano antes.
Mas esse trimestre positivo mal fez cócegas no endividamento da companhia. A empresa encerrou o primeiro semestre com US$ 12,21 bilhões em endividamento bruto, US$ 11,40 bilhões emitidos em dólar.
A dívida líquida era de US$ 9,3 bilhões em junho. A alavancagem, medida pela relação entre a dívida líquida ajustada e o Ebitda recorrente, ficou em 6,74 vezes.
Já no fato relevante divulgado hoje, a empresa disse que sua recuperação extrajudicial busca renegociar US$ 10,9 bilhões em créditos sujeitos.
Quem são os credores da Braskem
A maior parte da dívida da Braskem, cerca de 75%, está concentrada em bondholders — investidores institucionais estrangeiros que compraram títulos de dívida em dólar da petroquímica. Esses credores são, em sua maioria, bancos e grandes fundos globais.
Dados da Bloomberg de abril mostravam que o maior volume de bonds da Braskem estavam com a gestora de fortunas AllianceBernstein e o banco Morgan Stanley. Outros nomes são GMO, Invesco e JPMorgan Chase.
O volume de dívida local da Braskem, dividida entre debêntures e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) se limita a 7% do total do passivo, principalmente nas mãos de investidores institucionais e bancos.
Uma recuperação extrajudicial envolve uma "pré-aprovação" de cerca de 33% dos credores, mas chegar a esse patamar tem se mostrado desafiador para a empresa.
Em julho, uma tentativa de acordo preliminar sugeria a entrega de quase a totalidade da petroquímica para os credores por meio de uma conversão da dívida em ações. A Braskem não aceitou os termos.
Outra proposta, dessa vez pela empresa, sugeria aumento de prazo com redução dos juros e pagamento no vencimento, sem antecipação de parcelas. Neste caso, foram os credores que não aceitaram.
Um dos principais debates é a possibilidade dos acionistas controladores, Petrobras e IG4, injetarem capital na petroquímica e os ônus da reestruturação não ficarem por conta apenas dos investidores da dívida.
