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Mundo
01/08/2026
6 min

De Maduro a Trump: a transformação política de Delcy Rodríguez

Presidente interina da Venezuela foi de uma das figuras mais importantes do chavismo à um proxy de Trump na América Latina

De Maduro a Trump: a transformação política de Delcy Rodríguez

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, governa a partir do Palácio de Miraflores, sob um rigoroso esquema de segurança.

Em entrevista exclusiva à revista TIME, ela confirmou a existência de uma aproximação inédita entre Caracas e Washington após a queda de Nicolás Maduro, mas rejeitou a ideia de que o país tenha perdido sua soberania.

Rodríguez, de 57 anos, foi uma das figuras centrais do chavismo por mais de duas décadas.

Ex-ministra das Relações Exteriores e vice-presidente de Maduro, ela agora conduz uma reaproximação com os Estados Unidos de Donald Trump, o que, segundo a reportagem, concedeu a Washington influência sem precedentes sobre a economia e as finanças venezuelanas.

Na entrevista, que durou uma hora, a dirigente afirmou que age “de boa-fé” para garantir a paz e o bem-estar econômico. Rondríguez insistiu que não está entregando a soberania do país, mas que está tentando abrir a economia em benefício da população.

Mudanças drásticas

À medida que a Venezuela muda, Maduro gradualmente desaparece da memória pública (Juan BARRETO / AFP) (Juan Barreto/AFP)

A Venezuela que Rodríguez assumiu em janeiro, após a captura de Maduro, estava mergulhada em uma crise profunda.

Hiperinflação, colapso da produção de petróleo, corrupção, apagões, escassez de água e de medicamentos e o êxodo de quase 8 milhões de venezuelanos haviam transformado o país em uma das economias mais debilitadas da América Latina.

Nos últimos meses, porém, sinais de recuperação começaram a surgir: guindastes voltaram ao horizonte de Caracas, as prateleiras estão mais abastecidas e campos de petróleo antes paralisados retomaram a atividade. Empresas americanas, como ExxonMobil, ConocoPhillips, Halliburton e GE Vernova, iniciaram negociações ou retornaram ao mercado venezuelano.

Voos comerciais entre os Estados Unidos e a Venezuela foram retomados pela primeira vez desde 2019. O dólar circula abertamente, hotéis de luxo voltaram a receber executivos estrangeiros e investidores discutem contratos de infraestrutura e exploração energética, em um ambiente que contrasta fortemente com os anos finais do governo Maduro, revela a revista.

Segundo a TIME, essa recuperação veio acompanhada de um acordo extraordinário com Washington.

Três autoridades americanas e venezuelanas disseram à revista que o secretário de Estado Marco Rubio supervisiona um mecanismo que dá aos EUA influência sobre as receitas do petróleo, as finanças públicas e a reabertura do setor energético, além de favorecer empresas americanas. Rubio e Rodríguez manteriam contato quase diário por telefone e pelo WhatsApp.

A cooperação também se estendeu às áreas de inteligência e combate ao narcotráfico. Em junho, informações fornecidas por Caracas permitiram uma operação conjunta que resultou na morte de Niño Guerrero, líder do grupo criminoso Tren de Aragua, em Bolívar. Rodríguez afirmou que a Venezuela forneceu a inteligência e as forças em terra, enquanto os EUA realizaram o ataque aéreo.

A reportagem descreve a nova Venezuela como um laboratório da política externa de Donald Trump. Segundo a TIME, o presidente americano lançou uma campanha coercitiva que começou com ataques a embarcações suspeitas de tráfico e culminou na captura de um chefe de Estado em exercício, levado aos Estados Unidos para responder a acusações de drogas e armas. Maduro estaria hoje preso em Nova York.

Laços incertos e uma base frágil

Apoiadores da oposição venezuelana: críticos do governo interino temem pelo bem-estar democrático (Pierre-Philippe MARCOU/AFP) (Pierre-Philippe MARCOU/AFP)

Por sua vez, Rodríguez projeta uma imagem de tecnocrata pragmática, mas seu poder depende de um delicado equilíbrio.

Muitos venezuelanos não lamentam a saída de Maduro, mas também não demonstram entusiasmo por sua sucessora. Críticos a veem menos como salvadora e mais como alguém que trocou a independência nacional pela permanência no poder.

O terremoto que atingiu Caracas em junho, que matou mais de 5 mil pessoas e causou prejuízos estimados em US$ 6,7 bilhões, tornou-se um teste dessa nova relação.

Washington liberou um pacote de reconstrução de US$ 300 milhões e o Comando Sul apoiou as operações de socorro, embora Rodríguez tenha sido criticada por demorar oito dias para falar publicamente sobre a tragédia.

A oposição, liderada por María Corina Machado, acusa Rodríguez de capitular diante dos Estados Unidos em troca de proteção política.

Machado afirma que milhões de venezuelanos só voltarão ao país quando houver garantias de direitos civis e eleições legítimas. Rodríguez responde que não quer que a Venezuela se torne “peão da agenda política de outro país”.

A presidente interina relatou à TIME como chegou ao poder. Na madrugada de 3 de janeiro, forças americanas invadiram o complexo militar de Fort Tiuna, encontraram Maduro de pijama, o prenderam e o retiraram do país de helicóptero. Rodríguez disse ter temido, inicialmente, que ele e a primeira-dama tivessem sido mortos.

Horas depois, mediadores do Catar organizaram uma conversa entre Rodríguez e Rubio. O secretário de Estado apresentou um ultimato: aceitar as exigências americanas ou enfrentar pressão militar contínua.

Ela concordou, alegando não ver alternativa viável para evitar uma escalada. No dia seguinte, falou pela primeira vez com Trump.

O acordo estabeleceu que os Estados Unidos receberiam a maior parte das receitas do petróleo venezuelano e devolveriam os recursos por meio de um sistema semelhante a uma conta de garantia.

Washington liberaria os fundos conforme Caracas cumprisse as condições acordadas, ganhando influência sobre os gastos públicos, o combate à corrupção e o alinhamento geopolítico do país. Em troca, Rodríguez permaneceria no poder e receberia investimentos americanos.

Segundas intenções

Donald Trump, presidente dos EUA, durante reunião de cúpula da Otan. Segundo analistas, estabilidade da Venezuela depende em grande parte da agenda política do republicano (Saul Loeb/AFP) (Saul Loeb/AFP)

A TIME estima que Trump buscava ampliar a oferta global de petróleo antes das eleições de meio de mandato, enquanto Rubio via a oportunidade de afastar a Venezuela da China, da Rússia, de Cuba e do Irã. Autoridades americanas disseram que Maduro recebeu ofertas de exílio mediadas pela Turquia, mas recusou todas elas. Rubio passou então a considerar Rodríguez a figura mais pragmática dentro do chavismo.

Apesar da abertura econômica, a transição democrática continua distante. O governo aprovou uma lei de anistia e afirma ter libertado cerca de 9 mil detidos políticos, mas não há sinais claros de eleições livres e competitivas no curto prazo. Rodríguez declarou que a Venezuela votará “quando estiver pronta” e condicionou o processo a um entendimento entre os atores políticos.

Questionada sobre permitir o retorno e a candidatura de María Corina Machado, ela evitou responder diretamente. Disse apenas que haverá um “momento político” em que a convivência pacífica será possível, sem assumir qualquer compromisso concreto.

Analistas ouvidos pela revista afirmam que a prioridade de Rodríguez não é a democratização, e sim a sobrevivência. Ela precisaria garantir proteção para si e para setores do chavismo em uma futura Venezuela pós-Maduro, evitando perseguições e preservando espaço político em uma eventual transição.

Por enquanto, sua estratégia é reintegrar o país aos mercados globais, diversificar a economia e atrair investimentos estrangeiros de longo prazo. Executivos da General Electric discutiram recentemente projetos para modernizar a rede elétrica venezuelana, um símbolo da tentativa de reconstrução econômica.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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