De mudança da Faria Lima, Eternit quer se repaginar e deixar amianto no passado

Por décadas, a Eternit (ETER3) ocupou um lugar raro no mercado brasileiro: era ao mesmo tempo uma marca conhecida nos telhados do país e uma ação cultuada pelo maior investidor brasileiro, Luiz Barsi, em sua busca por dividendos. A proibição do amianto no Brasil em 2017, porém, colocou esse modelo em xeque, levando a companhia à recuperação judicial e forçando uma reinvenção profunda do negócio. Agora, dois anos após encerrar o processo, a empresa deixa o escritório na Faria Lima, em São Paulo, e transfere a sede para Hortolândia, no interior paulista. Mas essa não é a única mudança em curso.
Além de reduzir custos, a transferência da matriz para Hortolândia faz parte de transformação estratégica. A companhia aposta em um futuro menos dependente de telhas e mais conectado a soluções industrializadas para a construção civil. "Acredito fortemente que a Eternit será reconhecida no futuro breve como uma empresa de soluções para sistemas construtivos", afirma Rodrigo Inácio, CEO da companhia à EXAME.
"Acredito fortemente que a Eternit será reconhecida no futuro breve como uma empresa de soluções para sistemas construtivos", afirma o Rodrigo Inácio, o CEO da companhia (Foto: Divulgação) (Divulgação)
A aposta representa uma guinada relevante para uma empresa fundada em 1940, listada há quase oito décadas na Bolsa de Valores brasileira e que passou seis anos em recuperação judicial, sendo obrigada a rever praticamente todos os pilares do negócio. Ao longo do processo, a Eternit abandonou operações consideradas periféricas, vendeu ativos, encerrou negócios, reformulou fábricas e concluiu a transição do amianto para a fibra de cimento.
Em novembro de 2017, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucional a lei federal que permitia o uso "controlado" do amianto crisotila, proibição confirmada em 2023, quando a Corte rejeitou os últimos recursos da indústria. A decisão se apoiou na natureza cancerígena comprovada da fibra e na inexistência de níveis seguros de exposição, colocando os direitos à saúde e ao meio ambiente acima dos interesses econômicos do setor.
O amianto era a principal matéria-prima das telhas da Eternit. A companhia foi obrigada a promover uma complexa transição industrial para matérias-primas alternativas, o que elevou custos e pressionou seus resultados.
"Tomamos várias decisões difíceis", lembra Inácio. Entre elas, o fechamento da fábrica de louças sanitárias no Ceará, a venda de unidades consideradas fora do foco estratégico e a adaptação das linhas produtivas para operar sem amianto. "Apesar de parecer apenas uma troca de matéria-prima, muda processo, regulagem de equipamento e toda a operação."
Segundo o executivo, a própria decisão de entrar em recuperação judicial foi uma das mais delicadas. A empresa optou por um modelo que classifica como preventivo, buscando proteção jurídica antes de enfrentar dificuldades financeiras mais graves.
"Colocamos a empresa em recuperação judicial pagando fornecedores antecipadamente, arcando com os juros da dívida e investindo. Foi uma decisão dura, mas que deixou a companhia organizada e preparada para olhar para o futuro".
Parte desse futuro começou a ser desenhada quando a Eternit decidiu abandonar apostas que consumiam recursos sem gerar escala. Um desses casos foi o projeto de telhas fotovoltaicas. A empresa chegou a desenvolver uma solução que integrava geração solar ao próprio produto, mas viu a estratégia perder sentido diante da queda abrupta dos preços dos painéis chineses.
"Incrivelmente o preço do fotovoltaico vindo da China reduziu três ou quatro vezes. Os chineses inundaram o mundo. Não fazia mais lógica produzir isso no Brasil", afirma Inácio.
A saída do negócio também levou ao encerramento das operações de telhas de concreto da marca Tégula. Para o executivo, a experiência ensinou que a companhia precisava concentrar esforços em mercados onde tivesse escala industrial e atuação predominantemente B2B. "Era um negócio pequeno que demandava muita atenção. Era uma distração para a companhia."
A partir daí, a empresa decidiu reforçar o foco em um mercado que, segundo o executivo da Eternit, cresce acima de 20% ao ano há pelo menos cinco anos, o da construção industrializada.Oportunidade criada pela falta de mão de obra
Na visão da Eternit, o principal motor dessa transformação não é tecnológico, mas demográfico. De acordo com Inácio, a construção civil enfrenta um processo estrutural de escassez de trabalhadores "O filho do pedreiro não quer mais fazer o trabalho que o pai fazia. Prefere trabalhar de Uber, de aplicativo, ter mais autonomia".
Diante desse "apagão de mão de obra", o presidente da companhia avalia que a industrialização surge como resposta. Em vez de executar etapas da obra no canteiro, parte significativa da construção passa a ser produzida em ambiente fabril controlado, com maior produtividade, menos desperdício e menor dependência de mão de obra tradicional. Um espaço que a Eternit quer ocupar.
Hoje a empresa produz placas cimentícias, pisos e componentes utilizados em sistemas como steel frame (metálica) e construções modulares. Em alguns casos, fornece não apenas a chapa, mas sistemas completos de fechamento de paredes. "Estamos indo do telhado ao piso", resume Carisa Cristal, diretora Financeira e de Relações com os Investidores.
O segmento ainda representa uma fatia pequena do negócio, mas já correspondeu a cerca de 9% das vendas de fibrocimento no ano passado e cresce em ritmo acelerado. A atração, de acordo com a CFO, também está nas margens.
Enquanto a telha tradicional é um produto relativamente padronizado, as soluções industrializadas envolvem projetos customizados, assistência técnica e produtos de maior valor agregado. "É uma margem muito superior à da telha", afirma Cristal.
Apesar dos planos da empresa, Cristiano Gregorius, diretor executivo do ecossistema Sienge (principal plataforma tecnológica de gestão da construção civil no Brasil), observa que a expansão ainda enfrenta desafios importantes. "O principal deles é a resistência cultural do mercado brasileiro, que ainda demonstra certa desconfiança em relação a sistemas construtivos como steel frame [substituição de concreto por aço] e outras soluções industrializadas", afirma.
Gregorius pondera, contudo, que os fundamentos de mercado "indicam um ambiente favorável para a expansão desse modelo nos próximos anos". "Países como Suécia e Reino Unido já usam a industrialização para enfrentar a falta de profissionais; o Brasil segue o mesmo caminho em busca de produtividade e menor necessidade de mão de obra intensiva".
Sem abrir o guidance da empresa, a CFO da Eternit acredita que esse segmento possa dobrar de tamanho nos resultados da empresa este ano. Nos resultados financeiros do 1° trimestre da companhia, a receita de construção industrializada registrou um crescimento de 17,7% na comparação com os primeiros três meses de 2025.
No documento, a companhia também apontou que a "aceleração" dessa linha ampliou sua contribuição para a receita total do grupo que somou R$ 262 milhões em termos líquidos consolidados.
A empresa já converteu duas linhas de produção para atender esse mercado e prepara a terceira adaptação no segundo semestre. Cada conversão exige investimentos entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões, valor inferior aos cerca de R$ 190 milhões necessários para construir uma nova fábrica do zero, segundo os executivos.
Hortolândia como símbolo da nova fase
A unidade de Hortolândia foi adquirida em 2021, durante a pandemia, quando a Eternit comprou a Confibra. O espaço se tornou peça central da estratégia industrial da companhia. Um dos equipamentos da planta já está sendo adaptado para fabricar produtos voltados à construção industrializada.
A mudança também faz parte de uma reorganização operacional mais ampla. A empresa criou um Centro de Serviços de Excelência, estruturou uma operação logística própria e decidiu aproximar áreas administrativas das fábricas. "A decisão não foi apenas financeira. Ela tem foco em criar sinergia com a operação", afirma Inácio.
Para Cristal, o movimento faz parte de um conceito interno batizado de "habitat sustentável", que envolve eficiência operacional, governança, digitalização e preparação para os desafios futuros. "É uma Eternit mais colaborativa, mais próxima do negócio e mais focada no cliente." Ao todo, o grupo tem cerca de 17 mil clientes espalhados em todos os estados, com atendimento direto a 3.700 municípios.
A mudança gerou receios iniciais entre funcionários acostumados à capital paulista, mas acabou produzindo resultados melhores do que o esperado. Parte da equipe se mudou para o interior e outra passou aoperar em regime híbrido.
O desafio do amianto
Embora o futuro da companhia esteja ligado à construção industrializada, oamianto ainda permanece presente na operação. A Eternit continua exportando a fibra produzida pela Sama, em Minaçu, em Goiás, mas trabalha com a perspectiva de redução gradual dessa dependência.
A operação é realizada hoje sob leis estaduais, mas há anos éalvo de questionamentos do Supremo Tribunal Federal (STF). Entre janeiro e março, o mineral crisotila representou aproximadamente 18,9% do faturamento líquido total do Grupo Eternit, o que equivale a R$ 49,4 milhões. No mesmo período do ano passado, contudo, o amianto representava uma fatia maior, cerca de 24,9% da receita total.
"Nós estamos preparando a companhia para ser cada dia menos amianto", afirma Inácio.
Ao mesmo tempo, a empresa também afirma que busca construir um plano de transição para a região de Minaçu, cuja economia ainda depende fortemente da mineração. Atualmente, 100% da produção deste mineral é destinada exclusivamente ao mercado externo.
E a bolsa?
No mercado de capitais há 78 anos, a Eternit enfrenta um desafio diferente com a baixa liquidez das ações. Segundo Cristal, o pequeno número de companhias abertas comparáveis no setor de materiais de construção e a ausência no Ibovespareduzem o interesse dos investidores e amplificam oscilações de preço.
A estratégia para mudar esse cenário passa por aproximar a companhia de analistas e investidores e, principalmente, executar a transformação operacional. "Entendemos que, dando essa guinada na construção industrializada e retomando esse relacionamento com investidores, vai passar a ter maior liquidez", afirma.
A aposta da Eternit é que, daqui a alguns anos, o mercado deixe de associar a companhia ao amianto ou mesmo às telhas. Se o plano der certo, a empresa quer ser lembrada pelas soluções industrializadas para construir casas, hotéis, hospitais e prédios de forma mais rápida, padronizada e rentável.
Ou, nas palavras do presidente da companhia, "a Eternit será reconhecida como uma empresa de soluções para piso, parede e telhado".
