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NegóciosMPOL
08/09/2026
8 min

De office boy a dono de 474 farmácias: eles criaram um império de R$ 3,7 bilhões no Paraná

Fundada por Sergio Maeoka em uma loja de 40 m² em Curitiba, a Nissei cresceu para cinco estados, acelerou a expansão nos últimos dois anos e agora aposta em beleza para seguir crescendo

De office boy a dono de 474 farmácias: eles criaram um império de R$ 3,7 bilhões no Paraná

No Paraná, a Nisseijá passou da condição de rede local. Mais de 300 de suas 474 farmácias estão no estado onde a empresa nasceu, há 40 anos.

O negócio, que começou em uma pequena loja em Curitiba, hoje é um império com faturamento bruto de 3,7 bilhões de reais em 2025, alta de 17,11% sobre o ano anterior.

Por trás desta gigante do Sul está Sergio Maeoka. Neto de imigrantes japoneses, ele entrou ainda adolescente no varejo farmacêutico e passou por diferentes funções antes de decidir trabalhar por conta própria. Em 1986, comprou uma farmácia de 40 metros quadrados no bairro das Mercês, em Curitiba.

Como o negócio ainda não gerava dinheiro suficiente para sustentar a família e financiar o crescimento, abriu também uma pastelaria. Os pastéis ajudaram a bancar a operação enquanto as primeiras farmácias ganhavam escala.

Agora, 40 anos depois, a Nissei chega a um ponto de mudança. Depois deacelerar a abertura de unidades e sair de cerca de 330 para mais de 470 lojas em apenas dois anos, a companhia decidiu reduzir o ritmo no curto prazo. A prioridade agora é fazer as novas operações amadurecerem.

Ao mesmo tempo, a empresa prepara a próxima etapa de crescimento fora do Paraná e testa novos formatos, como uma área dedicada exclusivamente à beleza recém-inaugurada na Avenida Paulista, em São Paulo.

“Há dois anos, a gente optou por fazer uma expansão em larga escala. Pelo momento do país, pelo momento da economia, agora optamos por reduzir o ritmo de expansão e focar muito na maturação dessas lojas, porque são muitas lojas ainda a maturar”, diz Alexandre Maeoka, CEO da Nissei e filho do fundador.

A redução, porém, não significa o fim das aberturas. No médio e longo prazo, a Nissei enxerga principalmente São Paulo e Goiás como mercados para uma nova rodada de expansão.

A rede já está na capital paulista, na Baixada Santista e no interior do estado. Em Goiás, soma perto de 30 unidades. “São Paulo capital e arredores ainda têm um espaço gigantesco para uma marca nova crescer e se expandir”, afirma Alexandre.

Qual é a história da Nissei

Antes de ser empresário, Sergio Maeoka conheceu o negócio do outro lado do balcão.

Trabalhou como funcionário de farmácia, passou pelo atendimento e chegou a funções de gestão. Quando a pequena rede em que trabalhava foi vendida, em 1986, precisou escolher entre continuar como empregado ou abrir o próprio negócio.

Escolheu a segunda opção.

A primeira Nissei abriu nas Mercês. Depois, a empresa avançou para a região central de Curitiba. A segunda unidade veio em 1991 e a terceira, em 1993. Em 1998, a rede já contava com 30 lojas.

Alexandre Maeoka, CEO da Farmácias Nissei (Leandro Fonseca /Exame)

A pastelaria ficou pelo caminho quando o negócio farmacêutico ganhou tamanho suficiente para sustentar a família. A lógica financeira daquele começo, no entanto, continuou dentro da companhia.

“Farmácia é um negócio de alto giro, mas de margens muito apertadas. Para conseguir fazer o negócio crescer, você não pode ficar tirando dinheiro”, diz Alexandre.

O crescimento também seguiu uma lógica geográfica. Primeiro Curitiba. Depois, o litoral e municípios em um raio mais próximo da capital. Na sequência vieram cidades como Ponta Grossa e Londrina. A primeira entrada fora do Paraná aconteceu em Santa Catarina, entre 2012 e 2013. São Paulo veio depois.

Hoje, a Nissei está presente em Paraná, São Paulo, Santa Catarina, Goiás e Distrito Federal. São 474 lojas em 130 cidades e mais de 7.500 funcionários. A rede atende mais de 5 milhões de clientes por ano.

A decisão que preparou a próxima fase de crescimento

A expansão não aconteceu em linha reta. Em 2014, quando parte do varejo brasileiro reforçava investimentos diante da Copa do Mundo, a Nissei direcionou recursos para a infraestrutura da operação. A companhia investiu em logística e em um centro de distribuição em Colombo, na região metropolitana de Curitiba.

A estrutura ajudaria a sustentar o crescimento dos anos seguintes.

Outra escolha foi aumentar o espaço dedicado a produtos que não são medicamentos. A Nissei adotou no Paraná o formato de drugstore, loja que combina farmácia com categorias como higiene, beleza, alimentos e itens de conveniência.

Na prática, é a lógica do “remédio ao chocolate”.

As lojas da rede costumam ter entre 250 e 300 metros quadrados, segundo Alexandre. Esse espaço permite aumentar o salão e disputar compras que poderiam acontecer em supermercados, lojas de conveniência ou perfumarias.

“Além da farmácia oferecer medicamentos, tem essa parte de não medicamentos, de salão de loja, mercearia e conveniência. A gente sempre pregou que a farmácia tem que ser um lugar onde as pessoas comprem o medicamento, mas o salão de loja tem que fazer parte da sua rotina”, afirma Alexandre.

Essa estratégia também tenta reduzir a dependência de uma categoria em que a própria empresa reconhece a dificuldade de margem. “Medicamento é um negócio de margens extremamente reduzidas”, diz Alexandre.

Como foi a expansão mais rápida da empresa

A maior aceleração veio recentemente.

Além da expansão orgânica, a Nissei passou a usar aquisições e pontos de redes concorrentes para ganhar território. Em 2022, comprou a Merco, distribuidora voltada a medicamentos especiais. A partir de 2023, incorporou pontos da Poupafarma em São Paulo e lojas da rede Santa Marta no Centro-Oeste.

Entre dezembro de 2023 e o fim de 2024, foram cerca de 100 lojas abertas em 13 meses. Historicamente, a empresa vinha trabalhando em um ritmo próximo de 25 unidades por ano.

O avanço ajudou a levar a companhia de cerca de 330 para 470 lojas em dois anos.

Em 2025, o faturamento bruto chegou a 3,7 bilhões de reais, crescimento de 17,11%. O Ebitda consolidado, indicador que mede a geração operacional de caixa antes de juros, impostos, depreciação e amortização, avançou 36,4%, para 252 milhões de reais.

No segundo trimestre de 2026, a receita bruta consolidada foi de 1,9 bilhão de reais. O Ebitda atingiu 138,6 milhões de reais, com margem de 7,25%.

Agora, depois da corrida por novas lojas, a ordem mudou. A Nissei quer extrair mais das unidades abertas antes de voltar a acelerar.

Qual é a estratégia de crescer receita nas lojas já abertas

É nesse contexto que entra o novo experimento da Nissei.

No Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, a empresa abriu o Nissei Beauty Center, espaço de 154 metros quadrados dedicado a maquiagem, perfumaria, produtos para cabelo, cuidados com a pele, e dermocosméticos. São mais de 40 marcas e 2.000 itens.

O objetivo é aumentar a participação de categorias que oferecem à farmácia outra relação com o consumidor.

No primeiro semestre de 2026, cuidados pessoais, beleza e dermocosméticos já responderam por 21,85% das vendas da companhia.

Farmacia Nissei do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista (Leandro Fonseca/Exame)

O espaço tem equipamentos para análise de pele e cabelo, áreas para aplicação de produtos e ações com marcas. Também foi pensado para receber criação de conteúdo e produtos que cresceram primeiro nas redes sociais.

“Aqui passa a ser um local onde as pessoas podem experimentar, olhar o produto, testar o produto, que é uma coisa que a internet não te oferece. Você consegue ver o vídeo, mas está vendo outra pessoa. Aqui você faz com que as pessoas possam ter essa experiência”, afirma Alexandre.

A primeira unidade funciona como projeto-piloto. Se o formato der resultado, a companhia poderá levá-lo para outros grandes centros.

Outro negócio que praticamente não existia antes da pandemia passou a representar uma parcela relevante das vendas. Em 2025, o canal digital faturou 326,3 milhões de reais, aumento de 179,96%. O aplicativo da rede superou 500.000 downloads.

No segundo trimestre de 2026, o omnichannel, modelo que integra loja física, aplicativo, site e outros canais de venda, movimentou 156,7 milhões de reais. A alta foi de 132,5% em relação ao mesmo período de 2025.

O canal passou a representar 21,09% da receita bruta do varejo, ante 9,09% um ano antes.

“Antes da pandemia, se eu for olhar cinco anos atrás, nosso digital era praticamente zero. Hoje faz parte do dia a dia”, diz Alexandre.

São Paulo ajuda a puxar essa mudança. Segundo o executivo, o consumidor paulista tem forte adesão a compras pelo aplicativo, site e outras plataformas.

Quais são os desafios no meio do caminho

Apesar dos números, a expansão nacional ainda tem um obstáculo evidente: a maior parte da força da Nissei continua concentrada em seu estado de origem.

Das mais de 470 lojas, mais de 300 estão no Paraná. Fora dali, a empresa ainda precisa construir uma relação com consumidores acostumados a outras redes. Alexandre evita dizer que a companhia já conhece esses mercados tão bem quanto conhece seu estado natal.

“Eu acho que é muito difícil falar: ‘eu conheço o consumidor de São Paulo, eu conheço o consumidor de Goiás’. Acho que a gente ainda está aprendendo. Nossa base, nossa raiz é o Paraná”, diz.

São Paulo será o principal teste dessa capacidade. A empresa vê espaço para crescer na capital e nos arredores, mas não pretende repetir imediatamente o ritmo dos últimos dois anos. Primeiro quer fazer as lojas abertas produzirem o retorno esperado.

Quarenta anos depois de Sergio Maeoka precisar vender pastéis para manter dinheiro dentro de uma pequena farmácia, a Nissei já encontrou espaço para colocar 474 lojas de pé.

A próxima tarefa é provar que o modelo construído no Paraná consegue ganhar a mesma força fora dele.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
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