De office-boy a empresário, como ele ajudou multinacionais a poupar milhões
Anderson Luciano construiu carreira na área tributária, chegou ao comando das Américas na Danone e fundou a AFL, que cresceu 73% entre 2024 e 2025

Filho de uma faxineira e de um vidraceiro, Anderson Luciano começou a trabalhar aos 13 anos como office-boy de um escritório de contabilidade. Percorria as ruas do Bom Retiro, em São Paulo, entregando holerites, cobranças e documentos. O contato com o trabalho no escritório o levou ao curso técnico e, depois, à faculdade, que começou com o apoio do pai, apesar das dificuldades para pagar as primeiras mensalidades.
Na área tributária, encontrou espaço para crescer nas empresas e, mais tarde, empreender. Passou por KPMG, Motorola, Votorantim e Danone, onde chegou à liderança tributária das Américas. Depois, transformou essa experiência em negócio: a AFL Consultores, que cresceu 73% entre 2024 e 2025. Hoje, a receita bruta da companhia está na casa dos oito dígitos.
À frente da AFL em tempo integral desde 2012, Anderson se dedica a um trabalho de análise de arquivos fiscais para identificar tributos que os clientes podem recuperar e pagamentos que podem ser reduzidos, com avaliação jurídica de cada medida. Ele atribui o crescimento do negócio à combinação entre tecnologia e profissionais especializados.
A experiência nas multinacionais também orienta sua atuação como consultor. Depois de anos responsável por executar mudanças dentro das empresas, Anderson diz considerar, além da economia potencial, as condições que cada cliente tem para colocar as recomendações em prática.
Da faculdade ao comando tributário das Américas
A faculdade lhe deu acesso a um mercado de trabalho que até então conhecia pouco. No segundo semestre, participou de um processo seletivo da KPMG, consultoria de auditoria e negócios, e foi contratado para a área de auditoria. Depois, passou à consultoria tributária. Aos 24 anos, tornou-se gerente — segundo ele, um dos mais jovens da companhia na época.
A possibilidade de se tornar sócio estava no horizonte, mas Anderson queria acompanhar o que acontecia depois da entrega dos relatórios. Como consultor, recomendava mudanças, mas a execução dependia do cliente. A Motorola, cuja conta atendia, o contratou. Encerrou uma semana como consultor da fabricante e começou a seguinte como executivo da empresa.
Na Motorola, participou de uma reorganização societária e trabalhou na fábrica de Jaguariúna, no interior paulista. Depois, passou oito anos na Votorantim Celulose e Papel, onde atuou na reestruturação internacional do grupo, incluindo uma temporada na Suíça.
Durante um curso em Copenhague, conheceu o responsável global pela área tributária da Danone. O contato levou a uma entrevista em Paris e à contratação. Assumiu primeiro o Brasil e, posteriormente, as Américas.
A pergunta sobre o iogurte que chegou a Brasília
Na Danone, as oportunidades mais evidentes de economia tributária começavam a se esgotar. Anderson decidiu então examinar o que parecia dado: os impostos cobrados sobre os produtos da companhia.
A investigação começou com uma pergunta à área de qualidade. Do que, afinal, é feito um iogurte? Segundo ele, a resposta foi leite, fermento e, a depender do produto, fruta. Esses ingredientes já contavam com benefícios fiscais, mas o derivado continuava sujeito à cobrança de PIS e Cofins, contribuições federais.
Anderson passou a defender que o tratamento concedido à matéria-prima fosse estendido a parte dos lácteos. A conta parecia simples. A negociação, porém, envolvia mais gente. Uma mudança desse tipo dependia do governo federal e do Congresso e, se aprovada, alcançaria todo o setor — inclusive os concorrentes da Danone.
Ele procurou primeiro os ministérios da Agricultura e da Saúde. Queria acrescentar à discussão tributária um argumento sobre alimentação e acesso aos produtos. Depois, levou a proposta ao Ministério da Fazenda, à Receita Federal e a lideranças da Câmara e do Senado.
A ideia tampouco foi recebida com entusiasmo imediato dentro da empresa. O executivo passou a viajar a Brasília três dias por semana. Quando as negociações avançaram, dirigentes que antes desconfiavam do projeto começaram a acompanhá-lo.
A Lei nº 11.488, de 2007, alterou a legislação e reduziu a zero as alíquotas de PIS e Cofins de produtos como leites fermentados e bebidas lácteas. Anderson afirma ter liderado a articulação pela Danone e diz que a mudança gerou uma economia de milhões de reais para a companhia já no primeiro ano.
O currículo não fazia o telefone tocar
Anderson decidiu empreender quando sua carreira ainda avançava. Havia sido reconhecido pela Danone e, segundo ele, estava nos planos da companhia para assumir futuramente a liderança tributária global. Quando comunicou que pretendia sair, recebeu uma promoção para comandar a área nas Américas.
A proposta adiou a partida, mas não mudou a decisão. Anderson atribui a escolha a um inconformismo: mesmo em operações já estruturadas, enxergava processos que poderiam funcionar melhor. Com uma consultoria própria, poderia aplicar essa experiência a diferentes empresas e trabalhar com desafios que mudariam a cada cliente.
Antes de sair, consultou dez amigos. Nove recomendaram que permanecesse na multinacional. A transição começou com quatro dias por semana na Danone e um na AFL. Em março de 2012, Anderson deixou definitivamente a companhia e passou a dividir o escritório com uma estagiária.
O currículo que havia aberto portas em multinacionais não fazia o telefone tocar. As propostas demoravam a virar contratos.
A AFL nasceu, porém, em um momento favorável a uma das apostas do fundador: o uso de tecnologia na área tributária. O país avançava na digitalização fiscal, com iniciativas como o Sistema Público de Escrituração Digital, o Sped, que ampliava o uso de arquivos eletrônicos e o volume de informações disponíveis para análise. Anderson contratou um gerente de tecnologia da informação antes mesmo de formar uma grande equipe de consultores.
O trabalho foi organizado em três frentes. Os sistemas processam os arquivos fiscais dos clientes; os consultores identificam valores que podem ser recuperados ou pagamentos passíveis de redução; e os consultores jurídicos avaliam a sustentação legal de cada medida.
Segundo Anderson, essa combinação permite revisar períodos já analisados por outras consultorias e, ainda assim, encontrar oportunidades. É uma das bases da expansão recente da AFL.
Reforma tributária e inteligência artificial
O trabalho de revisão agora divide espaço com a adaptação à reforma tributária. A transição começou em 2026, com testes dos novos tributos sobre o consumo, e vai até 2033. Durante esse período, as empresas precisam adaptar sistemas, documentos e processos às novas regras enquanto continuam cumprindo as obrigações anteriores.
É nesse cenário que Anderson acredita que sua experiência dos dois lados da mesa ganha relevância. Para ele, ter conduzido a área tributária de grandes empresas ajuda a entender as dificuldades das equipes que precisam executar as mudanças e a propor soluções compatíveis com a rotina de cada operação.
A tecnologia também segue na agenda. Em 2023, foi fundada a AFL Intelligence, braço dedicado ao desenvolvimento de soluções próprias de inteligência artificial para o mercado. Segundo Anderson, a iniciativa dá continuidade à aposta que acompanha a consultoria desde os primeiros anos: usar novas ferramentas para identificar gargalos e oportunidades de melhorar processos.
Quatorze anos depois de deixar a Danone, Anderson diz ter encontrado na própria empresa a variedade de desafios que buscava ao decidir empreender. Entre a adaptação à reforma tributária e o desenvolvimento de soluções de inteligência artificial, a lista de problemas a resolver continua a crescer.
