De olho no IPO em Hong Kong, Shein reduz operação no Vietnã e aposta na China
Mudanças nas tarifas dos EUA reduziram a vantagem do Vietnã e levaram a Shein a reforçar fornecedores na China

A Shein reduziu, em larga escala, uma operação logística no Vietnã e redirecionou recursos para reforçar fornecedores na China, segundo apuração da Reuters junto a seis pessoas com conhecimento direto do assunto, enquanto avança com os planos de abrir capital em Hong Kong.
A companhia havia montado a operação no Vietnã há pouco mais de um ano, em uma tentativa de ampliar sua produção fora da China. A mudança vai na contramão do seu intuito de diversificar a produção para fora do território chinês como forma de escapar de tarifas americanas.
No caso da Shein, o cálculo mudou com as transformações nas regras tributárias dos Estados Unidos e diante da dificuldade de replicar em outros países a eficiência da manufatura chinesa.
Shein reduz operação no Vietnã
A Shein começou a alugar um complexo de armazéns perto da cidade vietnamita Ho Chi Minh City, de 15 hectares, equivalente a 21 campos de futebol, ainda no fim de 2024. A aposta era que o Vietnã se tornaria uma base relevante de exportação para os EUA.
À época, o local era o maior galpão alfandegado do tipo no país e chegou a empregar milhares de pessoas. Hoje, a área ocupada encolheu para seis hectares, segundo duas fontes ouvidas a par do assunto. Uma terceira pessoa afirma que apenas um terço do terreno originalmente planejado segue em uso.
Demissões em massa começaram em abril, com algumas equipes reduzidas a um quarto do efetivo original, e mais cortes são esperados. Em visita ao local no fim de julho, a Reuters encontrou poucos funcionários e apenas alguns caminhões estacionados, bem diferente de galpões vizinhos operados por outras empresas.
Mudança nas tarifas dos EUA
Em 30 de julho de 2025, o governo do presidente estadunidense Donald Trump decidiu acabar com a isenção de tarifas para remessas internacionais abaixo de US$ 800, a chamada regra de "minimis", válida até então para encomendas de qualquer país.
A medida entrou em vigor um mês depois, complementando o fim antecipado da mesma isenção especificamente para produtos vindos da China.
Antes disso, a perspectiva de perder o benefício, somada à eleição de Trump e ao temor de uma guerra comercial mais dura, já havia levado tarifas americanas sobre produtos chineses a picos de até 145% em abril de 2025.
Foi esse cenário que motivou a Shein a estimular fornecedores a abrir unidades no Vietnã. Com o tempo, porém, as tarifas sobre bens chineses foram recuando gradualmente, reduzindo a vantagem vietnamita.
No mês passado, uma nova rodada de tarifas de 12,5%, aplicada a China e Vietnã sob acusação de tolerância ao trabalho forçado na cadeia produtiva, reduziu a diferença entre os dois países no campo tarifário e tirou força do argumento a favor de manter operações vietnamitas.
Produção chinesa mantém vantagem
Mesmo com a matemática tributária mais favorável no início, fontes ligadas a fornecedores da Shein na China dizem que o Vietnã nunca conseguiu mão de obra disposta a cumprir as jornadas longas exigidas pelo modelo de produção em escala da varejista, com salários baixos.
A engrenagem que sustenta a Shein depende de milhares de pequenos fabricantes chineses capazes de produzir milhões de estampas diferentes em lotes pequenos, a cerca de US$ 0,15, por peça. O que explica porque a varejista já foi denunciada por exploração do trabalho.
Um gerente de fábrica identificado apenas pelo sobrenome Wen, no distrito de Panyu, em Guangzhou, região conhecida por concentrar milhares de pequenas confecções apelidadas de "vilarejos Shein", confirma que boa parte dos fornecedores que haviam migrado para o Vietnã já retornou à China.
"Eles perceberam que, apesar da alíquota de tarifa dos EUA sobre produtos vietnamitas ser menor do que a aplicada aos chineses, a baixa eficiência ainda torna a produção no Vietnã menos viável do que na China", disse a fonte, que pediu à Reuters para não ser identificado.
Fornecedores buscam novas alternativas
Se por um lado a Shein reforça o compromisso com a manufatura chinesa, o mesmo nem sempre acontece do lado dos fornecedores, à medida que a demanda americana esfria. O prospecto preliminar da oferta em Hong Kong revelou queda de 14% na receita da companhia nos EUA no primeiro trimestre.
Wen e outros três fornecedores relatam pedidos estagnados ou em leve crescimento, com expectativa de nova desaceleração depois que a União Europeia passou a cobrar, no mês passado, uma taxa de € 3 sobre importações de baixo valor via comércio eletrônico.
Ping He, que já trabalhou na área de operações da Shein e do TikTok Shop, conta que milhares de pequenos fabricantes passaram a complementar a renda abrindo lojas em plataformas concorrentes, como o Temu, do grupo chinês PDD Holdings, e a Amazon.
"A Shein já não é mais a queridinha do momento. Agora existem muito mais opções", avaliou.
Outros preferem voltar a atender pedidos maiores e com prazos mais longos, fora do circuito da varejista. É o caso da fábrica Jiang Gong Clothes, que rompeu com a Shein há poucos meses.
