De Ormuz ao Nazismo: essa não é a primeira Copa sob a sombra de uma guerra

Apesar de a Copa do Mundo ser, para muitos, uma pausa bem-vinda das preocupações do dia a dia, é impossível separar o esporte do contexto geopolítico contemporâneo.
Da mesma maneira que tópicos como as políticas imigratórias do presidente americano, Donald Trump, e o conflito armado no Irã, que levou ao bloqueio do Estreito de Ormuz, impactam essa edição do torneio, eventos passados também foram sujeitos às dinâmicas de seus tempos.
O século XX foi um período de conflitos. Foi palco de duas guerras mundiais, de conflitos na Ásia e no Oriente Médio e de uma miríade de confrontos de menor escala, mas igualmente brutais. E, salvo uma pausa devido à Segunda Guerra — não houve torneios em 1942 e 1946, e o de 1938 foi impactado pelos conflitos que avizinhavam —, a Copa do Mundo da FIFA foi uma constante importante a cada quatro anos.Os perfis dessas Copas passadas ilustram não só a perseverança do esporte, mesmo em meio à adversidade, mas também o papel diplomático que o futebol, em nível internacional, pode desempenhar na promoção da paz e da cooperação entre as nações.
Acompanhe algumas das mais interessantes instâncias de conflitos pela história e suas relações com o futebol, a diplomacia e a Copa do Mundo:
1938 - ascensão da Alemanha nazista e o Wunderteam
Adolf Hitler em meio ao exército alemão em 1936, poucos anos antes da anexação da Áustria. (Central Press/Hulton Archive/Getty Images)
No fim de março de 1938, poucos meses antes do início da Copa do Mundo, a Alemanha nazista de Hitler, seguindo as ambições de seu líder de unir todas as populações de língua alemã, anexou a Áustria, no que ficou conhecido como o Anschluss. O plano, conduzido por meio de intensa coerção política, repleta de ultimatos, e pela ajuda voluntária de austríacos apoiadores do regime, visava tomar posse da indústria metalúrgica do país vizinho à Alemanha, em preparação para uma guerra na Europa, que o alto escalão do partido nazista queria iniciar até 1940.
Após a anexação, a federação de futebol austríaca enviou um telegrama à FIFA cancelando sua participação no torneio, visto que o órgão havia virtualmente deixado de existir, pois o país agora constava como território alemão. O primeiro oponente da Áustria, a Suécia, foi automaticamente qualificado após a dissolução da federação esportiva austríaca.
Para o choque do mundo, tropas alemãs foram recebidas na Áustria com celebrações e multidões, mas as tensões políticas continuavam presentes. Nesse contexto, foi programado um jogo amistoso entre a Alemanha e a Áustria, que carregava tanto um peso simbólico, para relaxar tensões por meio de uma atividade popular em ambos os países, quanto uma importância tática, tanto de propaganda quanto para que o técnico alemão, Sepp Herberger, considerasse quais jogadores escalaria para o time nazista.
Na época, a seleção austríaca era o chamado Wunderteam, talvez a mais avançada de seu tempo, que revolucionava o esporte. Liderada pelo capitão Matthias Sindelar, a equipe austríaca teve um primeiro tempo sem gols, mas sua supremacia em campo era clara. Interpretações subsequentes sugerem que Sindelar e sua equipe erraram gols de propósito, como forma de protesto e de caçoar dos seus novos governantes alemães.
Dadas as implicações políticas, um empate teria sido menos ambíguo, mas, no segundo tempo, a Áustria abriu facilmente dois gols, selando o resultado de 2-0. O primeiro gol aconteceu aos 62 minutos, quando o centroavante Franz Binder acertou a trave e a bola sobrou para Sindelar, que a desviou por cima do goleiro, marcando no canto da rede. Conta-se que o capitão dançou em comemoração à frente dos oficiais nazistas que assistiam à partida, em afronta ao regime, embora a história seja difícil de verificar.
O segundo gol, próximo à metade do segundo tempo, veio do zagueiro Karl Sesta e é lembrado até hoje como um golaço de falta, não muito diferente do famoso gol de Roberto Carlos. Com cânticos de vitória pelas ruas de Viena, essa foi a última resistência do orgulho nacional da Áustria antes da guerra e a última apresentação do Wunderteam antes do Anschluss ser aprovado por maioria em votação.
Os principais jogadores da equipe foram convocados para jogar pela Alemanha nazista em vez de representar seu país — muitos recusaram-se devido às suas posições políticas. Na escalação final da equipe alemã, incluindo os reservas, apenas 9 dos 22 jogadores eram austríacos do Wunderteam.
Devido às tensões políticas na Europa, muitas seleções também se retiraram do torneio, como a Argentina e as nações britânicas. O Japão, por sua vez, estava ocupado invadindo a China e também não participou do torneio de apenas 15 times, que viu outra taça para a Itália. Devido à guerra, a próxima Copa aconteceria apenas 12 anos depois, em 1950, que seria palco de uma das maiores derrotas do Brasil, que perdeu para o Uruguai na final no Maracanã.
1967 - a guerra do Vietnã e a "copinha" de Saigon
Soldados no Vietnã correm em direção a helicóptero de evacuação. Apesar do conflito sangrento e brutal, um breve alívio veio na forma de um torneio amistoso entre algumas das nações envolvidas, para a melhora do moral. (Enriquecardova/ Wikimedia Commons/Wikimedia Commons)
Após ter sido derrotada nas qualificatórias para a Copa de 1966, na Inglaterra, pela Coreia do Norte, a seleção australiana se viu em uma situação inusitada: no ano seguinte, durante o ápice daguerra do Vietnã, o governo da Austrália permitiu que a seleção nacional participasse de uma "minicopa" no Vietnã para melhorar a moral das tropas aliadas envolvidas no conflito, em uma demonstração de diplomacia pelo futebol.
A Austrália participou do chamado Torneio de Futebol do Dia Nacional do Vietnã, realizado em Saigon, a capital do Vietnã do Sul — parte do país aliada aos EUA contra os comunistas do Norte —, em novembro de 1967, sob o comando do técnico Joe "Tio Joe" Vlasits. A equipe era formada por jovens jogadores, oito dos quais integrariam a geração que classificou o país para a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha.
Disputado em meio à Guerra do Vietnã, ao som de morteiros e sob o perigo constante de ataques, o torneio proporcionou uma experiência incomum aos australianos, que conviviam diariamente com militares e recebiam orientações de segurança devido ao risco de ataques do Viet Cong, incluindo manter certa distância de soldados americanos, que eram alvos comuns.
A competição reuniu oito seleções de países envolvidos no conflito: Austrália, Vietnã do Sul, Nova Zelândia e Singapura no Grupo A; Coreia do Sul, Malásia, Tailândia e Hong Kong no Grupo B.
Após uma vitória de 5-0 contra a Nova Zelândia no primeiro jogo, o time australiano fez uma campanha invejável: venceu os anfitriões, a seleção do Vietnã do Sul, por 1-0, a Malásia pelo mesmo resultado, em um jogo que resultou em brigas e na aparição da polícia, e uma final emocionante contra a Coreia do Sul, que marcou um gol no primeiro minuto do jogo.
Todavia, os "Socceroos", como era chamado o time da Austrália, em uma combinação de "Soccer" — palavra em inglês para futebol — e "canguru", o famoso animal nacional da Austrália, viraram o jogo e selaram o placar de 3 a 2.
Os australianos jogaram dez partidas naquela turnê, inclusive amistosos contra tropas americanas, e venceram todas. O espírito de equipe diante da adversidade e das tensões da guerra foi um elemento importante na mentalidade que, eventualmente, ajudou os australianos a se classificarem para a Copa do Mundo de 1974, na qual falharam em avançar da fase de grupos, mas que, famosamente para os australianos, marcou o primeiro ponto do país em uma Copa.
1982/1986 - Guerra das Malvinas
O craque Maradona, da Argentina, apesar de buscar separar o futebol da política, mesmo assim considerou sua vitória sobre os ingleses como vingança pelo conflito nas ilhas Malvinas. (David Cannon/Allsport/Getty Images)
A Copa do Mundo de 1982 teve início apenas um dia após o fim da Guerra das Malvinas, conflito armado sem declaração formal de guerra que opôs a Grã-Bretanha e a Argentina pela soberania do arquipélago no Atlântico Sul.
O torneio reunia três seleções do Reino Unido — Inglaterra, Escócia e Irlanda do Norte — além da equipe argentina, o que gerou tensões políticas e esportivas.
O clima de hostilidade era tão intenso que o então ministro britânico dos Esportes, Neil Macfarlane, chegou a defender abertamente a suspensão de todos os contatos esportivos com a Argentina. Documentos divulgados apenas décadas depois mostraram que o governo britânico chegou a discutir uma possível retirada da Copa do Mundo, enquanto alguns jogadores relataram sentir "repulsa" diante da perspectiva de disputar o mesmo torneio que os argentinos.
O conflito resultou na morte de cerca de 255 britânicos e 650 argentinos.
A edição de 1982 transcorreu sem boicotes, apesar das tensões provocadas pela soberania das Malvinas, ou Falklands, como os ingleses chamam a ilha.
Mesmo assim, na partida de abertura, torcedores argentinos exibiram mensagens reivindicando a soberania das ilhas, mas o clima político mudou pouco depois, quando a Grã-Bretanha anunciou a rendição das forças argentinas no arquipélago, em 14 de junho.
A rivalidade voltou a ganhar força na Copa do Mundo seguinte, em 1986, no México. Liderada por Diego Maradona, a Argentina conquistou o título após eliminar a Inglaterra nas quartas de final, em um confronto carregado de simbolismo, que viu inclusive o lendário gol com a "mão de Deus" de Maradona e, poucos minutos depois, a arrancada do astro que ficou conhecida como o gol do século. Anos mais tarde, Maradona descreveu a vitória como uma forma de "vingança" pelas perdas argentinas na guerra, embora reconhecesse que o futebol e o conflito eram questões distintas:"É claro que, antes da partida, dissemos que o futebol não tinha nada a ver com a Guerra das Malvinas, mas sabíamos que muitos jovens argentinos haviam morrido lá, abatidos como passarinhos", escreveu Maradona em sua autobiografia, usando o nome espanhol para as ilhas. "Isso foi vingança."
1998 - Problemas familiares
Tensões entre os EUA e o Irã não são novidades em Copa do Mundo (Imagem gerada por IA)
Os atuais problemas entre os EUA e o Irã têm ecos num passado não muito distante, quando, em 1998, uma situação semelhante de conflito entre os rivais e a Copa do Mundo ocorreu pela primeira vez. Após a Revolução Islâmica de 1979, que marcou o fim de um Xá alinhado ao Ocidente e o começo do regime dos aiatolás, que percebe principalmente os EUA como grandes inimigos do Irã, os países cortaram totalmente os laços diplomáticos. Naquela copa, para piorar, o Irã e os EUA competiam no mesmo grupo, o que tornava o duelo inevitável.
Em meados da década de 1990, todavia, o sentimento anti-americano no Irã cresceu entre a população, independentemente do regime, devido a fortes sanções econômicas e a acusações de patrocínio a grupos terroristas e de ambições nucleares, os mesmos tópicos que levaram aos conflitos de hoje.
A partida entre Estados Unidos e Irã, disputada em Lyon, na França, anfitriã do torneio, foi cercada por tensões políticas fora de campo. Ativistas contrários ao governo iraniano promoveram protestos com faixas e camisetas de grupos de oposição, cenário que confirmou as preocupações da organização do torneio.
Dentro das quatro linhas, porém, prevaleceu um clima de cordialidade. Antes do apito inicial, jogadores das duas seleções trocaram cumprimentos, posaram juntos para fotos e a delegação iraniana entregou flores brancas aos americanos, em um gesto simbólico de paz.
A subsequente vitória do Irã por 2 a 1 provocou celebrações em massa em Teerã e foi rapidamente incorporada ao discurso político do regime. As autoridades apresentaram o resultado esportivo como uma demonstração de força diante de um dos principais adversários geopolíticos do país.
“Esta noite, mais uma vez, o adversário forte e arrogante sentiu o gosto amargo da derrota em suas mãos”, disse o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, em um pronunciamento na televisão estatal.
Khamenei, que ainda ocupava o posto, foi morto em 28 de fevereiro, no primeiro dia da guerra entre os Estados Unidos e Israel, devido aos intensos bombardeios em Teerã.
