De R$ 3 milhões a R$ 67 milhões em um ano: a aposta de empresário cearense no Minha Casa, Minha Vida
A construtora CR Duarte projeta avançar 30% em 2026 com um novo projeto de bairro que promete levar mais bem-estar aos moradores do Nordeste: a cidade de 15 minutos

Ter uma casa própria ainda é um dos principais símbolos de sucesso para os brasileiros, e o desejo é maior por aqui do que no restante do mundo. Para 67% dos adultos no país, conquistar um imóvel é sinal de realização pessoal, nove pontos percentuais acima da média global, de 58%, segundo a pesquisa “Life Aspirations 2026”, da Ipsos, realizada com mais de 22 mil pessoas em 30 países.
É justamente sobre esse desejo (e sobre o déficit de moradias que ainda persiste no país) que uma construtora cearense encontrou espaço para acelerar os negócios.
De pequenas reformas de lojas a um ‘banco de terrenos’ capaz de comportar mais de 20 mil novas moradias, a CR Duarte Engenharia transformou a habitação em seu principal vetor de expansão.
Fundada em 1998 pelo engenheiro civil Clausens Duarte, a companhia cresceu tanto no último ano que conquistou o 1º lugar do prêmio Negócios em Expansão 2026, da EXAME, na categoria de empresas comreceita entre R$ 30 milhões e R$ 150 milhões.
A retomada do Minha Casa, Minha Vida foi um dos principais motores desse avanço: de 2024 para 2025, a CR Duarte saiu de uma receita líquida operacional de R$ 3,2 milhões em 2024 para R$ 67,4 milhões em 2025.
Agora, depois do salto, a estratégia muda de tom.
“Depois do forte crescimento do ano passado, esperamos avançar entre 20% e 30% em faturamento neste ano, mas de forma mais sustentável. Agora, nosso principal foco é ganhar eficiência e ampliar a margem de lucratividade”, afirma Duarte.
Para chegar lá, a empresa prepara até R$ 20 milhões em investimentos entre 2026 e 2027 em máquinas, equipamentos e sistemas voltados à industrialização da construção. O montante não inclui os futuros aportes em inteligência artificial.
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Como tudo começou: como as reformas de lojas viraram mais de 6 mil moradias
A história da CR Duarte começou bem distante da escala atual. Formado em engenharia civil em 1996, Duarte passou por um programa de trainee antes de decidir seguir carreira na engenharia e empreender.
Sem capital para comprar terrenos, começou fazendo reformas de pequenas lojas. Dois anos depois, em 2000, veio o primeiro condomínio residencial: apenas dez casas.
“O nosso primeiro condomínio residencial foi um condomínio de dez casas. Foi o nosso pontapé inicial”, afirma Duarte.
Ao longo dos anos, a construtora experimentou diferentes áreas, da infraestrutura a edificações, até concentrar a estratégia no mercado residencial. Desde então, já entregou mais de 6.500 casas e apartamentos, além de obras como hotéis, shoppings, escolas e universidades.
Hoje, a companhia possui cerca de 850 funcionários e nove canteiros de obras, concentrados principalmente na região metropolitana de Fortaleza. Os imóveis residenciais vendidos pela empresa partem de cerca de R$ 150 mil e chegam a R$ 500 mil, faixa que permite à construtora atuar em diferentes públicos atendidos pelo Minha Casa, Minha Vida.
A decisão de concentrar a operação no Ceará também faz parte da estratégia.
“Hoje atuamos só no Ceará. Já chegamos a expandir, fizemos obras em Maceió também, mas, até por uma questão de aumento de eficiência, resolvemos concentrar as operações no Ceará”, afirma Duarte.
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Minha Casa, Minha Vida impulsiona crescimento
A retomada do Minha Casa, Minha Vida em 2025 foi a segunda onda de crescimento da CR Duarte. A construtora já tinha passado por outro ciclo de forte expansão do mercado habitacional, em 2014. Na época, o aumento das obras trouxe também dificuldades operacionais, como a escassez de mão de obra.
“Na primeira experiência de expansão, sofremos bastante com a mão de obra, mas foi um grande aprendizado”, afirma Duarte.
A experiência levou a companhia a se preparar para um novo ciclo de expansão. Segundo o empresário, a CR Duarte reforçou a gestão e a cultura interna e ampliou os investimentos em tecnologia antes de voltar a acelerar os lançamentos.
Duarte acredita que o mercado ainda tem espaço para crescer. Ele cita um déficit habitacional de quase 6 milhões de moradias no Brasil e afirma que, em 2025, o Minha Casa, Minha Vida produziu cerca de 660 mil unidades.
Na própria CR Duarte, a escala aumentou. Hoje, a construtora mantém entre 1.500 e 1.600 unidades em obras simultaneamente e prevê entregar cerca de 1.000 imóveis em 2026. Entre o segundo semestre deste ano e o primeiro trimestre de 2027, pretende iniciar mais de mil unidades.
O estoque de terrenos também permite sustentar novos lançamentos. A empresa possui um land bank com capacidade para mais de 20 mil unidades, mais de três vezes as 6.500 moradias que já entregou ao longo de sua história.
Apesar desse potencial, Duarte afirma que a prioridade agora é crescer com mais eficiência.
“A gente já está com um pipeline de um land bank de terrenos bem robusto. Só que agora o momento é de focar mais no ganho de eficiência”, diz.
Praia de Iracema, em Fortaleza, Ceará (Antonello/Getty Images)
A falta de mão de obra
Se o Minha Casa, Minha Vida ajudou a acelerar a receita, o próximo salto da CR Duarte deverá vir da produtividade.
A companhia pretende investir até R$ 20 milhões entre 2026 e 2027 na industrialização dos canteiros. A estratégia envolve máquinas, equipamentos e sistemas construtivos capazes de reduzir a dependência de processos artesanais.
Para Duarte, duas mudanças devem acelerar esse processo em todo o setor: a reforma tributária, que pode tornar determinadas soluções industrializadas mais competitivas, e a crescente escassez de trabalhadores nos canteiros de obras.
A idade média dos pedreiros nos canteiros da companhia, segundo o executivo, que há uma ou duas décadas girava em torno dos 30 a 35 anos, atualmente se aproxima dos 45 a 50 anos.
“A geração mais nova não quer mais trabalhar na indústria da construção”, afirma.
Para ele, atividades de logística, transporte por aplicativo e profissões digitais passaram a disputar esses profissionais.
A CR Duarte já utiliza, por exemplo, paredes de concreto com formas de alumínio e estruturas pré-moldadas. Agora, busca referências internacionais, incluindo soluções de robotização adotadas pela indústria chinesa.
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Próxima aposta: cidades de 15 minutos
Além de crescer no segmento que levou a companhia até aqui, Duarte prepara uma nova frente de negócios.
A empresa está criando a Vertia, marca voltada ao desenvolvimento de bairros planejados verticais, em parceria com outros grupos do setor. O primeiro grande lançamento está previsto para o primeiro trimestre de 2027, no Ceará.
A inspiração é o conceito internacional das “cidades de 15 minutos”.
“A pé ou de bicicleta, você resolve a sua vida. Você vai da casa para o trabalho, para o lazer, para serviços, para restaurantes”, afirma Duarte.
O projeto deverá reunir residências, escolas, universidades, hotelaria, supermercados e restaurantes. Segundo Duarte, já existem negociações avançadas com empresas e instituições que deverão ocupar o empreendimento.
A estratégia também permitirá à companhia subir o tíquete dos imóveis. Enquanto o portfólio atual chega a aproximadamente R$ 500 mil, a Vertia pretende trabalhar com unidades entre R$ 350 mil e R$ 1,2 milhão, incluindo imóveis enquadrados nas faixas mais altas do Minha Casa, Minha Vida e unidades fora do programa.
Quase três décadas depois de começar reformando pequenas lojas sem dinheiro para comprar o próprio terreno, Duarte agora tem um desafio diferente: transformar o crescimento acelerado em uma operação mais produtiva e rentável.
“Eficiência, inovação e excelência são três pilares fortes em que a gente acredita e vamos continuar investindo bastante”, afirma.
