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NegóciosMPOL
29/07/2026
8 min

De sete anos de prejuízo à disputa por compradores: a virada da Medquímica

Farmacêutica mineira quase quebrou, dobrou o faturamento e agora pode ser vendida. O presidente Alexandre França conta à EXAME como a companhia se prepara para continuar competitiva no mercado - independente do dono

De sete anos de prejuízo à disputa por compradores: a virada da Medquímica

A Medquímica, farmacêutica controlada pela indiana Lupin, passou de uma empresa altamente endividada para uma das operações que pode ser vendida neste ano por milhões de dólares. A saída? Uma reestruturação operacional e a aposta em um medicamento que “curou” o endividamento da companhia que se alastrava por anos.

Em entrevista exclusiva à EXAME, o CEO da Medquímica, Alexandre França, evitou comentar sobre uma eventual venda da empresa, mas detalhou o processo de recuperação da operação brasileira e afirmou que a companhia vive hoje seu melhor momento financeiro.

"Saímos de um faturamento de cerca de R$ 200 milhões em 2021, com EBITDA negativo, para aproximadamente R$ 420 milhões e EBITDA de R$ 32 milhões este ano", afirma o executivo, que projeta alcançar cerca de R$ 500 milhões neste próximo ciclo 26/27.

Os números apresentados deste ano se referem ao exercício fiscal da companhia, que segue o calendário da controladora indiana Lupin, que vai de abril a março. “Os resultados citados em 2026 correspondem ao período que começou em abril do ano passado até 31 de março de 2026”, diz o CEO.

O período de maior fragilidade financeira da Medquímica, segundo França, ficou para trás e voltou a apresentar resultados consistentes.

"Há dois anos a empresa tinha uma dívida superior a um ano de faturamento. Hoje a empresa está saudável", afirma.

Segundo fontes do mercado, há dois anos a empresa recebeu ofertas em torno de US$ 10 milhões. Hoje, a Medquímica vale entre US$ 40 milhões e US$ 50 milhões.

Da crise à recuperação

A MedQuímica foi fundada em 28 de julho de 1975, na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, onde mantém até hoje sua principal fábrica. A companhia é reconhecida pela produção de medicamentos genéricos, como pantoprazol, azitromicina e loratadina, além de um portfólio de medicamentos de marca. Entre os principais produtos estão o Cuprimine (penicilamina - o único medicamento disponível no Brasil para o tratamento da Doença de Wilson), o antiácido Gastrogel, o antigripal Gripinew e o Nasoclean, solução nasal 100% natural.

Mas foi em meio à pandemia, em 2021, que França assumiu o comando da Medquímica, após quase uma década à frente da Aspen Pharma no Brasil.

Na época, a empresa acumulava sete anos consecutivos de prejuízo e convivia com uma estrutura administrativa incompatível com a realidade do negócio, além de ter processos internos pouco eficientes.

A primeira missão foi enxugar custos, reorganizar a operação e rever toda a estrutura administrativa.

"Quando eu cheguei pela primeira vez no escritório em São Paulo, o prédio parecia o Taj Mahal, um luxo. Minha cadeira só não fazia massagem. Ali já pensei: tem algo que não bate. Um escritório com esse glamour todo e eu devendo a banco. Não faz sentido. Foi então que eu fechei o escritório e fomos para o WeWork, onde estamos até hoje", afirma.

A recuperação aconteceu em etapas. No primeiro ano da gestão, a empresa atingiu o ponto de equilíbrio financeiro (break-even). "A companhia finalmente deixou de operar no prejuízo," afirma o CEO. No segundo, voltou a registrar lucro. No terceiro, ampliou a rentabilidade e acelerou o crescimento da operação, conta o CEO.

“Entre 2022 e 2023 a companhia registrou crescimento de cerca de 30%”, diz França.

O maior desafio, no entanto, ainda estava por vir.

Em 2024, durante o processo de reorganização, uma auditoria técnica independente identificou uma série de problemas operacionais na fábrica de Juiz de Fora (MG), única unidade industrial da empresa. Segundo fontes do mercado, a investigação também apontou irregularidades internas que exigiram uma ampla reformulação da operação industrial.

A Medquímica interrompeu parte da produção durante cerca de 6 meses para realizar adequações na planta e revisar processos produtivos.

"Naquele ano voltamos várias casas. Tivemos que reformar praticamente toda a operação industrial antes de retomar o crescimento", afirma França.

Histórico do faturamento da Medquímica (ano fiscal indiano):

A possibilidade de venda da Medquímica não é de agora

A possibilidade de venda da Medquímica não é nova. Segundo fontes do mercado, a controladora indiana Lupin já avaliava negociar a operação brasileira quando a companhia ainda enfrentava prejuízos e elevado endividamento em 2024, mas decidiram esperar mais um tempo para melhorar o valor de mercado.

O momento ideal para venda, segundo especulações do mercado, chegou neste ano, após o sucesso de um medicamento para diabetes que “curou” os anos de dívidas que a Medquímica acumulava.

Fábrica da Medquímica, em Juiz de Fora (MG): Hoje a companhia valere entre US$ 40 milhões e US$ 50 milhões, segundo fontes do mercado (Medquímica/Divulgação)

O medicamento que mudou a história da empresa

A virada veio em setembro do ano passado com o lançamento da dapagliflozina genérica, medicamento indicado para pacientes com diabetes tipo 2. Segundo França, a Medquímica conseguiu colocar o produto no mercado antes dos principais concorrentes, se tornando a primeira empresa a comercializar o genérico da molécula no país.

O executivo afirma que o medicamento de referência, o Forxiga, da AstraZeneca, movimentava cerca de R$ 1 bilhão por ano no mercado brasileiro e era vendido por aproximadamente R$ 200. A Medquímica lançou sua versão genérica por R$ 99, praticamente reduzindo o preço pela metade. Posteriormente, o medicamento também passou a integrar o programa Farmácia Popular.

Além de reduzir significativamente o preço em relação ao medicamento de referência, a estratégia ampliou rapidamente a participação da empresa no mercado.

"O lançamento da dapagliflozina genérica mudou completamente o patamar da Medquímica. Foi o principal responsável pela recuperação financeira da companhia", diz o CEO.

Hoje, a dapagliflozina e a empagliflozina representam os principais produtos do portfólio de cerca de 80 medicamentos da Medquímica, entre eles genéricos e similares para diabetes, hipertensão, colesterol e complexos de vitaminas.

Do total, cerca de 95% do portfólio da Medquímica é produzido no Brasil na fábrica de Juiz de Fora (MG), unidade industrial que conta com 470 funcionários.

“Temos apenas dois ou três medicamentos importados, enquanto outros dois são fabricados por parceiros nacionais”, afirma França.

Interesse do mercado aumenta

A recuperação financeira também mudou a percepção do mercado sobre a Medquímica. Segundo fontes ouvidas pela EXAME, diferentes farmacêuticas passaram a analisar a companhia nos últimos meses. Entre as empresas que estariam avaliando o ativo estão Biolab, Farlab e Natulab.

Questionado sobre o tema, França preferiu não comentar as especulações envolvendo uma eventual negociação, mas reforçou que o Brasil continua sendo estratégico para a farmacêutica indiana.

"O Brasil é o quinto maior mercado farmacêutico do mundo. A Lupin não quer sair do Brasil", afirma o CEO.

Segundo França, o país é hoje um dos principais mercados globais da companhia e continuará recebendo investimentos.

"O Brasil hoje, dentro da geografia da Lupin, não faz mais parte da América Latina. Ele cresceu tanto que faz parte dos mercados emergentes, junto da Europa. Tanto que o meu chefe fica na Suíça”, diz o CEO. "Hoje a Medquímica é maior que qualquer filial europeia da Lupin."

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Alexandre França, CEO da Medquímica: "A Lupin vai trabalhar para lançar versões genéricas das canetas quando houver viabilidade comercial" (Medquímica/Divulgação)

Os próximos desafios da Medquímica

Apesar da recuperação financeira, a Medquímica ainda tem desafios relevantes pela frente. Um dos principais é o avanço das chamadas canetas emagrecedoras, como os medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida.

Especialistas do mercado afirmam que a Lupin demorou para chegar neste mercado. “A companhia perdeu o time para entrar neste mercado, que compete com o seu medicamento contra diabetes”, diz fonte que não pode se identificar.

Ao mesmo tempo, a farmacêutica disputa espaço com outras gigantes do setor. O segmento de genéricos no Brasil é dominado por empresas nacionais de grande porte, como EMS, Eurofarma, Cimed, Neo Química e Aché, além de outras farmacêuticas que também vêm ampliando investimentos em medicamentos de maior complexidade e em categorias de alto valor agregado.

Veja também: De canetas emagrecedoras à marca própria para carnes: o investimento do Assaí no novo consumidor

O futuro da Medquímica e da Lupin

As multinacionais farmacêuticas, segundo França, têm encontrado mais dificuldades para competir no segmento de medicamentos genéricos de grande volume, mercado que hoje é dominado por empresas brasileiras. Por isso, a estratégia da Medquímica passa a concentrar esforços em medicamentos de maior valor agregado, como oncologia, oftalmologia e doenças respiratórias.

"Se você pega as dez maiores empresas de genéricos no Brasil, oito são brasileiras. Não é coincidência", afirma o executivo.

Do outro lado, enquanto a definição da venda da Medquímica não acontece, a controladora Lupin segue ampliando sua produção no Brasil e estudando novos lançamentos para o mercado nacional, incluindo medicamentos voltados ao tratamento do diabetes e da obesidade – entre eles as famosas canetas emagrecedoras.

"A Lupin vai trabalhar para lançar versões genéricas das canetas quando houver viabilidade comercial. A previsão é que isso aconteça em cerca de dois anos, mas dependerá do preço praticado pelo mercado", afirma o CEO.

Apesar do Brasil ser um mercado promissor, a Lupin prepara uma nova etapa de expansão na América Latina. A farmacêutica indiana também mantém operação na região no México, mas já iniciou conversas para entrar em Chile, Colômbia e Peru. Segundo França, a expectativa é que esses mercados passem a contar com operações da companhia nos próximos dois anos.  A empresa também avaliou uma parceria na Argentina, mas decidiu adiar os planos diante das incertezas econômicas no país.

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AutorLayane Serrano
FonteExame
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