De soldadores a engenheiros: Como a estreia da SpaceX na Bolsa criou uma onda de novos ricos

Antes de virar soldador na SpaceX, Juan Hernandez nunca tinha ouvido falar da empresa. "Era só mais um trabalho de contrato para mim na época", contou à CBS News. Mais de dez anos depois, aquela decisão arriscada está rendendo frutos depois do IPO de US$ 75 bilhões da companhia, no último dia 12 de junho.
Hernandez, que hoje trabalha na Blue Origin, rival espacial fundada por Jeff Bezos, soma cerca de 6.500 ações da SpaceX. No fechamento do pregão de estreiao papel valia US$ 160,95, o que avalia sua participação em mais de US$ 1 milhão.
Hernandez soube da vaga por um amigo que já trabalhava como soldador na empresa e achou que ele se encaixaria na função. Quando foi contratado, em 2015, a empresa ofereceu US$ 10 mil em ações como parte da remuneração. Na época, ele não deu muita importância ao benefício, já que os outros empregos que teve sempre pagaram apenas por hora. "Não foi grande coisa. Eu não sabia nada sobre aquilo na época. Não sabia que ia chegar a esse ponto", disse.
Uma legião de novos milionários
A história de Hernandez não é isolada. Segundo análise da plataforma de investimentos Hill.com, mais de 4 mil funcionários e ex-funcionários da SpaceX podem ter se tornado milionários com o IPO, e cerca de 400 deles devem acumular fortunas de US$ 100 milhões ou mais.
O fundador e CEO da Hill.com, Andrew Benson, destacou que esse tipo de concentração de riqueza costuma ficar restrita aos fundadores em aberturas de capital comuns. "É incomum ter 400 pessoas nesse patamar", disse, em referência aos centimilionários. "Isso mostra a magnitude da riqueza que está sendo criada aqui."
Entre os beneficiados estão engenheiros e outros profissionais de colarinho branco, mas também técnicos que constroem os foguetes da empresa, baristas e outros funcionários assalariados que atuam nos campi da SpaceX na Califórnia, no Texas e na Flórida. Parte deles guardou participações que valiam menos de US$ 2 por ação quando foram concedidas, em um momento em que a empresa ainda nem havia conseguido pousar um foguete com sucesso. Desdobramentos de ações ao longo dos anos ampliaram ainda mais essas posições, à medida que o valor da companhia disparava.
Histórias de quem apostou cedo
Outros ex-funcionários revelam a dimensão da transformação. J. André Lavoie, engenheiro que deixou a SpaceX em 2015 e hoje mora no norte da Itália, tem ações avaliadas em mais de US$ 28 milhões no preço de IPO. Ele usou parte da fortuna para comprar e reformar um hotel na cidade de Pontebba e já cogita ajudar a comunidade local a trocar o aquecimento a lenha por opções mais limpas. "Todo ano as ações sobem tão absurdamente que isso meio que bagunça meus planos de vida", contou.
Trevor Hise, que entrou na SpaceX em 2011 como estagiário, contra o conselho dos pais, que preferiam vê-lo em um emprego "estável" na General Electric, hoje possui mais de 100 mil ações da empresa. No preço do IPO, a posição vale pelo menos US$ 13,5 milhões. "A magnitude disso tem sido inacreditável", disse o ex-engenheiro de lançamentos, hoje semiaposentado.
Já Gavin Petit, que ingressou na empresa em 2012 como engenheiro responsável por lançamentos, recebeu as primeiras ações a US$ 13,80 cada, somadas a um salário de US$ 80 mil. Ao longo dos anos, optou por receber parte dos bônus também em ações, mesmo sabendo do risco: os foguetes da SpaceX ainda eram instáveis e às vezes explodiam. Hoje, soma mais de 50 mil ações, o suficiente para torná-lo milionário várias vezes.
Funcionários e outros detentores de participações geralmente não poderão vender suas ações pré-IPO por alguns meses, devido a períodos de bloqueio criados para evitar uma onda repentina de vendas no mercado. Ainda assim, a SpaceX tem mecanismos que podem permitir que alguns funcionários vendam pequenas quantidades já em julho.
Nem todos guardaram a fortuna
Nem todo mundo manteve as ações. Circulam relatos, segundo o New York Times, de ex-funcionários que teriam trocado suas participações por vales-presente de redes de restaurantes nos primeiros anos da empresa, quando o futuro da companhia ainda era incerto. Essas pessoas hoje vivem, segundo outros ex-colegas, consumidas pelo arrependimento.
Para Hernandez, porém, a recompensa por ter apostado na SpaceX vai além do dinheiro. Imigrante mexicano que aprendeu a soldar porque o salário era bom, ele diz manter os pés no chão mesmo após o evento que mudou sua vida financeira. Hoje, ensina os três filhos, incluindo uma filha de 16 anos que já tem participação em empresas como a Meta, a investir com base no que aprendeu como acionista da própria SpaceX. "Se eu tivesse a chance de falar com o Musk, agradeceria por ele ter tornado possível um sonho que eu nem sabia que tinha", disse Hernandez.
"Ele fez essa possibilidade existir para gente como a gente, para o cozinheiro, o eletricista. Ele está tornando a vida de muita gente melhor e mais significativa para suas famílias também."
