Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
23/09/2026
6 min

De startup a grupo global: empresa recebe R$ 200 milhões e vende passagem de ônibus até pelo ChatGPT

Nascida como Guichê Virtual, a Buson agora faz parte da Terra Mobility, grupo que recebeu financiamento para investir em software, inteligência artificial e novas aquisições

De startup a grupo global: empresa recebe R$ 200 milhões e vende passagem de ônibus até pelo ChatGPT
RESUMO +

A startup de passagens Buson passou a vender bilhetes pelo ChatGPT e WhatsApp e agora integra a Terra Mobility, grupo de tecnologia para transporte terrestre que recebeu US$ 40 milhões em financiamento. Os recursos serão destinados ao desenvolvimento de produtos, à inteligência artificial e a possíveis aquisições, com foco na oferta de tecnologia para viações.

Comprar uma passagem de ônibus pela internet já deixou de significar entrar apenas no site de uma viação ou de uma plataforma especializada. Muito menos pegar uma fila no guichê da rodoviária.

A Buson, startup de comercialização de passagens,  hoje distribui passagens também por canais como WhatsApp e já está vendendo até no ChatGPT. O objetivo é ampliar essa presença conforme a inteligência artificial muda a maneira como as pessoas pesquisam e compram viagens.

A empresa nasceu há cerca de 13 anos em São José dos Campos, no interior de São Paulo, com o nome de Guichê Virtual. Criada por três engenheiros ligados ao ITA, começou vendendo passagens rodoviárias pela internet e, anos depois, adotou a marca Buson.

Hoje, a operação brasileira faz parte de uma estrutura internacional que reúne empresas de diferentes países.

O novo passo é a criação da Terra Mobility, grupo com sede em Montreal, no Canadá, que reúne Buson, Busbud, Recorrido e uma operação de software para empresas de transporte. A companhia recebeu um financiamento de US$ 40 milhões, cerca de 200 milhões de reais, da Vista Credit Partners.

O dinheiro será usado para desenvolver produtos, ampliar o uso de inteligência artificial e avaliar novas aquisições.

“Hoje a gente consegue vender no ChatGPT, a gente vende hoje no WhatsApp”, diz Jefferson Inacio de Castro, diretor da Buson no Brasil. “A gente entende que o inventário, as rotas, as poltronas disponíveis, têm que estar em todo lugar possível.”

A aposta para os próximos anos, porém, vai além de colocar a passagem de ônibus em mais canais. O grupo quer crescer principalmente fornecendo tecnologia para as próprias empresas de transporte. A mudança acontece enquanto as viações investem mais nos próprios sites e aplicativos, movimento que pode reduzir o peso dos marketplaces tradicionais.

Qual é a história da Buson

A origem da Buson está em um problema comum para quem viajava de ônibus no começo da década passada: comprar umapassagem sem precisar ir até a rodoviária.

A solução criada pelos fundadores foi o Guichê Virtual, plataforma que conectava passageiros às empresas de ônibus. O negócio cresceu, mudou de marca e passou a operar como Buson.

Segundo Castro, a empresa já vendeu mais de 100 milhões de passagens ao longo de sua história. Hoje, recebe mais de 2 milhões de acessos mensais, trabalha com mais de 300 viações e oferece cerca de 140.000 rotas em sua plataforma.

O negócio também começou a funcionar como distribuidor de inventário. Na prática, isso significa que outros sites e agências podem usar a infraestrutura da companhia para acessar horários, rotas e assentos disponíveis das empresas de ônibus.

A internacionalização ganhou força depois da aproximação com a canadense Busbud. O grupo também reuniu empresas como a chilena Recorrido e negócios voltados a sistemas para operadores de transporte.

Agora, essas operações ficam sob o guarda-chuva da Terra Mobility.

Qual é a estratégia agora

Durante anos, o crescimento das plataformas de passagem veio da digitalização do consumidor. Agora, a própria evolução das viações cria um novo desafio.

Castro estima que cerca de 30% das passagens de ônibus no Brasil já sejam vendidas pela internet. O percentual varia conforme a região e o perfil do passageiro, mas a expectativa da empresa é que as vendas online ultrapassem as compras feitas pelos canais físicos. Ele não estabelece um prazo para que isso aconteça.

Ao mesmo tempo, as empresas de ônibus passaram a investir mais nos próprios aplicativos e sites.

“É de pouco tempo para cá que as empresas começaram a investir mais nos seus próprios canais de vendas”, afirma Castro. “A gente vê que marketplace vai perder um pouquinho de valor porque as empresas vão investir mais.”

É justamente aí que aparece uma das principais apostas da Terra Mobility.

Em vez de depender apenas da comissão sobre a venda de passagens ao consumidor, o grupo quer fornecer a infraestrutura usada pelas próprias viações para vender, controlar assentos, administrar preços e distribuir suas passagens em diferentes canais.

Essa frente será concentrada no TerraOS, plataforma voltada às empresas de transporte terrestre.

O sistema reúne funções como emissão de bilhetes, gestão de inventário, distribuição, comércio eletrônico, gestão de receita e previsão de demanda.

A proposta é substituir parte dos sistemas que foram construídos em uma época na qual a venda acontecia principalmente no guichê.

Castro diz que muitos desses softwares foram desenvolvidos originalmente para uma operação muito diferente da atual. Antes, o passageiro chegava ao terminal, escolhia o destino e recebia uma passagem impressa. Hoje, uma mesma viação precisa disponibilizar seus assentos simultaneamente no próprio site, em aplicativos, em marketplaces e em outros canais de distribuição.

Cada consulta feita por um consumidor exige uma resposta do sistema da empresa. “Muitos deles não foram preparados para atender a demanda online”, diz Castro.

Qual é o tamanho do negócio

Segundo a Terra Mobility, cerca de 300 empresas em mais de 15 países já utilizam suas soluções corporativas.

O financiamento da Vista Credit Partners será direcionado principalmente para três frentes.

A primeira é o desenvolvimento dos produtos voltados às empresas de transporte. A segunda é ampliar o uso de inteligência artificial dentro dessas ferramentas. A companhia também pretende continuar avaliando aquisições de negócios que possam ser incorporados à operação.

“O foco é no B2B. Esse é nosso desafio depois que a gente levantou esse dinheiro para impulsionar e acelerar esse processo”, diz Castro.

Na IA, a presença no ChatGPT faz parte de uma mudança maior na distribuição das passagens.

Para a empresa, não basta esperar que o passageiro abra o aplicativo da Buson quando decide viajar. O objetivo é tornar o inventário das viações acessível no canal em que a pesquisa começa.

Isso inclui sites de terceiros, agências, WhatsApp e ferramentas de inteligência artificial.

A estratégia ganha importância conforme consumidores passam a usar assistentes de IA para pesquisar destinos, comparar opções e organizar viagens.

No Brasil, a Buson pretende continuar com marca, equipe e estratégia próprias no relacionamento com o consumidor. A Terra Mobility passa a funcionar como a estrutura global, enquanto o TerraOS concentra a oferta de tecnologia para as empresas de transporte.

A aposta é que, conforme a passagem de ônibus se espalha por mais canais, o ativo mais importante deixe de ser apenas o site em que a compra termina. Pode ser a tecnologia que garante que aquela mesma poltrona apareça, ao mesmo tempo, no site da viação, em um marketplace, no WhatsApp — ou em uma conversa com uma inteligência artificial.

 

AutorDaniel Giussani
FonteExame
Distribuído por