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24/09/2026
5 min

De uma faculdade no Tocantins à Nasdaq: dois médicos criaram um negócio de R$ 3,7 bilhões

Fundada por Nicolau e Rosangela Esteves, Afya fez do ensino de medicina seu motor de expansão e agora combina seus negócios com a Yduqs, dona da Estácio

De uma faculdade no Tocantins à Nasdaq: dois médicos criaram um negócio de R$ 3,7 bilhões
RESUMO +

A empresa de educação médica Afya, criada pelos médicos Nicolau e Rosangela Esteves no Tocantins no fim dos anos 1990, acertou a combinação de seus negócios com o grupo de educação Yduqs. Listada na Nasdaq desde 2019, a Afya encerrou 2025 com receita de R$ 3,7 bilhões. O acordo ainda depende do Cade.

Entre Araguaína, no Tocantins, e a Nasdaq, em Nova York, há mais de 6.000 quilômetros — e uma história de negócios que começou com dois médicos e uma faculdade.

Nicolau e Rosangela Esteves criaram a instituição que daria origem à Afya no fim dos anos 1990. Duas décadas depois, estavam na Times Square para acompanhar a abertura de capital da companhia nos Estados Unidos. No caminho, a empresa comprou faculdades, concentrou sua expansão no ensino de medicina e ganhou um sócio alemão.

Agora, a Afya se prepara para outra mudança de tamanho. A companhia chegou a um acordo para combinar seus negócios com a Yduqs, grupo de educação que reúne Estácio, Wyden e Ibmec e concentra os cursos de medicina no Idomed. Pelos termos acertados, os atuais acionistas da Afya ficarão com 69% da companhia combinada e os da Yduqs, com 31%.

A operação ajuda a explicar por que vale voltar ao Tocantins. A Afya encerrou 2025 com R$ 3,7 bilhões em receita. A Yduqs faturou outros R$ 5,5 bilhões. Somadas, as duas chegaram a 9,2 bilhões de reais.

O próximo capítulo ainda terá de passar pelo Cade. Medicina deve ser um dos pontos de atenção: juntas, Afya e Yduqs somariam cerca de 18% das vagas autorizadas do curso no país, participação que pode ser maior quando a análise é feita cidade por cidade.

Antes de chegar a essa discussão, porém, é preciso voltar a Araguaína, em 1999, quando a Nasdaq ainda estava muito longe do roteiro.

Como a Afya foi criada

A história começa com Nicolau e Rosangela Esteves, ambos médicos. A primeira faculdade do grupo começou a operar em Araguaína e deu origem à companhia que seria conhecida como NRE Educacional.

A aposta em medicina se tornaria decisiva. A NRE cresceu como um grupo de faculdades voltado à formação médica. A Afya, com a marca atual, surgiu posteriormente da união da NRE com a MEDCEL, especializada em cursos preparatórios para provas de residência médica.

A combinação ampliou o mercado da companhia. Além da graduação, a Afya passou a oferecer produtos para diferentes momentos da carreira dos médicos, como preparação para residência, pós-graduação e plataformas digitais voltadas à prática profissional.

De Araguaína para a Times Square

O salto mais simbólico aconteceu em 19 de julho de 2019, quando a Afya fez o seu IPO na Nasdaq.

Foi a primeira empresa brasileira a abrir o capital naquela bolsa em 2019 e, segundo a companhia, a primeira especializada em educação médica no mundo a negociar ações na Nasdaq.

“Optamos pela Nasdaq para nos aproximarmos de empresas com dinâmicas de negócio similares à nossa, focadas em educação, saúde e tecnologia”, afirma Virgilio Gibbon, CEO da Afya.

A abertura de capital também acompanhou a aceleração de uma estratégia que se tornaria central para a empresa: comprar faculdades de medicina.

R$ 3,2 bilhões em aquisições

Nos três anos seguintes ao IPO, a Afya investiu 3,2 bilhões de reais na compra de dez faculdades de medicina, que acrescentaram cerca de 1.500 vagas anuais ao grupo.

Só em uma operação, em outubro de 2022, foram 825 milhões de reais por duas faculdades com 340 vagas anuais. Naquele momento, a companhia tinha cerca de 3.000 vagas por ano e 18.100 alunos de graduação.

A escolha por medicina também ajudou a diferenciar o negócio. Enquanto graduações de outras áreas enfrentavam evasão e os efeitos da expansão do ensino a distância, o curso de medicina mantinha mensalidades mais altas.

A entrada da Bertelsmann

A expansão também trouxe uma mudança no quadro de acionistas.

A alemã Bertelsmann começou a investir na Afya em 2014 por meio de um fundo de private equity.

Em 2022, o grupo alemão assumiu o controle da companhia. Hoje, segundo as informações apresentadas sobre a combinação com a Yduqs, a Bertelsmann detém cerca de 65% das ações da Afya.

Mesmo com a mudança de controle, medicina permaneceu no centro da expansão e é justamente essa especialização que agora aproxima as duas companhias.

O fundador Nicolau Esteves segue na companhia como presidente do conselho de administração da Afya.

O próximo capítulo

O acordo com a Yduqs prevê troca de ações e a distribuição de 750 milhões de reais em dividendos aos acionistas da Yduqs.

Os negócios chegam à combinação por caminhos diferentes. A Afya concentrou sua expansão na formação médica e em serviços para médicos. A Yduqs tem atuação mais diversificada, com Estácio, Wyden e Ibmec, além do Idomed.

Medicina, porém, também representa um teste regulatório para a operação. As duas companhias somariam cerca de 18% das vagas autorizadas do curso no Brasil, com concentração potencialmente maior em algumas cidades.

Quase três décadas depois da primeira faculdade em Araguaína, a empresa criada por Nicolau e Rosangela Esteves chega a outro ponto de virada.

A Afya saiu do Tocantins, chegou à Nasdaq e transformou medicina no centro de um negócio bilionário. Agora, a mesma especialização que impulsionou seu crescimento estará no centro da análise que pode definir o próximo capítulo da companhia.

AutorIsabela Rovaroto
FonteExame
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