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Sacre Investimentos
Revista ExameBDR
25/06/2026
17 min

De volta ao topo: como o Google virou o jogo na corrida da IA

De volta ao topo: como o Google virou o jogo na corrida da IA

Janeiro de 2018. No auge da era do smartphone: o iPhone chega à sua décima edição e parecia o teto do que a tecnologia podia pôr na palma da mão.

Foi nesse espírito do tempo que Sundar Pichai, o mais discreto dos líderes do Vale do Silício, subiu ao palco do Fórum Econômico Mundial, em Davos, com uma aposta que destoava da plateia de banqueiros e chefes de Estado.

A inteligência artificial, disse o CEO do Google, era provavelmente a coisa mais importante em que a humanidade já havia trabalhado, mais profunda até do que o fogo ou a eletricidade.

Para a sala, soava como exagero típico de executivo de tecnologia, e havia motivo: fora dos laboratórios, não existia ainda um único modelo de linguagem como o ChatGPT, o Claude ou o Gemini, que hoje povoam o cotidiano de centenas de milhões de pessoas.

Enquanto o mundo mantinha os olhos no aparelho que segurava, Pichai apontava para uma revolução que quase ninguém via chegar. E que colocava seu próprio negócio, sustentado por buscas e publicidade, em risco.

Sundar Pichai: sob seu comando, a Alphabet saltou de 750 bilhões de dólares para 4,6 trilhões em valor de mercado (Karl Mondon/AFP/Getty Images)

Oito anos depois, o Google e sua controladora, a Alphabet, valem 4,6 trilhões de dólares (quase sete vezes mais que em 2018). São protagonistas indiscutíveis num mundo que se transforma em velocidade alucinante justamente graças à inteligência artificial. A previsão, portanto, foi certeira.

Mas o caminho entre o palco de Davos e essa consagração não foi reto: o gigante das buscas tropeçou, viu a concorrência assumir a dianteira e precisou de uma reviravolta para voltar ao topo. Hoje, Pichai não recua um milímetro.

“A inteligência artificial é a tecnologia mais profunda na qual a humanidade jamais trabalhará”, diz à EXAME, em uma rara e exclusiva entrevista concedida em junho, dias depois de oGoogle inaugurar seu segundo centro de engenharia no Brasil, em São Paulo, um sinal do tamanho da aposta que o gigante faz no país e na própria IA.

Pichai é, ele próprio, produto das possibilidades abertas com a tecnologia. Nasceu em 1972 no sul da Índia e cresceu em Chennai, num apartamento apertado onde dividia com o irmão um espaço para dormir na sala.

O pai era engenheiro eletricista e a mãe, estenógrafa. Não existia carro em casa, mas havia um menino com memória fora do comum para números de telefone. Formou-se em metalurgia no Instituto Indiano de Tecnologia de Kharagpur, com medalha de prata, ganhou bolsa para Stanford, fez um MBA em Wharton e depois teve uma passagem curta pela consultoria McKinsey.

Entrou no Google em 2004 e recebeu a missão de coordenar um produto sem glamour: a barra de ferramentas, conhecida por deixar computadores mais lentos, e que levava o buscador para dentro dos navegadores rivais.

Foi dela que tirou o argumento para convencer a empresa acriar o Chrome e enfrentar a Microsoft, lançado em 2008 e hoje o navegador mais usado do mundo. Sob seu comando vieram também Android, Drive e Maps, e com eles a reputação de ser um operador político de paciência rara, que ascendeu sem fazer inimigos.

Virou braço-direito de Larry Page, o fundador do Google. Mais tarde, em 2015, tornou-se CEO e, em 2019, herdou de Page o comando de toda a Alphabet.

Sam Altman, CEO da OpenAI: foi ele quem tirou o Google da zona de conforto e hoje corre atrás do próprio rival (Yoshikazu Tsuno/Gamma-Rapho/Getty Images)

Sebastian Mallaby, jornalista e escritor, retrata Pichai como um gestor de sorriso fácil e aversão a confronto. O tipo de sujeito que os interlocutores jamais imaginariam que arriscaria a empresa numa tecnologia ainda marginal.

Mas Pichai teve grandes disputas para incluir a IA no que para ele sempre será o centro do Google: a busca, o negócio que responde por quase todo o lucro da empresa. Entre 2016 e 2018, Pichai travou uma guerra silenciosa para impedir que a DeepMind, o laboratório que o Google comprou em Londres, se tornasse independente dentro da Alphabet.

Demis Hassabis, hoje Nobel de Química por seu trabalho com inteligência artificial dentro do DeepMind, queria autonomia para perseguir a inteligência artificial geral, o sistema capaz de igualar ou superar o ser humano em praticamente qualquer tarefa intelectual. Pichai defendia a ideia de que a IA não era um moonshot qualquer, e sim o futuro para ser inserido nos produtos que já pagavam as contas.

Demis Hassabis, CEO do Google DeepMind: o cientista que virou Nobel e cujo trabalho deu ao Google a arma que faltava — o Gemini (Andrej Sokolow/Getty Images)

Sua visão foi posta à prova em novembro de 2022, quando a OpenAI lançou o ChatGPT. Em dois meses, a ferramenta de IA que conversava como uma pessoa chegou a 100 milhões de usuários, o crescimento mais rápido de um produto de consumo na história. Pichai declarou internamente um “código vermelho”.

A ameaça vinha embrulhada num paradoxo cruel: a arquitetura por trás do ChatGPT, o Transformer, saíra do próprio Google, num artigo de 2017. E não era a única faca no pescoço da companhia: a fabricante de chips Nvidia disparou na bolsa, justamente por fornecer infraestrutura para todo o setor de IA. Com tudo isso, em agosto de 2024, um juiz federal americano decidiu que o Google mantinha um monopólio ilegal em buscas.

A empresa se safou de vender parte dos ativos justamente pelo avanço de novos concorrentes, como o ChatGPT: uma prova de que seu mercado já estava sendo sacudido. O risco, evidentemente, era de que as mudanças deixassem a dominância do Google para trás. A IA, maior aposta de Pichai, estava impulsionando a concorrência.

A reação começou de forma desastrosa. Pressionado a responder, Sundar Pichai apressou o lançamento do chatbot Bard, que cometeu um erro na própria demonstração pública no dia 6 de fevereiro de 2023.

Virou piada nas redes e derrubou 9% do valor de mercado da Alphabet em um único pregão. Mas o vexame foi o empurrão que faltava para Pichai impor a reorganização que vinha adiando, a fusão dos dois laboratórios de IA da casa, o Google Brain e a DeepMind, até então rivais internos.

Em vez de despejar no mercado mais uma resposta improvisada, a empresa parou para construir um alicerce comum. O gigante saiu em busca da posição perdida. A partir das primeiras entregas do recém-criado Google Deep-Mind, liderado por Demis Hassabis e encarregado de unificar pesquisa, computação e marketing em torno de um único modelo, nasceu o Gemini, nome escolhido por Jeff Dean em referência à junção dos laboratórios do Google e do Deep-Mind.

Para reforçar o time, o Google ainda foi às compras: licenciou a tecnologia e atraiu de volta os fundadores da Character.AI por cerca de 2,7 bilhões de dólares em 2024 e, no ano seguinte, anunciou a aquisição da Wiz, de segurança em nuvem e IA, por 32 bilhões de dólares, a maior de sua história.

Poder de integração

O que separa o Google da concorrência nesta nova fase é o controle de toda a cadeia, do chip à tela do usuário: a empresa projeta os próprios processadores de IA, os TPUs, treina neles os modelos da família Gemini e distribui o resultado por dentro de produtos que já estão na mão de bilhões de pessoas, da Busca ao YouTube.

Os chips deixaram até de ser de uso exclusivo da casa: num único contrato, o Google fechou o fornecimento de 1 milhão de TPUs para a Anthropic, dona do Claude, num negócio avaliado em dezenas de bilhões de dólares.

A gestora Deepwater tem classificado a empresa “na posição mais forte” quando o assunto é ter uma IA totalmente integrada, e indica como a ação de melhor desempenho entre os gigantes de tecnologia em 2026.

O motivo é que o Google não precisa convencer ninguém a baixar um novo aplicativo; basta ligar o Gemini dentro do que o usuário já abre todos os dias. Ben Thompson, do influente boletim Stratechery, credita a virada à capacidade rara da empresa de integrar tudo “do silício ao modelo”, vantagem que se torna decisiva à medida que o poder de computação vira o gargalo da indústria.

“A Alphabet é uma das poucas empresas que, para além de Search e publicidade, têm a cadeia de IA completa: a infraestrutura, via Cloud, os chips que a municiam, os TPUs, e um modelo entre os melhores, o Gemini”, afirma Henrique Vasconcellos, analista da Nord Research. “Todos esses segmentos crescem bem e seguem expandindo os lucros.”

No fim de 2025, a Alphabet superou 400 bilhões de dólares de receita anual pela primeira vez, e Pichai apresentou o Gemini 3 como um “grande marco”.

No primeiro trimestre de 2026, vieram as provas: a Busca, agora impulsionada por IA, cresceu 19% em receita, com consultas em máxima histórica; o Google Cloud avançou 63%, com uma carteira de contratos futuros acima de 460 bilhões de dólares; as assinaturas pagas chegaram a 350 milhões; o lucro líquido saltou 81%.

O Gemini, que Pichai um dia teve de lançar às pressas para não sumir do mapa, alcançou 900 milhões de usuários mensais, com o Brasil entre os três países que mais o utilizam. E, num gesto que só uma empresa convencida da própria virada faria, a Alphabet anunciou em junho de 2026 uma captação de 84,75 bilhões de dólares para bancar infraestrutura de IA, rodada que incluiu 10 bilhões da Berkshire Hathaway, de Warren Buffett.

No fim de 2025, coube aSam Altman, o homem do ChatGPT, declarar seu próprio “código vermelho”. Por causa do Google.

Jenny Blackburn, vice-presidente de UX do Gemini: para ela, os agentes de IA ampliam o que as pessoas conseguem fazer com o tempo que têm, em vez de substituí-las (Emmanuel Dunand/AFP/Getty Images)

O Google do Brasil

Se a virada foi possível, foi porque o Google conhece como ninguém quem usa a internet. Décadas de Busca, Gmail, Maps e YouTube lhe deram um retrato vivo do que bilhões de pessoas procuram, assistem e escrevem — e a capacidade de testar e espalhar novidades quase no mesmo dia.

O Brasil é talvez a melhor janela para ver essa estratégia funcionando: um mercado em que a empresa está há mais de 20 anos, aprende rápido e devolve ao mundo o que descobre por aqui.

A história começou, como as das boas do setor, numa sala pequena. Em 2005, em Belo Horizonte,12 engenheiros passaram a trabalhar para uma empresa americana cujo nome boa parte dos brasileiros ainda nem sabia pronunciar.

Vinham da compra da Akwan Information Technologies, startup de buscas criada por professores e alunos da Universidade Federal de Minas Gerais. Foi a primeira aquisição do Google na América Latina, e o grupo ficou conhecido internamente como Google Zero.

Os engenheiros brasileiros ajudaram a moldar o algoritmo de ranqueamento da busca, ferramentas de acessibilidade adotadas no mundo todo e os sistemas antirroubo de celular do Android, concebidos e testados primeiro nas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde o problema é agudo, antes de escalar para Londres e Índia.

Fábio Coelho, presidente do Google Brasil e VP da Google Inc.: executivo lidera a operação brasileira da empresa há mais de uma década (Marcus Steinmeyer/Google/Divulgação)

O Brasil virou laboratório de soluções que o planeta adotaria depois, e é essa a credencial que Fábio Coelho, presidente do Google Brasil, usa para explicar por que o país pesa mais do que seu PIB sugeriria.

“O Brasil tem uma combinação única: um escritório de engenharia com caso de sucesso já estabelecido, que produz tecnologia do Brasil para o mundo, associado a um mercado de volume grande de produção e de negócios”, diz.

Ele cita o recurso que bloqueia o aparelho assim que alguém o arranca da mão do usuário: nasceu de uma parceria entre as engenharias local e global para resolver um problema brasileiríssimo e, depois de aprovado aqui, escalou para outros mercados. Para Coelho, porém, o trunfo brasileiro não está só no passado.

“Os tipos de problemas que resolvemos aqui têm a ver com uma economia criativa forte, com a necessidade de trabalhar a segurança cibernética, com um setor agrícola que pode se beneficiar da IA e com uma matriz energética limpa”, diz. “São condições que permitem ao Brasil ser não apenas um excelente consumidor de tecnologia, mas também um produtor de tecnologia de alta qualidade, que funciona para mercados parecidos com o nosso e pode ser global.”

Em 2024, segundo a consultoria Access Partnership, o Google movimentou 215 bilhões de reais na economia brasileira.

Ocapítulo mais recente dessa história foi escrito em 27 de maio de 2026, quando o Google inaugurou seu segundo centro de engenharia no país, dentro do campus da Universidade de São Paulo.

O endereço carrega simbolismo: o Edifício Adriano Marchini, construção dos anos 1940 que por décadas abrigou a administração do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, foi reconvertido para hospedar uma área aberta ao público e um elo entre o Google for Startups e os pesquisadores da USP, da Poli e do IPT.

“Nossos 20 anos no Brasil nos deram a maturidade e a confiança institucional para expandir”, afirma Alex Freire, diretor sênior de engenharia de software do Google e um dos responsáveis pela operação.

Os dois centros, o paulista e o mineiro, que ganhou um andar novo em agosto de 2025, operam de forma integrada, da engenharia de software à cibersegurança, do design de produto aos modelos de linguagem.

O Google Cloud comprometeu-se a capacitar 3 milhões de brasileiros em IA até o fim de 2026 e, em parceria com o Sebrae, a treinar 1 milhão de pequenas e médias empresas. Em quase uma década, o Google for Startups acelerou mais de 470 companhias brasileiras, que juntas geraram mais de 48.000 empregos.

Pichai repete o voto de confiança no país. “O Brasil é uma casa extraordinária para nós e tem nos ensinado muito”, diz. “Aprendemos muito observando como os brasileiros usam a voz como principal forma de interagir com a informação.”

É um detalhe que resume a tese da casa: o comportamento de um mercado de fronteira como o brasileiro, que pulou etapas e adotou a voz e o vídeo como forma de buscar antes de muitos países ricos, vira matéria-prima para o produto que o Google quer vender ao mundo. A leitura de quem acompanha a companhia de fora é que a aposta brasileira só faz sentido porque se encaixa numa engrenagem maior.

O risco que mora em casa

O sucesso recente, na visão de especialistas ouvidos pela reportagem, não dissipa um desafio de longo prazo. Num mundo em que as pessoas buscam de forma diferente porque a IA já entrega a resposta de pronto, o que acontece com um modelo de negócios erguido sobre cliques?

O AI Overviews, o resumo gerado por inteligência artificial que abre a página de busca do Google, já tem 2,5 bilhões de usuários por mês. Cada resposta entregue sem clique é uma visita a menos no site de um produtor de conteúdo e uma impressão a menos num anúncio.

A pergunta, para quem constrói o produto, é desconfortável: como agradar o usuário que quer respostas cada vez mais diretas e manter a receita até aqui gerada por infindáveis cliques?

Centro de Engenharia do Google: o Edifício Adriano Marchini (SP) foi reformado pelo Google e agora abriga o segundo centro de engenharia da empresa no Brasil (Mark Wickens/Google/Divulgação)

Pichai responde que a saída não é escolher um caminho, mas entregar os dois. “As pessoas querem encontrar informação com facilidade e resolver as coisas rápido”, diz. “Mas também querem acesso à amplitude da web, a partir de fontes confiáveis: veículos de imprensa, fóruns, YouTube, podcasts. Estou focado em garantir que atendamos a ambas as necessidades.”

Os números, porém, sugerem que uma dissolução do modelo já começou. Um estudo do Pew Research Center, que acompanhou a navegação real de 900 americanos em março de 2025, constatou que, quando o resumo de IA aparece, o usuário clica em algum link tradicional apenas 8% das vezes — ante 15% quando não há resumo.

Só 1% clica nas fontes citadas dentro do próprio resumo. A Similarweb calcula que as buscas terminadas sem nenhum clique saltaram de 56% para 69% em um ano. A consultoria Gartner projeta queda de 25% no volume de buscas tradicionais até o fim de 2026. Já a Bain estima que o tráfego orgânico da web encolheu entre 15% e 25% em vários setores.

O Google contesta a metodologia desses estudos e diz que os cliques que restam são de “maior qualidade”.

Para o futuro, a aposta do Google é nos agentes, programas de IA que não se limitam a responder, mas executam tarefas em nome do usuário: pesquisam, comparam preços, preenchem formulários, marcam consultas, compram.

Em vez de devolver uma lista de links, o software faz o trabalho. Um agente que resolve tudo sozinho pode esvaziar ainda mais os cliques que sustentam a publicidade, mas também abre uma fonte nova de receita, ao cobrar pelo serviço, por assinatura, por uso ou por comissão sobre o que compra.

“O poderoso nessa tecnologia é que você pede algo e segue em frente enquanto aquilo é feito, mas é igualmente importante que o agente volte e confirme com você”, diz Jenny Blackburn, vice-presidente de UX do Gemini. “Não prevejo um futuro em que as pessoas sejam excluídas. O que muda é que elas conseguem fazer muito mais com o tempo que têm.”

Centro de engenharia do Google, em Belo Horizonte: nascido da compra da Akwan em 2005, ajudou a moldar desde o algoritmo de busca até os sistemas antirroubo do Android (Gabriel Castro/Google/Divulgação)

Os concorrentes, claro, contra-atacam. A OpenAI, dona do ChatGPT, lançou seu próprio buscador e ataca o coração do negócio do Google. A Anthropic, criadora do Claude, avança no mercado corporativo, no qual as empresas pagam caro por uma IA confiável para automatizar tarefas.

A Nvidia, que fornece os chips usados por quase todo o setor, virou ela mesma uma plataforma de IA e lucra com cada modelo treinado, seja de quem for.

E a SpaceX, de Elon Musk, espalha uma rede de satélites de internet que pode, no futuro, redesenhar por quais canos, e sob o controle de quem, os dados das pessoas vão trafegar.

Pichai vê o lado positivo. “Nos próximos cinco anos, espero que a IA vá além dos laboratórios e dos early adopters, incorporando-se à vida das pessoas, liberando tempo para os médicos atenderem com mais calma os pacientes e ajudando os pais a terem mais momentos de qualidade com os filhos”, diz.

A frase soa genérica, mas embute uma mudança de modelo de negócios. Se a IA passa a executar tarefas, agendar a consulta, redigir o relatório, planejar a viagem, o valor migra do anúncio que aparece ao lado da resposta para o serviço que entrega o resultado.

É a aposta de que o Google deixe de ser, aos poucos, a empresa para a qual o usuário olha e passe a ser a que trabalha por ele, cobrando assinatura ou comissão.

Num artigo científico de 2007, muito antes de o Google comprar sua empresa, Demis Hassabisdescreveu pacientes com lesões no hipocampo, a região do cérebro ligada à memória: eram incapazes não apenas de lembrar o passado, mas de imaginar o futuro. Memória e imaginação, concluiu o então neurocientista, usam o mesmo mecanismo — sem uma não existe a outra.

O Google passou 25 anos acumulando a memória do mundo, cada busca, cada rota, cada vídeo, e a converteu em produtos que as pessoas não sabiam que queriam até não conseguirem mais viver sem eles.

Foi assim com o Maps, com o YouTube, com o Android. A aposta de Pichai, agora, é que a empresa que melhor lembra o passado é a que melhor imagina o futuro.

AutorAndré Lopes
FonteExame
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