De VP da IBM a conselheira: ‘Me considero uma diversidade dentro da diversidade’, diz executiva
Ana Zamper fez o ABP-W ainda na multinacional e hoje ocupa cadeiras nos conselhos da Espaçolaser e da Rodonaves

Nos últimos dois anos, Ana Zamper participou de processos seletivos para conselhos de administração. Em vários deles, chegou à mesa justamente pela experiência em tecnologia e inovação. Bastavam alguns minutos, porém, para a conversa voltar ao terreno conhecido: ROI, endividamento, indicadores financeiros e questões legais.
O relato, publicado por ela no LinkedIn, resume o ambiente que encontrou ao trocar a vida executiva pelos conselhos.
“Eu mesma me considero uma diversidade dentro da diversidade: sou mulher, com trajetória em tecnologia, entrando em um ambiente historicamente dominado por homens com formação em finanças e direito”, diz.
Ex-vice-presidente para a América Latina da IBM, Ana é hoje conselheira de administração da Espaçolaser e da Rodonaves e integra o conselho consultivo da GAM, além de dirigir o Programa de Inteligência Artificial para Executivos da Exame | Saint Paul. Segundo ela, o caminho até essas cadeiras começou anos antes, ainda dentro da multinacional, e não teve nada de automático.
Um novo ciclo depois de três décadas
Ana passou mais de 30 anos em multinacionais de tecnologia, em vendas, marketing, sistemas e operações. Tem MBAs pela Kellogg, nos Estados Unidos, e pela Fundação Dom Cabral.
“Depois de mais de 30 anos na IBM, senti que era hora de experimentar novos caminhos, com mais autonomia e liberdade de escolha. Não foi uma decisão contra a vida corporativa, mas a favor de um novo ciclo”, afirma.
Em 2023, ela fundou a by AZ para conectar experiências, ideias e pessoas por meio da inovação. Também criou o matchUP, serviço que aproxima empreendedores, profissionais e empresas de universos diferentes.
A lógica, segundo ela, é que quem está muito próximo de um setor tende a enxergar as mesmas soluções, e quem vem de fora traz outras perspectivas. “Nem toda conexão vira negócio, mas algumas abrem possibilidades que ninguém havia considerado”, diz.
A preparação começou antes da saída
Em 2017 e 2018, ainda executiva da IBM, Ana cursou o ABP-W, Advanced Boardroom Program for Women. O programa da Saint Paul é voltado a executivas C-level, diretoras e herdeiras que querem ocupar assentos em conselhos ou ter uma relação mais estratégica com o conselho de suas empresas.
“Mesmo estando em uma posição consolidada na IBM, queria ampliar meus horizontes, conhecer outras realidades e me preparar para novas possibilidades”, conta. Segundo ela, o programa trouxe uma formação sólida em governança, mas também trouxe, principalmente, a convivência com profissionais que ela leva até hoje para a vida pessoal e profissional.
Ela faz uma ressalva. “Não foi um passaporte automático para os conselhos, mas ampliou minha visão e contribuiu para as escolhas que fiz anos depois”, fala. A trajetória executiva abriu portas, diz, mas não garantiu uma cadeira —- foi preciso investir em formação, ampliar conexões e construir credibilidade num ambiente novo. Na avaliação dela, as mulheres ainda enfrentam barreiras adicionais nesse caminho.
O ‘estágio’ de conselheira
A primeira experiência prática veio na formação e estruturação do conselho da SAS Brasil, organização social que leva atendimento de saúde a quem não tem acesso. “Costumo dizer que foi meu estágio como conselheira”, relembra.
Ana Paula Zamper, conselheira da Espaçolaser e da Rodonaves e ex-VP da IBM para a América Latina
Ali, ela aplicou os conceitos de governança vistos no ABP-W e percebeu que a dinâmica de um conselho vai além da teoria.
Conselhos sem clones
Ser a pessoa de fora em salas dominadas por outras formações moldou a principal defesa de Ana. “Conselhos não precisam de clones, mas de diversidade real de pensamento”, diz. Para ela, experiências e perspectivas diferentes enriquecem as decisões e ajudam as empresas a enfrentar desafios como transformação digital, inteligência artificial e governança.
Na avaliação dela, os conselhos brasileiros ainda estão nos primeiros estágios de uma diversidade efetiva, de gênero e cognitiva. O mercado avançou na formação de mulheres qualificadas, mas a abertura de espaço acontece num ritmo bem mais lento. “O desafio não é apenas ter mais mulheres à mesa, mas garantir que suas vozes influenciem as decisões.”
Aprender sem prazo de validade
Hoje Ana está à frente de um programa na mesma escola em que estudou. Ela diz que conhecer os bastidores aumentou o valor que dá ao esforço da escola e dos professores para oferecer conteúdo relevante e atualizado. A passagem de aluna a diretora também reforçou uma convicção antiga. “Aprender não é uma etapa da carreira, é um compromisso permanente. Especialmente num mundo em que o conhecimento envelhece cada vez mais rápido”, diz.
Para as mulheres que chegam aos conselhos, ela vê uma responsabilidade a mais: estar muito bem preparadas, entregar valor e construir referências que abram caminho para outras. “Não basta conquistar uma cadeira. É preciso fazer diferença nela e ajudar a ampliar o espaço para quem vem depois”, finaliza.
