Debêntures vs. ações: uma mesma empresa, duas formas de investir — qual a melhor?

Há muitas formas de se investir em uma empresa hoje, entre elas as debêntures e as ações. De um lado, estão as debêntures, títulos de renda fixa. Do outro, as ações, investimentos de renda variável. Não quer dizer que um é melhor que o outro, mas inúmeros fatores influenciam a tomada de decisão de quem quer apostar em uma companhia para multiplicar patrimônio.
“Ao comprar uma ação, o investidor se torna sócio da companhia e passa a participar de seu crescimento. Já ao investir em uma debênture, o investidor se torna credor da empresa”, explica Isabel Abreu, economista e planejadora financeira.
Debênture é uma dívida emitida por uma empresa para financiar projetos, expandir operações ou reestruturar dívidas. Nesse caso, o investidor empresta dinheiro para a companhia, por um valor contratado — por exemplo, IPCA + X% — e recebe posteriormente o valor investido acrescido da remuneração prevista, dentro de determinado prazo.
Já as comprar uma ação, o investidor está adquirindo parte do negócio, passando a participar de seus resultados e também dos riscos. Neste caso, não há uma data previamente estabelecida para encessar o investimento.
“Escolho ação quando acredito no crescimento da empresa e aceito a volatilidade do caminho. Escolho debênture quando o objetivo é previsibilidade de fluxo de caixa, abrindo mão do potencial de valorização ilimitada”, diz João Debom, sócio da Alude Capital.
Retorno conhecido versus maior elevação do patrimônio
Antes de tudo, vale lembrar que o potencial de ganho é diferente.
Nas ações, não há um limite pré-estabelecido para a valorização: se a empresa crescer, ampliar os lucros e fortalecer sua posição no mercado, os papéis podem acumular uma alta significativa ao longo do tempo. Além disso, o investidor pode ser remunerado por meio de dividendos e outros proventos, desde que a distribuição seja aprovada pela companhia.
Nas debêntures, mesmo que a empresa apresente resultados muito superiores aos esperados, o investidor receberá apenas a remuneração estabelecida nas condições do título, desde que a companhia cumpra suas obrigações.
Entretanto, nas ações, não existe garantia de retorno mínimo. “Se o negócio enfrentar dificuldades ou perder valor de mercado, a ação pode sofrer uma desvalorização significativa”, ilustra Abreu. Além disso, as ações estão sujeitas a volatilidade do mercado, que pode forçar venda na baixa.
“No longo prazo, ações tendem a superar a renda fixa, mas isso varia por ciclo e não é garantido em qualquer janela específica”, comenta Debom.
Quando observado os últimos 12 meses, o Ibovespa, índice que reúne as principais ações listadas em bolsa, valorizou 30,56%. Enquanto isso, o IDA-Geral, que reúne todas as debêntures elegíveis na carteira Anbima subiu 11,23%. Já o IDA-DI, indicador que representa as debêntures indexadas ao CDI, ganhou 14,93%. Os dados são da Elos Ayta Consultoria.

Em um cenário de queda da Selic, qual é mais vantajosa?
Quando a Selic está elevada, ativos indexados ao CDI ganham vantagem. Ao mesmo tempo em que há uma migração de recursos da bolsa para a renda fixa, prejudicando as ações. Atualmente, a Selic está em 14,25%, patamares considerados elevados. Entretanto, há expectativa para um corte de 0,25 ponto percentual (p.p.) em agosto.
Neste cenário, as ações tendem a ser beneficiadas por um ciclo de redução dos juros. Juros mais baixos tendem a baratear o custo de captação das empresas, incentivar o consumo e tornar a bolsa mais atrativa em relação à renda fixa. Com parte dos investidores buscando retornos mais elevados, a demanda por ações pode aumentar, favorecendo a valorização dos papéis ao longo do tempo.
Em contrapartida, ao travar as taxas das debêntures em níveis altos, caso os juros caiam, os papéis se valorizam devido à marcação ao mercado e caso o investidor queira vender o título antes. “O risco é que a redução dos juros demore mais do que o esperado ou que questões fiscais e econômicas elevem a incerteza”, pontua Abreu.
E se a empresa falir, quem sai mais prejudicado?
Em ambos os casos o investidor está apostando numa empresa, sendo credor ou acionista. Com isso, ele está sujeito aos riscos da empresa falir ou entrar em recuperação judicial. Mas há diferenças entre ser investidor de uma debênture e de uma ação.
“O risco de perda total existe nos dois casos, mas o investidor em debêntures geralmente possui uma posição jurídica mais protegida do que o acionista”, aponta Abreu.
O que explica tal movimento é que, em uma eventual falência da empresa, os recursos obtidos com a venda dos ativos são distribuídos seguindo a ordem de prioridade prevista em lei. Como os debenturistas são credores da companhia, eles têm preferência sobre os acionistas no recebimento.
Ainda assim, o nível de proteção depende das características de cada emissão, como a existência de garantia real, garantia flutuante ou mesmo a ausência de garantias.
Já o acionista é sócio da empresa e ocupa a última posição na fila de recebimento em caso de falência. Somente depois que todas as obrigações da companhia são quitadas é que ele tem direito a uma eventual parcela do patrimônio remanescente. “Na maioria dos casos, o que sobra para o acionista é zero”, destaca Debom.
Embora os debenturistas tenham prioridade em relação aos acionistas em um processo de falência, isso não elimina os riscos do investimento. Como as debêntures são títulos privados, elas não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), diferentemente de aplicações como CDBs, LCIs e LCAs.
Na prática, o investidor pode registrar perdas em duas situações principais. A primeira ocorre quando a empresa enfrenta dificuldades financeiras. Neste caso da companhia entrar em recuperação judicial ou falência e não tiver patrimônio suficiente para honrar suas dívidas, o debenturista pode recuperar apenas parte do valor investido — ou, em casos extremos, não receber nada.
A segunda está ligada à marcação a mercado. Caso o investidor precise vender a debênture antes do vencimento e os juros tenham subido desde a compra do título, seu preço tende a cair. Assim, mesmo que a empresa permaneça adimplente e cumpra normalmente suas obrigações, a venda antecipada pode resultar em prejuízo.
Acessbilidade para pessoas físicas
Em termos de valor mínimo, liquidez e facilidade de diversificação, as ações costumam ser mais acessíveis para a pessoa física. “Por meio do mercado fracionário, é possível comprar uma única ação, inclusive de grandes empresas, com um valor relativamente baixo”, ressalta Abreu.
Isso permite distribuir os recursos entre companhias e setores diferentes sem a necessidade de um capital inicial elevado. As ações de empresas mais negociadas também costumam apresentar maior liquidez, facilitando a venda quando o investidor precisa resgatar o dinheiro.
“Debênture historicamente exige tíquete maior e tem liquidez secundária mais restrita — ainda que isso venha melhorando com as emissões incentivadas”, explica Debom.
Isso, no entanto, não significa que ações sejam a melhor porta de entrada para todos os investidores. Por estarem sujeitas às oscilações da bolsa, elas exigem maior tolerância ao risco e disposição para lidar com períodos de volatilidade.
“Antes de considerar apenas o custo de entrada, o investidor precisa avaliar seu perfil de risco, seus objetivos e o prazo disponível. Esses fatores indicarão se faz mais sentido priorizar uma reserva em investimentos mais conservadores, incluir debêntures de empresas com boa qualidade de crédito ou destinar parte do patrimônio à bolsa”, conclui Abreu.
