Déjà Vu? IA começa a repetir dilemas familiares que marcaram a globalização, diz estudo
Análise do CFR defende que, apesar da tecnologia revolucionária, a mudança que a IA traz para o mundo tem paralelos na história - e que podemos, e devemos, aprender do passado para usufruir totalmente das novas oportunidades

O debate sobre os riscos e oportunidades da Inteligência Artificial (IA), segundo Michael Froman, presidente do Council on Foreign Relations (CFR), ultrapassou o ambiente tecnológico do Vale do Silício e passou a mobilizar políticos, empresas e autoridades em Washington e em Pequim.
Com isso, a IA se tornou uma pauta capaz de influenciar praticamente todos os aspectos da vida humana em escala global, de uma maneira não vista desde a globalização proporcionada pela internet.
Segundo o CFR, o debate atual sobre a IA nos EUA se concentra majoritariamente em preocupações que abrangem desde o consumo de água e energia dos data centers até os efeitos da IA sobre o mercado de trabalho e a possibilidade de sistemas cada vez mais autônomos, medos já ecoados pelo processo de globalização.
O nível de ansiedade também aumentou com novos medos, decorrentes de alertas de pesquisadores sobre riscos existenciais inéditos e de episódios recentes envolvendo agentes de IA capazes de realizar ataques ou burlar sistemas digitais.
O artigo de Froman, todavia, também realça que, assim como a globalização, a tecnologia é uma faca de dois gumes: os possíveis ganhos proporcionados pela IA podem resolver muitos dos problemas enfrentados pela humanidade hoje, um otimismo também ecoado pela globalização e pela conexão mundial.
Avanços em áreas como a pesquisa médica e a educação personalizada, por exemplo, podem gerar benefícios relevantes, embora a percepção pública ainda seja dominada pelos riscos e pela velocidade da transformação.
A mistura de ansiedade e otimismo em relação a algo que pode mudar o funcionamento do mundo não é uma dinâmica nova; é algo que se repetiu diversas vezes ao longo da história.
Segundo Froman, a ascensão da IA, apesar de ser uma tecnologia revolucionária com riscos e oportunidades inéditos, não é um fenômeno novo — e lições valiosas podem ser aprendidas com as experiências do passado.
Déjà Vu: IA e globalização
A globalização também chegou como um prospecto inédito e assustador: hoje, podemos aplicar o que aprendemos com esse fenômeno à ascensão da IA (metamorworks)
A primeira semelhança apontada por Froman entre os fenômenos está no emprego. Assim como a abertura das cadeias produtivas alimentou o receio de que postos de trabalho fossem transferidos para outros países, a IA suscita a possibilidade de substituição de atividades humanas, enquanto seus defensores prometem ganhos de produtividade capazes de tornar a economia mais eficiente e mais abundante.
O problema, argumenta o presidente do CFR, é que uma promessa de prosperidade baseada na redução generalizada da necessidade de trabalho não corresponde necessariamente ao significado que as pessoas atribuem às suas ocupações. A ideia de uma sociedade em que indivíduos viveriam de renda básica enquanto máquinas realizariam grande parte das tarefas pode, em vez de tranquilizar, aumentar a sensação de insegurança e falta de propósito.
A distribuição dos ganhos também reproduz um dilema conhecido. A globalização reduziu preços e ampliou o acesso a produtos, mas seus benefícios não foram distribuídos de forma uniforme e, muitas vezes, permaneceram invisíveis para a população, enquanto empresas, investidores e grupos específicos capturaram parcelas maiores dos ganhos.
Na inteligência artificial, Froman identifica uma dinâmica semelhante, com trilhões de dólares sendo direcionados ao setor e a valorização de um pequeno grupo de empresas e indivíduos ocorrendo antes que os ganhos de produtividade sejam sentidos em larga escala. Para o diretor do CFR, mesmo que a IA aumente a prosperidade global, a percepção de que seus benefícios estão concentrados pode dificultar a construção de um apoio público duradouro.
Outro ponto de aproximação é a perda percebida de autonomia. A globalização tornou as cadeias de produção mais complexas e distantes, transferindo decisões sobre fornecedores e produção para empresas e agentes distantes das comunidades afetadas. No caso da IA, o problema é ainda mais profundo, pois os mecanismos internos dos modelos são difíceis de compreender, inclusive para seus desenvolvedores.
Essa característica cria uma tensão particular, segundo o CFR, porque decisões relevantes sobre a economia e a vida cotidiana podem passar a depender de sistemas cujo funcionamento permanece, em grande parte, opaco e desconhecido ao público. Ao mesmo tempo, a pressão para avançar permanece elevada, impulsionada pelos ganhos potenciais de produtividade, pelo desenvolvimento de sistemas capazes de melhorar a si mesmos e pela competição entre os Estados Unidos e a China.
A reação política também apresenta paralelos com a globalização. Froman destaca que a oposição à expansão da IA não se encaixa perfeitamente nas divisões tradicionais entre partidos e cita o encontro entre o senador Bernie Sanders e o ex-estrategista de Trump, Steve Bannon, para discutir uma desaceleração do avanço tecnológico. O autor identifica, nesse movimento, uma característica populista semelhante àquela que marcou a resistência à globalização.
Lições aprendidas
Representação da disputa tecnológica e interdependência entre os Estados Unidos e a China na corrida da inteligência artificial. Harmonia e adaptação das instituições pode transformar aplicação (Imagem gerada por IA/Exame)
Para evitar uma reação semelhante à que ocorreu com a globalização, Froman defende maior atenção à adaptação dos trabalhadores, envolvendo o governo, as empresas e as instituições de ensino. Ademais, o especialista afirma que ainda há muito debate sobre os riscos da IA, mas pouco esforço concreto para criar mecanismos capazes de ajudar a população a atravessar uma transformação acelerada no mercado de trabalho.
O governo federal também terá um papel central, segundo a análise. Assim como a administração Trump tenta alterar a política comercial americana por meio de tarifas, o governo ainda oscila entre deixar a tecnologia avançar com pouca interferência, exigir avaliações para novos modelos ou assumir participação econômica em determinadas empresas, o que revela a dificuldade de definir uma estratégia coerente para o setor.
Por fim, Froman defende que a inteligência artificial, assim como o comércio internacional, precisará de padrões internacionais, com participação ativa dos Estados Unidos. A competição com a China, porém, limita a possibilidade de simplesmente interromper o desenvolvimento tecnológico, tornando a cooperação em segurança e governança uma questão paralela à disputa pela liderança.
O acordo alcançado anteriormente entre Washington e Pequim para manter humanos envolvidos nas decisões sobre o uso de armas nucleares é apresentado como exemplo de que esse diálogo, embora difícil, é possível.
