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NegóciosMPOL
11/07/2026
7 min

Demitidos na pandemia, casal de NY fatura US$ 100 mi com peças usadas por famosos e feitas no Brasil

Demitidos na pandemia, casal de NY fatura US$ 100 mi com peças usadas por famosos e feitas no Brasil

Quando Jill Biden, esposa do ex-presidente norte-americano Joe Biden, apareceu carregando uma bolsa da Larroudé em um encontro com a rainha Elizabeth II, a marca vendeu 40 unidades do modelo em um único dia. Cada unidade do modelo Erin, desenhado e fabricado pela empresa no Rio Grande do Sul, custava, à época, US$ 325 dólares (aproximadamente R$ 1.660 na cotação atual).

Para Ricardo Larroudé, cofundador da empresa ao lado da esposa, Marina, aquele foi um marco: mais do que uma venda pontual, era uma validação pública de que a marca criada durante a pandemia podia disputar espaço no guarda-roupa de mulheres influentes no mundo inteiro.

Desde então, a lista cresceu. Taylor Swift, Rihanna, Lady Gaga, Selena Gomez e outras celebridades passaram a usar sapatos, bolsas e peças da Larroudé.

A marca nasceu em Nova York, onde Ricardo e Marina vivem há mais de duas décadas, mas sua produção está concentrada em Sapiranga, cidade a 60 quilômetros de Porto Alegre, no coração do polo calçadista brasileiro. 

Cinco anos depois de sair do papel, a Larroudé fatura mais de US$ 100 milhões por ano. A empresa tem 700 funcionários, opera em uma fábrica de 10 mil metros quadrados e produz mais de 2 mil pares por dia, com capacidade para chegar a 3 mil.

A operação brasileira, iniciada mais recentemente, já responde por cerca de um quarto das vendas. A maior parte da receita vem do modelo direto ao consumidor, principalmente pelos sites da marca nos Estados Unidos e no Brasil.

“Quando uma pessoa muito conhecida usa o produto, isso valida que você é uma empresa de verdade”, diz Ricardo Larroudé à EXAME. “Não é que todo mundo vê e compra na hora. Mas o jornalista fica sabendo, o stylist fica sabendo, outra pessoa famosa fica sabendo. É um efeito cascata.”

O buraco entre o luxo e o plástico

A Larroudé nasceu de uma leitura simples de mercado. De um lado, sapatos de luxo vendidos por milhares de dólares. De outro, produtos baratos, muitas vezes de baixa qualidade. No meio, segundo Ricardo e Marina, havia uma consumidora sem alternativa.

“A mulherada tem sofrido para comprar sapato”, diz Ricardo. “As pessoas não querem um sapato de plástico, malfeito, de couro sintético. E também não querem necessariamente pagar US$ 1 mil em um sapato. Tinha alguma coisa no meio que estava perdida.”

Marina conhecia esse mercado por dentro. Brasileira de Araçatuba, no interior de São Paulo, ela construiu carreira em Nova York em algumas das principais plataformas e empresas de moda do mundo. Passou pela Condé Nast, trabalhou no Style.com, foi diretora de moda da Teen Vogue e depois assumiu posição de liderança na Barneys, loja de departamentos que foi uma espécie de templo da moda americana.

Ricardo vinha de outro mundo. Formado em administração pela Fundação Getulio Vargas, trabalhou com banco de investimento no Lehman Brothers, passou por fundos de private equity, como a Apollo, e depois foi para a AB InBev, onde atuou como diretor global de risco. Antes da Larroudé, estava em uma empresa investida pela General Atlantic.

Na pandemia, os dois ficaram desempregados. Marina havia acabado de sair do Grupo Arezzo. Ricardo também estava em casa. Com dois filhos pequenos e confinados em Nova York, decidiram juntar as experiências: ela com moda, produto e criação; ele com finanças, gestão e operação.

“Eu entrei nesse negócio por causa dela”, afirma Ricardo. “A Marina trabalhou com moda a vida inteira. Eu fui aprendendo esse mundo ouvindo ela chegar em casa e contar o que estava acontecendo no mercado.”

Larroudé: marca aposta em couro, design autoral e fabricação própria para competir com grifes internacionais no segmento de luxo acessível. (Larroudé/Divulgação)

Como é a fábrica da Larroudé

A primeira produção da Larroudé foi terceirizada. O contato com o polo calçadista gaúcho veio por meio de pessoas ligadas à operação da Arezzo no Rio Grande do Sul. No começo, os pedidos eram feitos por video chamadas, ainda durante a pandemia.

A demanda cresceu rápido. A empresa chegou a produzir com quatro fábricas terceirizadas, mas o modelo começou a ficar limitado. Os prazos eram longos, os produtos mais vendidos exigiam reposição rápida e a marca queria responder ao consumidor em tempo real.

“A gente é uma marca DTC (Direct-to-Consumer, "Direto ao Consumidor" em inglês). A gente não vende para um lojista. A gente ouve o cliente, tem o feedback do que está funcionando e do que não está funcionando muito rápido”, diz Ricardo.

A solução foi verticalizar. Primeiro, a Larroudé montou uma fábrica-modelo, usada para desenvolvimento, engenharia, formas e novos produtos. Depois, em 2025, unificou a operação em uma fábrica maior, de 10 mil metros quadrados, em Sapiranga.

Hoje, segundo Ricardo, a produção é majoritariamente interna. A fábrica reúne design, engenharia, desenvolvimento e linhas de produção. A empresa também oferece plano de saúde, cursos pelo Senai, aulas de inglês e plano de carreira aos funcionários.

“Eu não vim para procurar sapato barato”, diz Ricardo. “Eu queria mostrar que vim para ficar.”

Fábrica da Larroudé em Sapiranga: unidade de 10 mil metros quadrados concentra a produção da marca e emprega cerca de 700 pessoas no Rio Grande do Sul. (Larroudé/Divulgação)

Competir com Itália, não com China

Para Ricardo, o Rio Grande do Sul tem uma capacidade produtiva que poderia ser mais bem explorada globalmente. A tese dele é que o Brasil não deveria disputar apenas preço no mercado internacional de calçados, mas valor agregado.

“O Brasil não deveria competir com a China para produzir sapato. Deveria competir com Portugal, Espanha e Itália”, afirma. “Se você está querendo competir só com custo, você vai apanhar.”

A visão da Larroudé passa por transformar o sapato brasileiro em produto de desejo internacional. Na sola, a marca indica que as peças são feitas à mão no Brasil, mas Ricardo evita vender a empresa como uma marca “brasileira” no sentido tradicional.

A Larroudé é registrada em Delaware, tem gestão em Nova York e produção no Rio Grande do Sul. Para ele, trata-se de uma marca global, com DNA de Nova York e capacidade industrial brasileira.

“A gente não tenta vender o país. A gente tenta falar que é uma coisa que fazemos nós mesmos e que estamos cuidando das pessoas que fazem o sapato”, diz. “É a cultura de botar a mão no sapato.”

Como as peças chegaram em celebridades

O uso de peças da marca por celebridades aconteceu de forma orgânica, segundo Ricardo, mas não por acaso. Desde cedo, a Larroudé estruturou uma equipe dedicada a atender stylists, profissionais que escolhem roupas e acessórios para artistas, editoriais e eventos.

Esse trabalho ajudou a colocar a marca nos pés e nas mãos de nomes conhecidos. Taylor Swift, Rihanna, Sabrinca Carpenter, Sydney Sweeney e Lady Gaga estão entre as celebridades que já usaram produtos da Larroudé. Para uma empresa jovem, esse tipo de exposição funcionou como atalho de reputação.

Calçados da Larroudé: cantora Taylor Swift e atriz Sydney Sweeney usam peças produzidas no Rio Grande do Sul (Larroudé/Divulgação)

O caso de Jill Biden foi o mais simbólico. Ao aparecer com uma bolsa da marca em um compromisso internacional, a então primeira-dama americana gerou uma onda de atenção.

“A Casa Branca validou”, diz ele. “Isso faz outras pessoas prestarem atenção.

Quais serão os próximos passos da marca

A Larroudé começou pelos sapatos femininos, mas já amplia o portfólio. A empresa lançou tênis unissex, aposta em bolsas e testa novas categorias, incluindo colaborações com designers de moda. A criação é liderada por Marina, com uma equipe dedicada de design.

Ricardo diz que a companhia ainda está longe do tamanho que pode alcançar. A ambição é crescer nos Estados Unidos, fortalecer a operação brasileira e entrar em novos mercados.

México, Colômbia e Europa estão no radar. A abertura de lojas físicas também é estudada, mas em formato seletivo, mais próximo de lojas-conceito do que de uma rede tradicional.

A empresa também avalia novas captações para financiar a expansão, verticalizar outros elos da cadeia e sustentar o crescimento industrial.

Para Ricardo, a Larroudé está apenas no começo. “A gente ainda é muito pequeno em relação às marcas americanas”, diz. “Temos espaço para ser dez vezes maiores.”

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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