Depois de criar uma healthtech de R$ 1,2 bilhão, fundador mira nova aposta de R$ 300 milhões
Vander Corteze, cofundador da empresa de saúde ocupacional, volta à operação com plano de investir R$ 50 milhões em novas clínicas e expansão

A saúde ocupacional costuma entrar na rotina das empresas como uma exigência para manter os funcionários aptos ao trabalho. Em setores de alto grau de risco, porém, a quantidade de exames, controles e documentos necessários torna essa operação mais complexa.
A BR MED se especializou nesse mercado e concentra exames e consultas em uma mesma unidade. Fundada em 2008 pelos médicos do trabalho Vander Corteze e Davi Barcelos, a BR MED atende 500 mil trabalhadores por ano e tem 12 unidades próprias, oito aeroclínicas em bases de embarque offshore e centenas de clínicas credenciadas no país. A companhia faturou R$ 130 milhões em 2025 e agora prepara uma nova fase de expansão.
A mudança acontece com a volta de Corteze à operação mais próxima da BR MED. Depois de fundar a Beep Saúde em 2016 e conduzir a healthtech por uma trajetória de crescimento, captação e expansão, o empreendedor decidiu aplicar na primeira empresa parte das práticas de gestão que desenvolveu nos últimos dez anos. A meta é chegar a R$ 300 milhões de faturamento até 2028.
“Tudo que eu aprendi na Beep, as boas práticas, eu quero aplicar aqui de novo, só que agora na BR MED”, diz Corteze.
O plano prevê R$ 50 milhões em investimentos com recursos próprios, dos quais R$ 10 milhões já foram destinados à nova clínica inaugurada em setembro, no Centro do Rio de Janeiro. A unidade tem 1.723 metros quadrados, 45 consultórios e capacidade para 1.000 atendimentos por dia. A empresa pretende replicar o modelo nas unidades próprias e abrir novas clínicas em regiões onde há concentração de atividades de alto risco.
A clínica conceito
A nova unidade amplia a estrutura que a BR MED já usa para atender trabalhadores de setores como óleo e gás, mineração, siderurgia, energia e indústria naval. Em 1.723 metros quadrados, a clínica reúne 45 consultórios e serviços como radiologia, odontologia, teste ergométrico, audiometria, espirometria, eletrocardiograma, coleta laboratorial e imunização.
A estratégia parte de uma característica do mercado. Quanto maior o risco da atividade, maior tende a ser a quantidade de exames e controles exigidos das empresas. Um trabalhador de uma operação administrativa, por exemplo, está sujeito a riscos ocupacionais diferentes daqueles enfrentados por alguém em uma plataforma de petróleo ou em uma operação de mineração.
A BR MED decidiu concentrar seu negócio nesse segundo grupo. É o que Corteze chama de ICP, ideal customer profile, perfil ideal de cliente. A companhia afirma que prefere crescer geograficamente dentro desse segmento a ampliar a carteira para empresas de baixo grau de risco.
A nova unidade também servirá de referência para a expansão da companhia. Macaé, no Rio de Janeiro, será a próxima cidade a receber o modelo, segundo a empresa. Belo Horizonte e cidades próximas à margem equatorial também estão no mapa de interesse da BR MED.
O retorno do fundador
Corteze deixou a gestão cotidiana da BR MED para fundar a Beep Saúde em 2016. A healthtech, especializada em serviços de saúde, cresceu com capital de investidores e hoje tem cerca de 1.300 colaboradores e faturamento anual superior a R$ 500 milhões, segundo o empreendedor.
Em 2024, a Beep foi avaliada em 1,2 bilhão de reais em uma rodada de investimento liderada pela gestora americana Lightsmith. Bradesco, David Vélez, fundador do Nubank, CZI, organização criada por Mark Zuckerberg e Priscilla Chan, e DNA Capital também aparecem entre os investidores, segundo informações divulgadas pela companhia.
Na BR MED, o modelo é diferente. A empresa não busca captação e afirma operar com geração de caixa, sem endividamento. O investimento de R$ 50 milhõe previsto para a expansão será feito com capital próprio.O retorno do fundador também trouxe uma nova estrutura de gestão. Corteze criou o Founders Office, escritório ligado diretamente a ele para tocar projetos nas duas empresas e acelerar decisões que, segundo ele, poderiam ficar diluídas no dia a dia da operação.
A equipe reúne engenheiros formados pelo Instituto Militar de Engenharia, o IME. O empreendedor, que foi médico de resgate do Corpo de Bombeiros e chegou ao posto de primeiro-tenente, diz ter levado da experiência militar uma cultura de disciplina e execução.
“Eu preciso me multiplicar. Eu preciso ter mais poder de fogo, mais capacidade de auxiliar as duas empresas, a destravar projetos, alavancas de crescimento que muitas vezes o dia a dia da companhia não permite a gente fazer”, diz.Regulação aumenta pressão sobre as empresas
A BR MED também aposta que mudanças regulatórias podem colocar a saúde ocupacional mais perto da agenda dos altos executivos das empresas.
A NR-1, norma regulamentadora que estabelece disposições gerais sobre segurança e saúde no trabalho, ganhou novas exigências relacionadas aos riscos psicossociais. O tema inclui fatores ligados à organização do trabalho que podem afetar a saúde mental dos funcionários.
Para a BR MED, a mudança ajuda a levar o assunto para além do departamento de Recursos Humanos. A empresa afirma que passou a oferecer diagnóstico e acompanhamento para ajudar clientes a se adequar às novas exigências.
A companhia também cita a Lei 15.377/2026 como parte desse movimento de ampliação das responsabilidades das empresas sobre prevenção e saúde dos funcionários. O conteúdo e a aplicação da legislação precisam ser considerados conforme as obrigações efetivamente vigentes.
Para Corteze, cada nova exigência aumenta a importância de fornecedores capazes de lidar com documentação, exames e acompanhamento em operações de maior risco.
“Todos esses marcos regulatórios estão mostrando o seguinte: aquilo que era um negócio deslocado, com baixa relevância, pouco interessante, que a medicina não trabalha, saúde ocupacional, está cada vez ficando mais importante”, diz.
Aquisição também é estratégia
Além de abrir clínicas próprias, a BR MED avalia uma segunda maneira de acelerar a expansão: comprar empresas que já atuam em determinadas regiões.
O mercado de saúde ocupacional é pulverizado. A estratégia, porém, não é sair comprando clínicas indiscriminadamente. O foco continuará em empresas voltadas para clientes de alto grau de risco e localizadas em praças consideradas estratégicas.A companhia afirma que já mantém conversas e diligências para possíveis transações, mas não estabelece prazo para concluir uma aquisição.
A combinação entre expansão orgânica e aquisições pode ajudar a empresa a chegar a novas regiões sem construir toda a operação do zero. Entre as áreas de interesse estão polos de mineração, óleo e gás e atividades portuárias.
Hoje, a BR MED tem unidades em cidades como Rio de Janeiro, Macaé, Santos e Vitória. A lógica da expansão segue a localização dos clientes, e não a concentração tradicional de serviços médicos.
Até os R$ 300 milhões
O principal desafio agora é transformar a estrutura montada pelo fundador em crescimento. A BR MED pretende sair de R$ 130 milhões de faturamento para R$ 300 milhões até 2028.
Para isso, a empresa terá de aumentar a carteira de clientes sem perder a especialização que orientou sua expansão desde a fundação. Também precisará colocar de pé novas unidades, integrar eventuais aquisições e ampliar a equipe comercial.
A companhia afirma que cresceu cerca de 25% ao ano até agora. A nova meta exige um ritmo superior a 40% ao ano nos próximos ciclos.
Corteze vê na experiência da Beep uma referência para essa etapa. A healthtech passou de uma operação inicial ligada a vacinação para uma companhia com atuação em diferentes áreas de saúde, crescimento acelerado e presença em vários estados.
Na BR MED, porém, a estratégia será financiada de outra forma. Em vez de buscar investidores para sustentar a expansão, o plano é usar o caixa da própria empresa. “Eu já consegui crescer de anos na Beep, eu cresci 100% ano contra ano. Esse ano eu estou crescendo mais de 40% ano contra ano, já estando uma empresa de 500 milhões. Então, crescer 40% eu aprendi a andar nessa velocidade”, diz Corteze.
