Depois de orientar empresas por 25 anos, ele fará milhões com óculos para quem leva 'uma vida ativa'

Durante mais de duas décadas, o paulistano Claudio Vasques ganhou dinheiro ajudando outras empresas a entender o consumidor antes de tomar decisões. À frente da Brazil Panels, companhia de pesquisas de mercado que fatura cerca de R$ 5 milhões por ano, trabalhou com marcas como Uber, Sicoob e Ailos e construiu uma base com mais de 4 milhões de pessoas cadastradas em todo o país.
Em 2026, decidiu ocupar o outro lado da mesa. Vasques investiu R$ 400 mil na criação da Mind Court, uma marca de óculos esportivos desenhada a partir dos levantamentos conduzidos pela própria empresa de pesquisas.
A nova companhia começou a operar em fevereiro e fez sua primeira venda pelo comércio eletrônico em abril. Desde o lançamento, vendeu 700 óculos e acumulou R$ 210 mil em faturamento, com um ticket médio de R$ 300 por pedido.
A meta é encerrar 2026 com faturamento de R$ 600 mil e dobrar esse valor no ano seguinte. As projeções entregues indicam receitas de R$ 1,8 milhão em 2028, R$ 2,8 milhões em 2029 e R$ 3,6 milhões em 2030.
“Passei grande parte da minha trajetória mostrando às empresas como os dados poderiam reduzir riscos e orientar decisões. Com a Mind Court, resolvi colocar essa metodologia à prova em um negócio próprio, assumindo também os riscos da execução”, afirma Vasques.
O novo negócio ainda é pequeno em comparação com a Brazil Panels. A empresa de pesquisas projeta faturar R$ 5 milhões em 2026, R$ 5,5 milhões em 2027 e chegar a R$ 7,6 milhões em 2030.
Mas é justamente essa diferença de tamanho que torna a nova empreitada uma mudança relevante na trajetória do empresário: pela primeira vez, ele não está apenas apontando oportunidades para os clientes. Está colocando capital, comprando estoque e tentando construir uma marca diretamente com o consumidor.
Como Vasques começou sua trajetória empreendedora
Natural de São Paulo, Vasques começou a trabalhar aos 14 anos. Passou mais de uma década na indústria têxtil, onde chegou à área então chamada de processamento de dados, e depois foi contratado pela Ambev para trabalhar com marketing e tecnologia.
Formado em análise de sistemas pela Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), fez especializações em marketing na ESPM e em áreas relacionadas ao comportamento do consumidor e ao neuromarketing. A combinação entre tecnologia e pesquisa passou a orientar sua carreira.
No ano 2000, enquanto ainda trabalhava na Ambev, participou da criação de um painel digital de consumidores, em um momento em que pesquisas feitas pela internet ainda eram incipientes no Brasil. O projeto contou com orientação de profissionais ligados a empresas internacionais do setor e começou executando no país levantamentos encomendados por companhias estrangeiras.
Vasques permaneceu 10 anos na primeira empresa, então chamada Brazil Online Panels. Após a saída de seu sócio para os Estados Unidos, seguiu sozinho e, em 2010, criou a Brazil Panels.
Hoje, a companhia conduz pesquisas quantitativas e qualitativas, entrevistas presenciais, grupos de discussão e comunidades digitais. Além de atender diretamente empresas, também realiza a coleta de dados para consultorias de pesquisa.
Segundo Vasques, a base recebe cerca de 2 mil novos cadastros orgânicos por mês e permite fazer levantamentos por região, classe social e perfil de consumo.
A inteligência artificial passou a ser usada para agilizar processos internos, mas o empresário afirma que a companhia ainda não substitui entrevistados por dados sintéticos. Para ele, as ferramentas ajudam a processar informações, mas não eliminam a necessidade de observar diretamente o comportamento humano.
Por que Vasques abriu um novo negócio
A ideia da Mind Court começou fora do escritório. Vasques já mantinha duas quadras de squash e praticava esportes de raquete quando passou a jogar beach tennis. A luminosidade e a exposição ao sol tornavam o uso de óculos praticamente necessário, mas ele não encontrava um modelo que combinasse conforto, encaixe e preço.
De um lado, havia produtos esportivos de marcas conhecidas que ultrapassavam R$ 1 mil. Do outro, opções mais baratas que não entregavam o ajuste e a qualidade que buscava. Vasques comprou diferentes modelos, testou formatos e concluiu que poderia existir espaço entre as duas pontas.
Em vez de encomendar imediatamente um produto, decidiu pesquisar o mercado. Em janeiro de 2026, a Brazil Panels entrevistou 668 consumidores de diferentes regiões do país sobre a posse de óculos de sol, hábitos esportivos, critérios de compra e canais usados para procurar referências.
O levantamento mostrou que 88% dos entrevistados tinham ao menos um par de óculos de sol. Dentro desse grupo, 45% possuíam dois ou mais, enquanto 43% tinham apenas um. Para Vasques, o resultado sugeria que o produto não precisava ser tratado somente como uma compra ocasional: havia consumidores dispostos a manter diferentes modelos para esportes, lazer e uso cotidiano.
Óculos esportivos da Mind Court: produtos são voltados a modalidades como beach tennis, corrida e ciclismo (Mind Court/Divulgação)
A pesquisa também mostrou que 43% dos participantes praticavam alguma atividade física. Entre eles, 66% faziam caminhada, 32% praticavam corrida, 30% ciclismo, 20% vôlei de praia e 12% beach tennis. Como os entrevistados podiam indicar mais de uma modalidade, os percentuais não somam 100%.
Vasques escolheu começar pelas peças para praticantes de beach tennis porque já fazia parte daquele ambiente e enxergava um nicho suficientemente desenvolvido para sustentar uma marca, mas ainda distante da maturidade de mercados como corrida e ciclismo.
O esporte teve forte expansão no Brasil durante a pandemia. Em 2020, a Confederação Brasileira de Tênis chegou a registrar aumento de 50% no número de praticantes em um período de três meses. Desde então, a modalidade ganhou circuitos profissionais, academias e competições internacionais.
“Eu já estava dentro do beach tennis e vi que era um mercado promissor”, afirma Vasques. “É um nicho que eu poderia explorar, entender melhor dentro da marca e depois expandir para outras modalidades.”
Embora tenha usado o esporte como porta de entrada, a Mind Court não vende apenas para jogadores de beach tennis. O portfólio inclui modelos esportivos, casuais, com lentes fotocromáticas e opções que podem receber grau. Corredores, ciclistas, personal trainers, professores de dança e praticantes de atividades ao ar livre também estão entre os públicos buscados pela empresa.
Pesquisa definiu até onde vender
O primeiro dado a influenciar a operação foi a preferência pelo ponto de venda. Segundo um levantamento da Brazil Panels, 73% dos consumidores preferem comprar óculos presencialmente, ante 27% que escolhem o ambiente digital.
A conclusão levou a Mind Court a concentrar sua estratégia em torneios e outros encontros esportivos. Atualmente, os eventos representam 65% das vendas da marca. O comércio eletrônico responde por 20%, os parceiros por 10% e outros canais pelos 5% restantes.
A escolha vai na contramão de uma estratégia baseada apenas em tráfego digital, mas faz sentido para uma categoria em que o consumidor quer experimentar o produto, verificar o encaixe no rosto e comparar peso, conforto e aparência.
“Os eventos não são apenas pontos de venda. Eles funcionam como um laboratório permanente”, diz Vasques. “Conseguimos observar como as pessoas escolhem os produtos, quais dúvidas apresentam, quais modelos experimentam e o que efetivamente determina a compra.”
As informações recolhidas nesses encontros retornam ao desenvolvimento do portfólio, que já soma aproximadamente 50 modelos e variações. A presença física também permite acompanhar quais armações chamam atenção, quais formatos são abandonados após a prova e como os consumidores reagem aos preços.
O canal de eventos ajudou a empresa a atravessar os primeiros meses de operação, período de temperaturas mais baixas e maior incidência de chuva em parte do país, quando a procura por óculos de sol tende a ser menor. A companhia também aposta nos modelos fotocromáticos, cujas lentes escurecem ou clareiam conforme a luminosidade, para reduzir essa sazonalidade.
O setor óptico brasileiro movimentou R$ 7,34 bilhões no varejo no primeiro trimestre de 2026, crescimento de 3% sobre o mesmo período de 2025. A Associação Brasileira da Indústria Óptica, a Abióptica, projeta avanço de 5,2% no ano, apesar de uma retração pontual registrada em maio.
Professores viraram vendedores da marca
Outra decisão orientada pelo comportamento do consumidor foi a criação de uma rede de professores, atletas e parceiros. A Mind Court reúne cerca de 20 profissionais que testam os produtos, divulgam a marca e, em alguns casos, recebem uma comissão sobre as vendas.
A estratégia começou com professores de beach tennis. Em vez de colocar os óculos em lojas esportivas e esperar que fossem descobertos, Vasques entregou os primeiros modelos a profissionais que mantinham contato diário com dezenas de alunos.
“Eu olhava para o professor e pensava: esse cara é um influenciador de opinião dos alunos”, afirma. “Em vez de deixar o produto exposto em uma loja, conseguimos ter uma interação de pessoa para pessoa.”
Cada produto comercializado por professores gera uma comissão, modelo que a empresa pretende ampliar à medida que entrar em novas comunidades esportivas.
Entre os atletas que utilizam ou testam os modelos estão os jogadores de beach tennis Allan Oliveira, Michele Cappelletti e Giovani Bueres. Vasques diz que a associação com profissionais de alto rendimento funciona como validação técnica, mas não substitui a comunicação em canais digitais.
A própria pesquisa mostrou que sites, Instagram e Google estão entre os principais locais usados pelos consumidores para procurar informações sobre óculos. Atletas e professores aparecem mais abaixo nessa busca inicial, embora tenham maior influência quando o consumidor já está em contato com o produto.
Onde são feitos os óculos da marca
A produção dos óculos é terceirizada e realizada na China. Segundo Vasques, a empresa contratou indústrias que também fornecem para grandes marcas internacionais e passou a exigir testes de proteção contra raios ultravioleta e de distorção das lentes.
A decisão de produzir fora do Brasil ajuda a companhia a ocupar o espaço de preço identificado pelo fundador: acima das opções de entrada, mas abaixo dos modelos esportivos mais caros. A Mind Court tenta se posicionar como uma marca de desempenho com preço intermediário.
Na pesquisa feita por Vasques, o preço foi o fator mais importante para a compra de óculos, seguido por design, proteção UV, conforto, marca e durabilidade. A ordem chamou a atenção de Vasques porque a força da marca apareceu apenas na quinta posição, atrás de atributos que uma empresa nova poderia tentar entregar desde o início.
“A gente chegou a um preço intermediário com óculos de alta performance”, afirma. “A pessoa coloca e, muitas vezes, esquece que está usando.”
As vendas se concentram na capital e no interior de São Paulo, enquanto o e-commerce atende outros estados. A empresa pretende ampliar o digital, mas não planeja abandonar os encontros presenciais, usados ao mesmo tempo como loja, pesquisa de mercado e ferramenta de construção de marca.
Para chegar aos R$ 3,6 milhões projetados para 2030, a Mind Court aumentará o número de parceiros e entrará em outras modalidades.
“Quando atuamos apenas como consultores, indicamos caminhos com base nas evidências”, diz. “Como empreendedor, além de analisar os dados, é preciso escolher onde investir, lidar com estoque, testar canais, construir uma marca e responder pelo resultado.”
