Depois do Master, acabou a festa? Novas regras do FGC devem empurrar financeiras para um mercado mais seletivo, diz Fitch

Por anos, o suporte do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) funcionou como um importante motor de crescimento para bancos e financeiras de menor porte. Com o selo de proteção ao investidor, essas instituições conseguiram acelerar a expansão e captar bilhões em produtos como CDBs, LCIs e LCAs. Mas o caso Banco Master mudou a temperatura desse mercado.
Depois de a crise consumir R$ 57,4 bilhões das reservas do FGC, o Conselho Monetário Nacional (CMN) decidiu fechar algumas das principais portas que permitiam esse modelo de crescimento.
O objetivo é reduzir a dependência de depósitos garantidos e evitar que o fundo volte a ser colocado sob pressão semelhante.
Na visão da Fitch Ratings, o novo pacote regulatório deve mudar a forma como essas instituições se financiam. Com menos espaço para crescer por meio de produtos cobertos pelo FGC, muitas financeiras terão de buscar novas fontes de recursos.
Para a agência, as letras financeiras (LFs) despontam como as principais candidatas a preencher esse espaço.
Letras financeiras: a nova fonte de captação das financeiras
Até agora, as letras financeiras apareceram como coadjuvantes nos balanços das financeiras. Em 2025, os CDBs representaram 54,3% da captação total das financeiras e 74,3% do funding das instituições independentes, segundo dados da Fitch.
Por sua vez, as LFs ocuparam uma fatia relativamente modesta: 9,3% da captação e 11,9% do funding.
No entanto, a Fitch aposta que esses títulos podem se transformar uma das principais alternativas de funding para instituições que cresceram apoiadas na proteção oferecida pelo FGC.
Além de permitirem prazos de captação mais longos, esses títulos ajudam a diversificar o passivo e ampliam o acesso das instituições ao mercado institucional, avaliam os analistas.
Ao mesmo tempo, uma emissão maior de LFs também envolve uma mudança importante de público para as financeiras.
Enquanto mais de 94% do estoque de CDBs está nas mãos de investidores de varejo — muitos atraídos justamente pela proteção do FGC —, as LFs são dominadas por investidores institucionais. Em 2025, gestoras de recursos detinham 83% do estoque desses papéis.
Novas regras do FGC devem empurrar financeiras para mercado mais seletivo
Para a Fitch, o crescimento das emissões de letras financeiras deve gerar benefícios às financeiras, dado que esses títulos podem reduzir riscos de refinanciamento, melhorar os perfis de liquidez e alongar o prazo médio dos passivos das instituições financeiras.
“Essas instituições agora enfrentam limites mais rígidos para crescimento”, avalia a agência.
Segundo os analistas, o ganho tende a ser particularmente relevante para empresas que concentram grande parte de suas obrigações no curto prazo ou que dependem excessivamente de instrumentos cobertos pelo FGC.
No entanto, a Fitch alerta que essa transição não será indolor.
“Embora a Fitch espere que as LFs passem a representar parcela maior da captação do setor, o crescimento da emissão desses instrumentos não resolverá os desafios de liquidez e refinanciamento de financeiras independentes de pequeno porte”, afirma.
Como as letras financeiras não contam com proteção do FGC nem possuem lastro em ativos específicos, o principal fator de análise passa a ser a qualidade de crédito da instituição emissora.
A questão é que investidores institucionais costumam ser mais seletivos, demandam análises detalhadas e uma remuneração compatível com o risco assumido.
Além disso, as novas exigências regulatórias de liquidez aumentam o custo de carregamento dos recursos, pressionam margens e reduzem a capacidade de geração interna de capital.
Na visão da Fitch, o impacto tende a ser mais forte justamente entre as instituições menores, que tradicionalmente já enfrentam custos de captação mais elevados do que os grandes bancos.
Para muitas delas, o desafio passa a ser convencer o mercado de que sua qualidade de crédito é suficiente para atrair investidores mesmo sem a proteção oferecida pelo FGC.
