Derrota de Trump pode abrir espaço para Lula negociar tarifas com EUA, diz professor da FGV
Para Eduardo Mello, resultado das eleições americanas pode levar a Casa Branca a adotar uma postura mais pragmática e reduzir o peso de questões ideológicas na relação com o Brasil

A vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos pode levar o presidente Donald Trump a adotar uma postura mais pragmática na relação com o Brasil e abrir espaço para avanços nas negociações comerciais entre os dois países.
A avaliação é de Eduardo Mello, professor de Política e Relações Internacionais da FGV RI, para quem o resultado eleitoral deve impor limites à atuação internacional do governo americano.
"Eu acredito que a vitória dos democratas tira bastante poder do presidente americano e força o atual governo americano a pensar mais claramente nos riscos de aventuras internacionais", afirma Mello, em entrevista à EXAME.
Segundo ele, a inflação, pressionada também pelas tarifas comerciais, foi um dos fatores que ajudam a explicar o desempenho dos republicanos nas urnas.
O professor também avalia que a relação entre Brasil e Estados Unidos foi prejudicada por questões ideológicas, especialmente pela influência de setores ligados à família Bolsonaro sobre integrantes do governo Trump.
Para Mello, a manutenção de uma postura de confronto com o Brasil não atende aos interesses econômicos de nenhum dos dois países, sobretudo diante da importância das exportações brasileiras de produtos agrícolas para o mercado americano.
"Eu apostaria nesses próximos dois anos em um pouco mais de pragmatismo", afirma o professor. Na entrevista, Mello analisa os efeitos da vitória democrata sobre a política externa de Trump, as possibilidades de negociação do tarifaço com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e as perspectivas para a relação entre os governos brasileiro e americano até 2028.
Qual pode ser o impacto da vitória democrata na relação entre Brasil e Estados Unidos?
Nesse momento estamos tentando fazer a melhor especulação possível de uma coisa que ainda não aconteceu. Acredito que a vitória dos democratas tira bastante poder do presidente americano e força o atual governo americano a pensar mais claramente nos riscos de aventuras internacionais, tipo o que está acontecendo no Irã e Venezuela. Eu apostaria em uma política externa um pouco menos solta. Mais comedida. E isso porque a atual política externa americana teve um papel no resultado, principalmente a guerra no Irã, mas, em geral, a política externa americana teve um papel e também porque tarifas são inflacionárias. E a inflação foi, provavelmente, um dos fatores mais importantes para explicar a derrota do Trump em lugares onde o Partido Republicano tradicionalmente é forte. Acredito que haverá muito um pé atrás com esse tipo de política e, portanto, algum espaço para o Brasil avançar nas negociações, que têm sido a prioridade do governo, mas que, no atual momento, não têm tido muito progresso por conta da posição do governo Trump.
Historicamente, as eleições de meio de mandato costumam provocar mudanças na postura do presidente americano. Podemos esperar uma mudança na política externa de Trump após a vitória democrata?
As eleições de meio de mandato têm duas dinâmicas possíveis. Uma é quando as eleições são principalmente sobre questões internas dos Estados Unidos. E aí elas, de fato, normalmente resultam num presidente mais ativista, porque é um presidente que perde maioria, às vezes, no Congresso, ou perde cadeiras historicamente no Congresso e, portanto, tem menos margem de manobra para agir domesticamente e recua para a arena internacional, que é uma área que a Constituição americana dá muito poder para o presidente agir unilateralmente. Mas esse não é o caso. Isso não é nem de perto o caso dessa eleição. Questões de política internacional, de relações internacionais, foram absolutamente centrais para a campanha dos democratas. Em grande medida, é muito óbvio, inclusive para os republicanos, que eles perderam muito voto por conta da política internacional, da política externa adotada, por certas decisões políticas externas adotadas pelo governo Trump. Isso inclui tarifas, em geral.
E podemos esperar uma oposição mais ativa dos democratas no Congresso, inclusive com iniciativas para tentar derrubar as tarifas impostas por Trump?
Não esperaria grandes elucubrações de nenhum dos lados sobre: "Ah, vamos acabar com tarifas, vamos propor uma lei no Congresso americano". Isso pode até acontecer, mas não vai ser sobre o Brasil. Se acontecer, não vai ser sobre o Brasil, vai ser uma coisa mais geral sobre os poderes dos presidentes americanos de aumentar tarifas sem autorização prévia do Congresso. E isso vai acontecer por uma própria decisão da Casa Branca de que a atual política de tarifas não está sendo benéfica para o partido e que, portanto, é melhor para eles, de maneira muito quieta, sem grandes alvoroços, negociar reduções nessas tarifas para reduzir a inflação. Isso acontece dessa forma, por quê? Você não ganha voto falando sobre tarifas contra o Brasil; você ganha votos falando da inflação, falando que os preços estão muito altos. Agora, para você reduzir a inflação, você precisa lidar com essas questões de políticas públicas chatinhas. Ah, quais tarifas a gente tem, quanto de tarifas, quem pode impor, vamos aumentar, vamos diminuir. Se os democratas e os republicanos querem lidar com a questão de preços, uma das muitas coisas para as quais eles vão ser forçados a olhar nesses próximos dois anos é para o fato de que tarifas são inflacionárias e que, portanto, elas não trazem um grande benefício econômico, na maioria das vezes. Eu espero que isso surja de maneira indireta e não de maneira direta.
E para além do resultado americano, o que podemos esperar da relação entre Lula e Trump até 2028, com a reeleição do petista?
Eu apostaria nesses próximos dois anos em um pouco mais de pragmatismo. O marco da relação entre os dois países tem sido uma questão ideológica por parte de setores ali da base do presidente Trump, com influência de atores brasileiros e principalmente da família Bolsonaro, que foi muito negativa. Foi uma guinada ideológica que foi muito negativa para os dois lados. Claro que é mais negativa para a gente, porque os americanos são muito grandes e eles nos afetam mais do que nós afetamos eles. Mas também foi negativa para eles. A inflação de alimentos, por exemplo. O Brasil é uma máquina de agricultura, de exportar alimentos. A inflação de alimentos nos Estados Unidos é um fator de muita impopularidade para o atual governo.
Americanos historicamente bem sensíveis com o tema inflação
São. Porque a inflação em geral causa muita perda de votos nos Estados Unidos, e é um país acostumado com inflação baixa. E você taxar um país como o Brasil, que é um exportador de commodities agrícolas, e é um país com o qual os Estados Unidos têm um superávit, não me parece uma política econômica muito inteligente. Por isso, apostaria em um pouco mais de pragmatismo do lado americano, de começar a considerar que talvez eles tenham uma preferência ideológica por apoiar a família Bolsonaro, mas lidar com os fatos reais, que é que a eleição no Brasil já acabou, então não haverá um governo Bolsonaro, e que uma confrontação contínua com o Brasil não é. Não é só que não é do interesse brasileiro, mas não é também do interesse americano.
