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Mundo
08/11/2026
5 min

Derrota republicana nas urnas barra pacote trilionário de Defesa de Trump

Com o Congresso sob controle democrata, orçamento de US$ 1,5 trilhão que bancaria projetos bilionários e conflito entra na mira da oposição; setor de defesa reage em baixa

Derrota republicana nas urnas barra pacote trilionário de Defesa de Trump

A histórica derrota do Partido Republicano nas eleições de meio de mandato frustrou qualquer expectativa de que o Congresso dos Estados Unidos aprovasse o pedido inédito do presidente Donald Trump por um orçamento de Defesa de US$ 1,5 trilhão, de acordo com uma reportagem publicada pela agência Bloomberg. O revés nas urnas ocorreu em meio ao forte desgaste provocado pela impopular guerra no Oriente Médio.

Os democratas, que na última terça-feira (3) garantiram sólidas maiorias em ambas as Câmaras do Congresso, já se opunham ao aumento de 44% em relação ao ano fiscal anterior. Agora, a sigla sinaliza abertamente que bloqueará qualquer tentativa do governo de avançar com a verba.

Simultaneamente, os parlamentares republicanos que retornam para a fase de transição legislativa (lame-duck session) até a posse dos novos eleitos, em janeiro, devem ter dificuldades para reunir apoio ou força política para empurrar o maciço pacote de gastos militares — especialmente depois que a guerra do Pentágono contra o Irã custou o mandato de muitos governistas.

"Precisamos pressionar pelo desenvolvimento de uma abordagem mais realista e sustentável para nossa segurança nacional — uma que não exija um orçamento de Defesa superior a US$ 1 trilhão, nem seja financiada por cortes severos em programas domésticos essenciais", afirmou o deputado Adam Smith (Democrata-Washington), futuro presidente do Comitê de Serviços Armados da Câmara, em comunicado emitido após o resultado eleitoral.

Ameaça a projetos bilionários e impacto nas empreiteiras

A resistência democrata ameaça as ambições militares mais vistosas de Trump, como o projeto do escudo antimísseis Golden Dome e o plano de construção dos novos navios de guerra da classe Trump.

A mudança no comando do Legislativo também acende um alerta vermelho para as grandes empresas do setor. Há temores de que as empreiteiras de defesa enfrentem agora um amplo escrutínio do Congresso diante de supostos conflitos de interesse envolvendo a administração Trump. Abaladas pela perda da perspectiva de lucros com a disparada nos gastos americanos, ações de gigantes como a Lockheed Martin Corp. e a Northrop Grumman Corp. registraram queda nesta semana.

Ao retornarem a Washington na segunda-feira (9), os parlamentares terão de lidar com o projeto de lei anual de política de defesa e com o plano orçamentário para o ano fiscal de 2027 — que teve início em 1º de outubro ancorado em um financiamento provisório, válido apenas até 11 de dezembro. Ambas as pautas estão no limbo.

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, tentou justificar o salto nos valores solicitados argumentando que o dinheiro seria essencial para iniciar esforços urgentes de modernização, em um cenário onde sistemas autônomos começam a alterar a dinâmica das guerras.

Contudo, a dimensão do aumento financeiro, somada aos cortes nos orçamentos internos, aos custos do conflito no Irã e a projetos bilionários, irritou até os próprios republicanos. Revigorados pelas urnas, os democratas devem estar muito mais motivados para derrubar os planos trilionários da Defesa do que os governistas para defendê-los na atual legislatura.

Secretário de Defesa isolado no Capitólio

De acordo com uma fonte ouvida pela Bloomberg que tem conhecimento do planejamento, ambos os lados estão muito distantes de um acordo. Os democratas, temerosos em serem vistos chancelando o financiamento contínuo da guerra, tendem a aprovar uma cifra limitada a cerca de US$ 1 trilhão, liberando recursos apenas para a modernização legítima que o Pentágono necessita.

O cenário piora na articulação governista. A autoridade encarregada de liderar a aprovação da lei, o secretário Pete Hegseth, já se encontra isolado no Capitólio. O volume de pedidos por sua demissão cresce aceleradamente e uma votação pela abertura de seu impeachment é aguardada para os próximos dias.

Nenhum dos especialistas consultados acredita que o Pentágono obterá o valor integral. Segundo Todd Harrison, do American Enterprise Institute (AEI), a aprovação da política de defesa hoje é um "cara ou coroa". Harrison ressaltou ainda que o ímpeto democrata de mirar Hegseth e de restringir os poderes de guerra presidenciais "poderia descarrilar o processo inteiro".

Aproveitando seu novo poder de barganha, parte da oposição defende a aprovação de apenas mais uma medida provisória antes do final do ano, empurrando as votações definitivas para o novo Congresso — quando terão controle total para moldar os orçamentos de acordo com suas próprias prioridades. "Agora que temos essas grandes maiorias, não sei se precisamos de um projeto de longo prazo. Eu me inclinaria mais por uma solução de curto prazo", declarou o deputado Glenn Ivey, de Maryland, à Bloomberg TV.

Para os democratas, frear os custos da guerra — apontada pelo vice-presidente JD Vance como o motivo da derrota nas eleições legislativas — é pauta urgente. O futuro presidente do Comitê de Serviços Armados da Câmara foi claro: cortar o financiamento do conflito no Oriente Médio será "uma das primeiras coisas que faremos".

As movimentações governistas estão virtualmente estranguladas. O Pentágono havia desenhado o pacote de US$ 1,5 trilhão estimando que US$ 350 bilhões desse total seriam aprovados por meio de uma tramitação alternativa, ancorada exclusivamente na base republicana. Com o Senado democrata contra o projeto e a perda de dezenas de assentos de deputados republicanos que eram considerados favoritos, tornou-se improvável obter o quórum quase perfeito exigido para forçar qualquer aprovação antes da transição.

AutorDiego Pavão
FonteExame
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