Descuido no transporte pode gerar sanções a empresas por terrorismo, diz analista

A designação das facções Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como terroristas pelos Estados Unidos traz riscos para empresas brasileiras, especialmente no setor de transporte, avalia Daniel Linsker, diretor regional para a América Latina da Control Risks, uma consultoria de análise de riscos.
"Todas as grandes empresas terceirizam parte de sua logística e transporte. Existem áreas no Brasil onde essa logística e transporte envolvem pagamentos para usar certas rotas com esses grupos [PCC e CV]", diz Linsker, em conversa com a EXAME.
"Por essa lógica, uma empresa poderia ser acusada de financiar o terrorismo por usar uma empresa que você sabe estar fazendo pagamentos a um desses grupos. Na verdade, você nem precisa saber. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos poderia acusá-lo de desconhecer que pagamentos estavam sendo feitos a esses grupos", prossegue.
Baseado na Cidade do México, Linsker é mestre em Política Comparada pela London School of Economics e já trabalhou em Londres e Bogotá. Na entrevista, ele fala ainda dos riscos aos bancos e dos impactos esperados pela Guerra do Irã e pelas eleições no Brasil. Leia mais trechos a seguir.
Com a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos, quais são os principais riscos que essa designação representa para o Brasil?
Ser acusado de financiar o terrorismo tem um peso muito significativo. É um risco jurídico diferente do que havia antes. O Comando Vermelho e o PCC já estavam na lista de sanções dos Estados Unidos. A diferença é que, antes, as penalidades eram civis e financeiras. Agora estamos falando de penalidades criminais e da possibilidade de as pessoas irem para a prisão.
Há um risco operacional. Se você estiver em algumas áreas do Brasil onde esses grupos atuam com muita força, precisa considerar como operar e se poderá operar. O que tentamos dizer aos clientes é que não devemos exagerar, não é o fim do mundo, mas também não é como antes.
Qual a principal medida que uma empresa deve tomar agora para se proteger desse cenário?
A primeira coisa é reavaliar o risco, identificar onde ele existe e onde pode se materializar, e revisar os controles. O ponto de maior risco está na cadeia de suprimentos. Vou dar um exemplo muito relevante para o Brasil: o uso de transportadoras. Todas as grandes empresas terceirizam parte de sua logística e transporte. Existem áreas no Brasil em que essa logística e esse transporte envolvem pagamentos a esses grupos [PCC e CV] para usar certas rotas.
Por essa lógica, uma empresa poderia ser acusada de financiar o terrorismo por usar uma empresa que você sabe que está fazendo pagamentos a um desses grupos. Na verdade, você nem precisa saber. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos poderia acusá-lo de desconhecer que pagamentos estavam sendo feitos a esses grupos.
Nas áreas de fronteira do Brasil, essa prática é muito comum. Se alguém entrar com um processo, é muito fácil para o juiz dizer: "Ei, mas todo mundo no Brasil sabe que, sei lá, no Pará ou em algum lugar, em certas áreas, os caminhoneiros pagam essas pessoas. Por que você não fez nada a respeito?"
Há uma questão adicional, que os americanos chamariam de cegueira ou ignorância deliberada. Muitos gerentes decidiram que é melhor não investigar, não perguntar, então eles não sabem o que está acontecendo. Isso é extremamente perigoso agora, pois o risco é muito maior.
Em junho, tivemos sanções americanas ligadas ao combate ao terrorismo, contra pessoas e empresas brasileiras, por enriquecimento ilícito decorrente de lavagem de dinheiro nos Estados Unidos. Esse tipo de sanção também pode trazer riscos ao sistema financeiro brasileiro a longo prazo?
Algo parecido aconteceu no México. O Departamento do Tesouro dos EUA, que monitora bancos, sancionou três bancos e instituições mexicanas. Sem apresentar muitas provas, elas foram acusadas de estarem ajudando a lavar dinheiro para grupos terroristas e de terem ligações com a China, porque processaram transações com entidades chinesas que estariam envolvidas com X e Y. Então, eles emitiram uma sanção dizendo: "Instituições financeiras americanas têm um mês para parar de fazer transações com essas instituições mexicanas". Em seguida, essas três instituições faliram.
No caso do México, se os Estados Unidos atingirem o sistema financeiro mexicano com muita força, o país também será impactado devido à conexão entre os Estados Unidos e o México. Não é o mesmo com o Brasil. Seria muito fácil para os Estados Unidos dizerem: "Ei, Bradesco ou Safra, qualquer um desses, vocês estão facilitando a lavagem de dinheiro em nome de entidades terroristas". Acho que a probabilidade disso acontecer é baixa. Mas temos que considerar com muita cautela.
Como os bancos podem reagir a este risco?
É algo que vivenciamos em nosso trabalho com bancos. Eles foram os primeiros a se assustar. Mas os meses se passaram e, de certa forma, os bancos têm mais facilidade, porque não têm necessariamente essas taxas de transporte e coisas do tipo. São transações financeiras que podem ser controladas, monitoradas, das quais se podem exigir documentos, congelar. Então, é muito mais fácil para eles tomarem medidas.
Acho que um fardo de conformidade maior está chegando aos bancos. Eles terão que ser muito cuidadosos em certas coisas. Para as fintechs, há risco porque facilitam transações ponto a ponto, com menos revisões. Então, é muito fácil para o Departamento de Justiça dos EUA dizer: "Ei, vocês estão facilitando transferências ilícitas de dinheiro entre grupos do crime organizado que são terroristas".
Os bancos e fintechs teriam que fazer uma investigação mais aprofundada sobre quem são seus clientes? Como é possível saber se uma transação está indo para o terrorismo?
Os bancos definitivamente precisam ajustar o que chamam de programas " Conheça Seu Cliente". Esses programas precisam ser ajustados para refletir esse novo risco. E também observar, por exemplo, que os bancos têm muitos controles automatizados, como alertas que o sistema emite. Os bancos precisam se reunir e revisar esses tipos de transações ou os comportamentos que deveriam gerar novos alertas.
No caso de PCC e CV, como o banco vai saber se um cliente faz parte de uma facção?
Como banco ou instituição financeira, será preciso demonstrar que fez o que era razoável. Seria impossível um banco realizar uma investigação aprofundada de todos os seus clientes. Então, o caminho é ajustar seus controles. Por exemplo: existem certas áreas do país onde a prevalência do PCC é maior. E sabe-se que o PCC realiza certos tipos de transações. Assim, pode-se implementar um controle adicional, como ‘contas abertas em certos estados têm um período de retenção de 24 horas’, ou restrições a transações de determinados valores com uma certa frequência. Você não espera que alguém, em uma área remota e com baixa penetração bancária, faça 10 transações por mês. A maioria das pessoas, mesmo em São Paulo, faz quatro ou cinco transações por mês. Se você, de repente, tem uma conta que faz 10 transações por semana, há um alerta.
O que essas organizações precisam fazer é começar a pensar em quais controles usar, como ajustar esses controles. Mas, ao mesmo tempo, não haverá processos judiciais em todos os casos. Se você vende pão ou Coca-Cola em certas áreas e o PCC compra da sua loja, nada vai acontecer. Eles não vão chegar e dizer: "Ei, Coca-Cola, você vendeu para um cartel”. Mas você precisa ser capaz de se defender perante as autoridades, explicando o que fez e onde fez essa análise de risco.
Carros destruídos em barricada durante operação contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, em outubro de 2025 (Mauro Pimentel/AFP)
Quais riscos vê no Brasil nos próximos meses, especialmente com a eleição que teremos aqui em outubro e com o aumento de tarifas dos Estados Unidos?
Com a eleição brasileira, há muitos riscos por causa da polarização. Não me surpreenderia se a eleição no Brasil fosse muito acirrada, o que provavelmente será. Dada a polarização existente, com esses incidentes de violência política, com algum tipo de, digamos, rejeição dos resultados com convocações para ir às ruas ou realizar ações de fato. Essas coisas podem gerar muita tensão.
Imagino que os Estados Unidos vão intervir mais ativamente na eleição, ou buscar intervir mais ativamente na eleição em favor de Bolsonaro, claramente. Poderia haver um erro de cálculo do governo Lula, na forma como responde a Trump. O Brasil tem administrado bem essa relação com os Estados Unidos. Não vale a pena reagir a tudo o que o presidente Trump diz. Quando as tarifas ou restrições são impostas a produtos como carne e soja no Brasil, eles imediatamente olham para a China, o Vietnã, e dizem: "Vou vender o excedente para vocês". E está vendendo, muito melhor do que antes. Nem tudo é negativo.
No final de 2025, o governo dos Estados Unidos anunciou uma nova doutrina para a América Latina que prevê mais intervenções americanas na região. Quais riscos essa estratégia traz?
Existem alguns riscos. A primeira é a incapacidade de prever o que os Estados Unidos vão fazer. Se olhar para a história, países como a Colômbia, que eram fortes aliados dos Estados Unidos na região, de repente um presidente assume o poder e Donald Trump não gosta, e o relacionamento se rompe. Você tem um problema em que o pragmatismo ou a lógica não prevalecem.
O melhor exemplo disso é que todos aqui na América do Norte entendem os benefícios do acordo de livre-comércio entre o Canadá, os Estados Unidos e o México. Todos dizem que não faz sentido renegociá-lo, reabri-lo, revisá-lo ou cancelá-lo, e o presidente Trump diz: "Eu não gosto dele, vamos revisá-lo”. Então, ele se torna muito imprevisível. E quando você tem um governo que usa as armas à sua disposição, desde armas físicas como a intervenção contra Maduro, ataques territoriais no Equador contra os cartéis, ataques a barcos no Caribe. Eles estão dispostos a usar a força na região sem nenhum problema. Isso já é um pouco arriscado.
A segunda coisa é que tudo é político. De um lado, você diz: "Vou combater o narcotráfico e não gosto dos cartéis." Mas, por outro lado, você concede um indulto ao ex-presidente de Honduras porque quer que o partido dele ganhe a eleição; então concede a ele um indulto, apesar de ele ser um narcotraficante já julgado e condenado nos Estados Unidos.
Essa estratégia, de aumento do poder americano nas Américas, deve funcionar?
Talvez essa abordagem seja contraproducente. Os Estados Unidos querem que o Hemisfério Ocidental volte a ser seu campo de atuação. “Eu estou no comando aqui. Russos, chineses e iranianos estão fora”. O problema é que eles estão recorrendo a táticas baratas, nada além de força. Tirando a Argentina, onde deram dinheiro para seus negócios, quase tudo se resume a ameaças, de "ou você faz o que eu quero ou eu te bato".
Há países, como o México e a Colômbia, que, considerando sua posição e economia, precisam permanecer alinhados com os Estados Unidos. Mas veja o Brasil, a Argentina, o Chile, onde o investimento chinês e o comércio com a China são maiores do que com os Estados Unidos. Então você diz: "Ei, por um lado, esse cara está me dizendo que ou estou com ele ou contra ele”, mas tudo o que ele faz é me ameaçar, impor sanções e tarifas sobre todos os meus produtos. Por outro lado, tenho os chineses que estão investindo, colocando dinheiro, e eles têm seus problemas, mas pelo menos eles são aliados mais confiáveis.
Como vê as relações entre México e EUA atualmente?
O México não tem alternativa e precisa recorrer aos Estados Unidos. 90% das exportações mexicanas são destinadas aos Estados Unidos. Não há outro jeito. No fim das contas, não há prosperidade para o México e o Canadá se eles brigarem com os Estados Unidos. E vice-versa. Os Estados Unidos, mesmo que o presidente Trump odeie isso, precisam que o Canadá e o México continuem crescendo nas taxas em que têm crescido.
Houve um anúncio aqui de que a Toyota está expandindo uma de suas linhas de montagem em San Antonio, no Texas. Trump diz que é um exemplo de que as tarifas funcionam. O que não está sendo percebido é que a Toyota diz que esse movimento depende da empresa poder continuar comprando componentes de carros no México sem tarifas para poder fabricar esses carros. Talvez eles construam a linha de montagem em San Antonio, mas ainda assim, 90% dos componentes virão do Canadá e do México.
Como os desdobramentos da Guerra do Irã podem afetar a América Latina?
Depende muito do país, porque o principal impacto agora é o preço da energia. Um exportador de petróleo, no fim das contas, pode se dar melhor. Mas se o país é um importador de petróleo, vai sofrer.
Além disso, haverá sofrimento com os fertilizantes, que representam um impacto residual agora, mas as colheitas que estão começando agora, com o aumento dos preços dos fertilizantes, se traduzirão em inflação em seis meses. O produtor que está pagando mais pelo fertilizante hoje vai repassar esse custo ao consumidor quando a colheita chegar.
Em países com indústria própria, como o Brasil, talvez não sejam tão impactados.
Governos populares, mesmo com bancos centrais independentes, ainda podem enfrentar um aumento da inflação devido a fatores fora de seu controle e sobre os quais não podem fazer nada. Houve países asiáticos que, quando a guerra começou, ficaram sem gasolina. Governos que eram superpopulares, que estavam indo bem, de repente tiveram índices de aprovação zero, conflitos sociais, instabilidade política. Você pode ter cenários como esse em certos países, especialmente os mais vulneráveis, que quase sempre são, infelizmente, os menores e mais pobres. Países como Bolívia, Paraguai e Equador podem, de repente, sofrer choques muito fortes.
