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BrasilMPOL
05/10/2026
4 min

Desejo de mudança e reação ao Judiciário impulsionam a oposição no 1º turno, diz Carlos Pereira

Professor da FGV aponta que foco na rejeição do adversário e falha em capturar o sentimento de renovação complicam a reação governista no segundo turno

Desejo de mudança e reação ao Judiciário impulsionam a oposição no 1º turno, diz Carlos Pereira
RESUMO +

O primeiro turno das eleições de 2026 favoreceu Flávio Bolsonaro neste domingo, 4, após o desejo de mudança e a reação a decisões judiciais superarem as projeções das pesquisas, segundo Carlos Pereira, professor titular da instituição FGV EBAPE. Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta o desafio de reverter a desvantagem no segundo turno.

A apuração do primeiro turno das eleições de 2026 desenhou um cenário eleitoral em que o desejo de mudança do eleitorado e a reação a episódios institucionais superaram as projeções iniciais das pesquisas de opinião. A avaliação é do cientista político e professor titular da FGV EBAPE, Carlos Pereira, que participou da cobertura ao vivo da EXAME neste domingo, 4.

Segundo o analista, o resultado consolida um ambiente de contestação política. Há um momento favorável a Flávio Bolsonaro (PL) e um cenário desafiador para a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na busca por reverter a desvantagem no segundo turno.

A força demonstrada pela oposição nos principais colégios eleitorais do país — sobretudo no Centro-Sul — refletiu um desalinhamento entre a leitura estratégica do Palácio do Planalto e o real sentimento das ruas no trecho final da disputa, comentou o especialista.

Para o especialista, há também uma dificuldade das pesquisas em capturar a intensidade desse movimento. A atração de pautas de reação institucional, combinada à consolidação do voto útil, reconfigurou o tabuleiro eleitoral e impôs um novo equilíbrio de forças para a etapa decisiva do pleito. Veja as considerações de Carlos Pereira:

A busca por futuro e o sentimento de mudança

Para Carlos Pereira, um dos erros centrais da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi focar excessivamente na rejeição ao adversário em vez de projetar expectativas para o futuro. Embora a economia seja tradicionalmente o principal pilar de sustentação de um governo que busca a reeleição, a percepção de aperto no orçamento das famílias enfraqueceu esse discurso.

"A eleição é muito sobre o futuro e sobre a esperança. A campanha governista se preocupou o tempo todo em falar mais do opositor para explorar a rejeição. Mas o sentimento do eleitorado era de troca e de mudança. Quando o governo precisa recorrer a medidas extemporâneas na reta final para tentar mobilizar sua base, isso já demonstra a dificuldade em capturar o que o eleitor estava sentindo", avalia Pereira.

O analista pontua que levantamentos qualitativos promovidos por institutos de pesquisa já sinalizavam que a maioria da população inclinava-se por uma renovação, um dado que não foi devidamente absorvido pela estratégia do Palácio do Planalto.

O 'voto de reação' e o papel do Judiciário

Outro ponto decisivo para a consolidação da vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno foi a capacidade de transformar a contestação a decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em um potente motor de engajamento eleitoral.

De acordo com o professor da FGV, discursos proferidos em debates e transmissões ao vivo na reta final serviram como catalisadores para o voto útil e o comparecimento massivo da militância conservadora às urnas:

"Não foi apenas a migração de voto útil de candidaturas menores. Houve uma mudança real de intenção do eleitor em direção ao candidato da oposição. O discurso contra decisões do Judiciário e a favor de uma reação institucional funcionou como uma onda que mobilizou o eleitorado, especialmente nos grandes colégios do Centro-Sul, como São Paulo e Minas Gerais."

Na avaliação de Carlos Pereira, reverter uma diferença desfavorável na segunda etapa do pleito é uma tarefa complexa sob o ponto de vista matemático e psicológico. O avanço da oposição nos maiores colégios eleitorais cria uma percepção de consenso em torno da vitória que dificulta a retenção e atração de apoios políticos e da própria militância.

"Virar um quadro desses é extremamente difícil. O governo precisará produzir uma onda de engajamento e de mudança de percepção muito forte para reverter a tendência. Além disso, a nova configuração do Congresso e do Senado emite um sinal claro de que o sistema político e o Judiciário terão de absorver o recado dado pelas urnas", conclui o especialista.

AutorDa Redação
FonteExame
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