Desgaste de Lula e tensão com STF pesam mais que economia favorável, diz economista
Sérgio Vale espera reação positiva dos mercados ao resultado, mas alerta para o risco de a disputa com o STF tirar o foco do ajuste fiscal e da agenda econômica

O resultado do primeiro turno da eleição presidencial, neste domingo, 4, expôs um desgaste político de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que, na avaliação de Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, foi mais determinante para o avanço de Flávio Bolsonaro (PL) do que a situação econômica do país. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro terminou a votação com 47,03% dos votos, contra 45,16% de Lula, em uma virada que surpreendeu o economista e que foi reforçada pelo voto útil na reta final, o antipetismo e pela reação de parte do eleitorado aos conflitos envolvendo o Judiciário, em sua avaliação.
"Era esperada uma diferença de alguns pontos percentuais a favor de Lula. O que aconteceu foi o contrário: Flávio terminou com dois pontos de vantagem, enquanto houve uma desidratação dos outros candidatos", afirmou Vale à EXAME.
O economista atribui parte relevante da virada à migração de votos de candidatos de direita para Flávio. Mas ressalta que a dimensão do resultado não é explicada apenas pela transferência de votos na reta final.
Para Vale, Lula chega ao segundo turno comum desgaste que vai além da percepção sobre a economia. O ponto chama atenção porque o cenário econômico, isoladamente, não apontava para uma derrota do presidente.
“A situação econômica não está desastrosa. Pelo contrário, o cenário está relativamente positivo. Temos uma taxa de desemprego que não está nada alta, a inflação está relativamente baixa e a economia ainda cresce”, afirmou. "É um cenário que a situação não está dramática para o brasileiro médio. Então a economia em tese era para favorecer o Lula, mas acabou não favorecendo justamente por conta desse cenário político conturbado", complementou.
STF ajuda Flávio Bolsonaro a canalizar insatisfação
Um dos elementos que, na avaliação do economista, pesaram contra Lula foi a sucessão de episódios envolvendo o Judiciário durante a campanha. O Supremo Tribunal Federal (STF) passou a ocupar espaço cada vez maior na disputa eleitoral, e Flávio Bolsonaro conseguiu transformar o conflito institucional em parte central de sua mensagem.
Um dos episódios mais emblemático ocorreu na reta final da campanha, quando o ministro Gilmar Mendes determinou a participação de Renan Santos, do Missão, no debate da Globo, depois de Lula decidir não comparecer.
O senador do PL, que inicialmente havia mantido a disposição de participar mesmo sem o petista, mudou de estratégia após decisões judiciais. E a campanha do filho de Bolsonaro explorou o episódio para reforçar a ideia de uma interferência do Supremo na eleição e de um suposto alinhamento institucional em favor de Lula.
O sentimento "anti-STF" também foi marcado pela crise sem precedentes instalada no Supremo deflagrada pelo caso do Banco Master, que tornou pública a divisão entre ministros e aprofundou conflitos e críticas a uma Corte já acusada de intervenção política. "Tudo que aconteceu nas últimas semanas em relação à Justiça foi bastante negativo". disse Vale.
O candidato do PL conseguiu, assim, se apresentar como uma espécie de válvula de escape para um eleitorado que não demonstra apenas insatisfação com o governo federal. "É uma população que tá cansada de certa forma com a política e não só mais no executivo, mas também no judiciário. E vem no Flávio como essa válvula de escape para fazer mudanças do judiciário", disse.A contradição é que Flávio está longe de ser um candidato novo. Advogado, ex-deputado estadual e senador pelo Rio de Janeiro, Flávio tem 45 anos mas iniciou a trajetória política ao 21 anos e exerceu quatro mandatos na Assembleia do Rio de Janeiro (Alerj) até se eleger em 2018 como senador, além de ser o filho mais velho do ex-presidente Bolsonaro.
O que mudou, porém, foi o que o candidato do PL passou a representar para uma parcela do eleitorado a possibilidade de romper com a atual configuração de poder e reagir não apenas ao governo Lula, mas também ao protagonismo que o Judiciário assumiu na política.
"Surge um candidato como Flávio, que coloca um pouco essa ideia de mudança, no sentido do que a população sinaliza com o voto. É uma mudança também em relação ao Supremo. Toda essa posição dos candidatos ao Senado, especialmente, de ter força para ajudar a mudar o Supremo, fazer uma reforma do Judiciário e eventualmente tirar ministros do Supremo, também acaba ajudando nessa posição", afirmou.
Risco é Flávio Bolsonaro deixar economia de lado em meio à disputa com STF
O resultado das urnas também fortaleceu, no Senado, o grupo que defende mudanças na composição do STF e a abertura de processos de impeachment contra ministros da Corte.
A partir do próximo ano, pelo menos 49 senadores deverão apoiar a abertura desses processos, cinco a menos que os 54 votos necessários para atingir dois terços da Casa. Entre os eleitos estão nomes como Michelle Bolsonaro, Bia Kicis, Guilherme Derrite e Carlos Portinho. O PL, partido de Flávio, terá a maior bancada, com 28 senadores, sendo 19 eleitos neste domingo.A composição reforça uma das principais bandeiras do campo bolsonarista para o próximo Congresso, de aumentar a pressão sobre o Supremo e avançar sobre mudanças no Judiciário. Flávio apoiou 29 dos 54 candidatos eleitos para o Senado e sua campanha também trabalhou pela eleição de uma maioria capaz de escolher o sucessor de Davi Alcolumbre na presidência da Casa e dar andamento a pedidos de impeachment de ministros do STF.
Para Sérgio Vale, porém, uma ofensiva prolongada contra a Corte pode ter um custo econômico e institucional relevante.
"Quanto mais tempo relacionados à tentativa de tirar ministros do Supremo, mais você aumenta o risco jurídico do país e mais você perde atenção", afirmou.
A questão ganha peso porque, para o economista-chefe da MB Associados, o principal desafio do próximo governo não estará no STF, mas nas contas públicas. Ofiscal, diz ele, será o problema econômico mais importante de 2027.
"O ajuste fiscal é o mais importante que precisaremos fazer no ano que vem. A grande dúvida é o que vai ser feito", afirmou.
É a mesma preocupação que levou o economista a dizer, em junho, em entrevista à Revista EXAME, que “2027 está com cheiro de 2015”. Na ocasião, Vale alertava que o problema não seria necessariamente uma recessão como a daquele período, mas uma deterioração fiscal capaz de pressionar o câmbio, elevar o risco e dificultar a estabilização da dívida.
Agora, diante do resultado eleitoral, a preocupação passa a ser também política: se Flávio vencer, terá de decidir como usar o capital obtido nas urnas. "Tem que aproveitar esse momento, se for de fato o Flávio, de ter um Congresso favorável ao presidente, se ele for eleito, para aprovar as reformas tão duras e difíceis, mas logo no começo do mandato", disse.
Para Vale, a reforma fiscal deveria ser a prioridade. “A reforma principal, certamente, a reforma fiscal é mais importante.” A reforma administrativa também poderia avançar, enquanto mudanças mais profundas na Previdência teriam menos espaço.
O risco é que a agenda econômica fique em segundo plano diante de uma eventual guerra institucional. "O risco tem é um foco muito grande em questões políticas e se deixar a questão econômica de lado", afirmou.Mercado reage à surpresa, mas espera plano econômico
No curto prazo, a leitura de Vale é deuma reação positiva dos mercados ao resultado de Flávio. "É bem provavelmente a queda de câmbio e a alta de bolsa", afirmou. Segundo Vale, o movimento seria especialmente provável porque o resultado contrariou a expectativa predominante das pesquisas.
O problema para os investidores começa depois da reação inicial. "Agora a dúvida fica justamente nisso, que ajuste ficar vai vir pela frente, o que que vai ser feito", disse.
Vale não vê ainda clareza suficiente sobre como Flávio conduziria a economia. "Não está muito claro o que que o Flávio vai conseguir fazer porque até agora não teve pensamento mais organizado nesse sentido".
As declarações dadas durante a campanha também não teriam sido suficientes para esclarecer o caminho. "As falas não foram direcionadas muito nesse sentido", afirmou o economista. "Mas entre novembro, dezembro, teremos um pouco de ideia, das escolhas dos nomes e direcionamento das pautas econômicas", conclui o economista.
