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17/10/2026
11 min

Desmatamento cai 41% na Amazônia e 23% no Cerrado e atinge menor nível da história

Monitoramento por satélite indica diminuição da área desmatada entre agosto de 2025 e julho de 2026, mas crise ambiental de outubro evidencia desafios que vão além da derrubada da floresta

Desmatamento cai 41% na Amazônia e 23% no Cerrado e atinge menor nível da história
RESUMO +

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados nesta sexta-feira, 16, mostram que o desmatamento na Amazônia caiu 41,8% entre agosto de 2025 e julho de 2026, para 3.335 km², menor nível desde 1988. No Cerrado, a supressão recuou 23,8%, para 5.516,69 km², enquanto a agência espacial americana Nasa alertou para incêndios agravados pela seca no Amazonas.

O desmatamento na Amazônia caiu 41,8% entre agosto de 2025 e julho de 2026, atingindo o menor patamar desde o início do monitoramento, em 1988. A área desmatada passou de 5.731 km² no período anterior para 3.335 km², segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados pelo governo federal nesta sexta-feira (16).

A redução também foi registrada no Cerrado, onde a supressão de vegetação nativa recuou 23,8%, passando de 7.235,27 km² para 5.516,69 km². É o menor índice da série histórica do bioma, iniciada em 2001.

Os resultados representam novos mínimos nos dois levantamentos, mas ocorrem em meio a um cenário de pressão ambiental na região amazônica. Enquanto os indicadores apontam queda na derrubada da vegetação, o Amazonas enfrenta uma sequência de incêndios florestais, agravada pelas condições de seca associadas ao El Niño, fenômeno climático que altera os padrões de temperatura e precipitação em diferentes regiões do planeta.

A Agência Espacial Americana (Nasa) alertou, na quinta-feira (15), que essas condições já tornam a floresta mais suscetível ao fogo e podem favorecer uma temporada prolongada e severa de queimadas.

Os dados de desmatamento e de incêndios, porém, medem fenômenos diferentes. A redução da área de vegetação suprimida não impede que florestas já degradadas ou áreas anteriormente abertas sejam atingidas pelo fogo.

Além disso, o levantamento do desmatamento considera o período encerrado em julho de 2026, enquanto os incêndios que atingem o Amazonas neste mês de outubro ocorreram depois desse intervalo.

Pará, Mato Grosso e Amazonas concentram maior desmatamento

Na Amazônia Legal, o Pará permaneceu como o estado com a maior área desmatada, apesar da redução de 45,3% em relação ao período anterior.

Foram registrados 1.130 km² de supressão de vegetação, ante 2.064 km² entre agosto de 2024 e julho de 2025.

Mato Grosso aparece em seguida, com 849 km², redução de 46,7%. O Amazonas ocupa a terceira posição, com 525 km², queda de 46,4%.

Juntos, os três estados responderam por aproximadamente 75% de toda a área desmatada na Amazônia Legal no período.

A redução ocorreu na maior parte dos estados monitorados, com exceção de Roraima, onde houve uma pequena alta de 0,4%, de 285 km² para 286 km².

O Tocantins apresentou a maior queda percentual, de 73,3%, seguido pelo Amapá, com redução de 52,9%.

Os dados fazem parte do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), sistema do Inpe responsável pelas taxas anuais oficiais de supressão da vegetação.

No caso da Amazônia, a taxa apresentada é uma estimativa baseada em imagens prioritárias. O resultado consolidado, que considera a totalidade das imagens, será divulgado no primeiro semestre de 2027.

Até então, o menor índice da série histórica havia sido registrado em 2012, quando a área desmatada chegou a 4.571 km².

Cerrado tem queda de 23,8%, mas Matopiba concentra a maior perda de vegetação

No Cerrado, o desmatamento também atingiu o menor nível desde o início da série histórica, em 2001.

Foram registrados 5.516,69 km² de vegetação nativa suprimida entre agosto de 2025 e julho de 2026, redução de 23,8% em relação ao período anterior.

O menor resultado até então havia sido observado em 2019, quando o bioma registrou 6.319 km².

Apesar da diminuição, a perda de vegetação permanece concentrada no Matopiba, região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que respondeu por 74,3% de todo o desmatamento registrado no Cerrado.

O Maranhão liderou a supressão da vegetação, com 1.718,59 km², seguido pelo Tocantins, com 1.263,06 km², e pelo Piauí, com 625,24 km².

Entre os quatro estados do Matopiba, o Piauí apresentou a maior redução percentual, de 53,7%, enquanto a Bahia registrou queda de 38%.

Diferentemente da Amazônia, a taxa do Cerrado já corresponde ao levantamento consolidado, uma vez que o mapeamento contemplou todo o território do bioma.

O monitoramento considera diferentes tipos de vegetação nativa, incluindo formações florestais, savânicas e campestres.

Queimadas avançam na Amazônia apesar da queda no desmatamento

A redução do desmatamento ocorre em um momento de agravamento das queimadas no Amazonas. Nesta quinta-feira (15), a Nasa alertou que a seca associada ao El Niño está aumentando a vulnerabilidade da floresta aos incêndios e pode resultar em uma temporada prolongada de fogo.

Segundo a agência espacial, satélites começaram a detectar aumentos expressivos na presença de fumaça e de focos de incêndio na região amazônica.

Em Manaus, a concentração de fumaça provocou uma deterioração da qualidade do ar, levando à suspensão de aulas em escolas e universidades e de atividades ao ar livre.

Douglas Morton, cientista da Nasa, relacionou os incêndios nas proximidades de Manaus e Santarém, no Pará, a uma sequência mais ampla de queimadas em regiões tropicais.

A agência também apontou semelhanças com padrões observados durante o El Niño de 2015 e 2016 e novamente em 2023, quando a Amazônia enfrentou uma seca histórica.

Naquele ano, a redução das chuvas provocou uma queda acentuada nos níveis dos rios, interrompeu cursos d'água e isolou comunidades ribeirinhas, com impactos sobre o transporte fluvial, o turismo e as atividades econômicas locais.

Em outubro de 2026, a emergência dos incêndios levou à mobilização de uma força-tarefa federal no Amazonas.

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), mais de 300 focos de incêndio florestal foram extintos nos últimos cinco dias pelas equipes que atuam no estado.

Após um pico de 494 novos focos em 10 de outubro, o Amazonas registrava 188 focos nesta sexta-feira (16), segundo o painel Queimadas do Inpe.

A operação mobiliza 330 brigadistas em equipes coordenadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Também foram deslocadas para o estado 11 aeronaves, 32 veículos terrestres e oito embarcações.

Segundo o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, os focos de incêndio resultam de ação humana intencional. A Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e a Polícia Civil do Amazonas investigam a origem das ocorrências, inclusive a possibilidade de atuação organizada por trás dos incêndios.

Embora a seca favoreça a propagação das chamas, as investigações buscam identificar as ações humanas responsáveis pelo início do fogo.

Por que o desmatamento pode cair enquanto as queimadas aumentam?

A aparente contradição entre os indicadores está relacionada às diferenças entre desmatamento, degradação florestal e ocorrência de incêndios.

O Prodes mede a supressão da vegetação nativa, enquanto os sistemas de monitoramento de queimadas identificam sinais de fogo ativo por meio de satélites.

Isso significa que uma floresta pode ser atingida por incêndios e sofrer perda de qualidade ambiental sem necessariamente ter toda a sua área contabilizada como desmatamento.

O fogo também pode atingir áreas já abertas. Em situações de degradação progressiva, no entanto, a perda de cobertura e o colapso da estrutura florestal podem resultar em áreas posteriormente classificadas como desmatadas pelo Prodes.

Outro aspecto é que um foco de calor não equivale necessariamente a um incêndio individual nem representa uma medida da área queimada. Um mesmo incêndio pode produzir diversas detecções por satélite, e a extensão da área atingida depende de levantamentos específicos.

Assim, os resultados de outubro não podem ser diretamente comparados às taxas anuais de desmatamento, tanto pelas diferenças metodológicas quanto pelos períodos analisados.

Fiscalização ambiental soma R$ 11,8 bilhões em multas desde 2023

A redução das taxas é apresentada pelo governo federal no contexto de uma estratégia que reúne fiscalização, monitoramento por satélite, ordenamento territorial e incentivos econômicos à conservação.

As iniciativas estão organizadas em dois instrumentos principais: o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) e o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Bioma Cerrado (PPCerrado), restabelecidos em 2023.

Entre 2023 e 2026, o Ibama realizou 76.095 ações de fiscalização em todo o país e lavrou 25.101 autos de infração relacionados à flora, totalizando R$ 11,8 bilhões em multas aplicadas.

No mesmo período, o órgão embargou 18.630 km² e registrou 15.306 termos de apreensão, com valor de R$ 2,6 bilhões, além de 4.088 termos de destruição, avaliados em R$ 1,26 bilhão.

Já o ICMBio lavrou aproximadamente 11,9 mil autos de infração em unidades de conservação federais, somando R$ 2,4 bilhões em multas, e mais de 5 mil termos de embargo, que abrangem uma área superior a 5 mil km².

Os valores representam penalidades aplicadas pelos órgãos ambientais e não devem ser confundidos com recursos efetivamente arrecadados.

O governo também direcionou investimentos para ampliar a capacidade de fiscalização. O projeto Fortalecimento da Fiscalização Ambiental para o Controle do Desmatamento Ilegal na Amazônia (FortFisc), do Ibama, recebeu aprovação de R$ 825,7 milhões do Fundo Amazônia.

Os recursos serão destinados à fiscalização remota, modernização de sistemas, aquisição de equipamentos, meios aéreos e gestão.

Em setembro de 2025, o Ibama também nomeou 460 novos servidores, dos quais 330 são analistas ambientais.

Governo amplia investimentos em monitoramento e conservação

Além da fiscalização, a estratégia federal inclui iniciativas de gestão territorial, regularização ambiental e financiamento de atividades econômicas associadas à conservação.

Na Amazônia Legal, o programa União com Municípios reúne R$ 780 milhões em execução nos 80 municípios que aderiram desde 2023.

Desse total, 70 municípios já receberam escritórios de governança, enquanto mais de 2 mil equipamentos e itens de apoio foram financiados, incluindo veículos, embarcações, drones e computadores.

O programa também registra mais de 500 pessoas capacitadas e cerca de 4 mil agricultores familiares atendidos por pagamentos por serviços ambientais, mecanismo de remuneração por atividades que contribuem para a conservação dos recursos naturais.

No campo do ordenamento territorial, o governo informa que, desde janeiro de 2023, foram criadas 18 unidades de conservação federais e ampliadas outras oito, somando aproximadamente 25 mil km².

Também foram homologadas 20 terras indígenas, que abrangem cerca de 32 mil km², enquanto aproximadamente 150 mil km² de glebas públicas federais estão em processo de destinação.

Na frente de incentivos econômicos, o Plano Safra 2026/2027 incorporou descontos de juros para produtores rurais que atendam a determinadas condições ambientais.

A redução pode chegar a um ponto percentual para produtores que mantenham a situação ambiental regularizada e adotem práticas agropecuárias sustentáveis.

O Bolsa Verde, programa de transferência de recursos a famílias de baixa renda associada à conservação ambiental, alcançou 86.635 famílias em 139 municípios desde 2023, com R$ 420 milhões transferidos.

Já o Floresta+ Amazônia, voltado ao pagamento por serviços ambientais, possui mais de R$ 500 milhões aprovados para implementação, incluindo pagamentos e outras atividades.

Fundo Amazônia soma R$ 7,8 bilhões comprometidos

O Fundo Amazônia, instrumento de financiamento para prevenção e controle do desmatamento e apoio à conservação, contabilizava 160 projetos aprovados e R$ 7,8 bilhões comprometidos em outubro de 2026, em valores corrigidos pela inflação.

Os projetos alcançam 75% dos municípios da Amazônia Legal. Desde 2023, o fundo também destinou mais de R$ 550 milhões aos corpos de bombeiros da Amazônia Legal, do Cerrado e do Pantanal, em iniciativas relacionadas à prevenção e ao combate aos incêndios.

Outra frente anunciada nesta sexta-feira (16) é a aprovação de R$ 147,6 milhões para o Sistema Integrado para Monitoramento da Vegetação Natural dos Biomas Brasileiros (SIM-Biomas), projeto financiado pelo Fundo Amazônia e coordenado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em articulação com o MMA.

Com prazo de execução de 60 meses, a iniciativa prevê o uso de inteligência artificial para integrar informações dos sistemas Prodes e Deter, ferramenta do Inpe que emite alertas para orientar a fiscalização ambiental.

Dia da Amazônia: 'Não é preciso desmatar mais nenhum hectare para desenvolver o bioma'

A proposta é ampliar a produção de dados do Prodes ao longo do ano e expandir o monitoramento do Deter para a Caatinga, Mata Atlântica e Pampa.

O projeto também prevê aumentar a resolução do mapeamento de áreas queimadas para 30 metros em todos os biomas. Atualmente, fora do Cerrado, esse levantamento tem resolução de um quilômetro.

A mudança permitirá uma observação mais detalhada das áreas atingidas pelo fogo, além da criação de indicadores de risco de curto prazo para desmatamento e degradação ambiental.

As medidas se somam a outros instrumentos de financiamento climático. O Fundo Clima, que tinha orçamento reembolsável de R$ 14 bilhões em 2025, passou a contar com R$ 27 bilhões em 2026, com metas de destinação de 25% dos recursos às regiões Norte e Nordeste e 20% à adaptação climática.

Já o Eco Invest Brasil, iniciativa do Ministério da Fazenda em parceria com o MMA, contabiliza R$ 190 bilhões mobilizados em diferentes estágios para projetos de transformação ecológica, incluindo restauração florestal, bioeconomia, infraestrutura, agropecuária sustentável e inovação.

A divulgação dos novos índices de desmatamento coincide, assim, com a necessidade de acompanhar outras formas de pressão sobre os biomas brasileiros.

AutorLetícia Ozório
FonteExame
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