Dia D para o turismo de eventos em Florianópolis: leilão define futuro do CentroSul
Leilão da concessão por 35 anos será realizado nesta sexta-feira, na B3, em São Paulo, com outorga mínima de R$ 16,5 milhões e disputa pelo maior lance

O CentroSul chega nesta sexta-feira, 18 de setembro, ao que pode ser considerado o dia D do turismo de eventos de Florianópolis. E a coincidência ajuda a dimensionar o tamanho do ativo que estará em disputa.
Enquanto mais de 4 mil participantes de um congresso de medicina laboratorial circulam pelo complexo, na região central, a cerca de 700 quilômetros dali investidores estarão reunidos na B3, em São Paulo, para definir quem administrará o principal centro de convenções da Capital pelos próximos 35 anos. O congresso em andamento estima permanência média de cinco dias dos visitantes na cidade.
A sessão pública começa às 14h. O valor mínimo da outorga é de R$ 16,5 milhões, mas esse será apenas o ponto de partida. As empresas poderão elevar as propostas durante a disputa, e vencerá provisoriamente quem oferecer a maior outorga. Depois, a documentação do primeiro colocado será analisada; cumpridas as exigências do edital, o vencedor será formalmente declarado.
Há uma diferença importante em relação à ideia de uma simples “abertura de propostas”. Os documentos e as propostas iniciais já deveriam ter sido entregues na segunda-feira, 14 de setembro, entre 10h e 12h, presencialmente na B3 ou pela plataforma da bolsa. Sexta-feira é a etapa em que a competição financeira efetivamente aparece diante do mercado. E é justamente aí que está uma das informações mais aguardadas da disputa: quantos grupos realmente entraram no jogo.
Até o fechamento desta reportagem, nesta quarta-feira, 16 de setembro, o número de propostas formalmente protocoladas não aparecia nas publicações oficiais e nos materiais públicos consultados para esta apuração.
O dado disponível até então era outro: oito grupos haviam procurado informações sobre o edital, segundo a Prefeitura. Antes do fechamento do prazo, reportagens apontavam expectativa de pelo menos sete potenciais concorrentes.
Entre os interessados mencionados publicamente estavam empresários ligados ao Expocentro de Balneário Camboriú, administradores do Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB), de Brasília, e representantes da atual operação do CentroSul. Havia ainda interessados de outros estados e um grupo com participação minoritária estrangeira. Interesse, porém, não significa proposta apresentada — e a relação definitiva dos concorrentes só deve ser tratada como fato quando formalmente confirmada.
A quantidade de participantes é relevante porque pode determinar o tamanho do ágio. Antes do encerramento das propostas, a secretária municipal de Licitações, Contratos e Parcerias, Katherine Schreiner, afirmou que a competição poderia levar a outorga para acima de R$ 20 milhões. Como o modelo permite elevar os valores durante o leilão, uma disputa com vários grupos pode ultrapassar rapidamente o preço dos R$ 16,5 milhões estabelecidos como piso.
Existe também uma informação circulando nos bastidores sobre a possibilidade de propostas próximas ou superiores a R$ 50 milhões. Até esta quarta-feira, porém, não há confirmação pública ou documental desse patamar.
E existe um número que pode alimentar alguma confusão: os investimentos obrigatórios previstos para o novo CentroSul somam R$ 53,4 milhões. Esse valor é de obras e melhorias e não corresponde à outorga que será disputada na B3.
Mesmo pelo lance mínimo, o tamanho do compromisso financeiro ajuda a explicar por que o leilão é acompanhado de perto pelo mercado. Além dos R$ 16,5 milhões iniciais, o futuro operador terá de pagar ao município uma outorga anual de R$ 250 mil, corrigida pelo IPCA. Sem considerar os reajustes, isso representa mais R$ 8,75 milhões durante o contrato. Somados aos investimentos obrigatórios, os compromissos partem de quase R$ 79 milhões, antes de custos de operação, manutenção e de eventual ágio na disputa.
O edital também coloca uma espécie de filtro financeiro na entrada. O vencedor terá de criar uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) com capital social mínimo de R$ 7,8 milhões. Estão previstas ainda garantia de proposta equivalente a 1% e garantia de execução de 5% do valor do contrato.
O que o mercado está comprando
Quem vencer não estará adquirindo apenas o direito de organizar congressos e feiras. A concessão tenta mudar o próprio modelo econômico do CentroSul. Dos R$ 53,4 milhões previstos para os seis primeiros anos, cerca de R$ 43,4 milhões estarão concentrados na primeira etapa, incluindo modernização interna, fachadas, estacionamento, arruamento, drenagem e uma nova estrutura para o CORE, da Polícia Civil. Outros R$ 6,2 milhões estão previstos para uma nova passarela de pedestres e aproximadamente R$ 3,7 milhões para a implantação de uma área gastronômica.
É nessa última intervenção que aparece uma das mudanças mais visíveis do projeto. Uma área de aproximadamente 1,5 mil metros quadrados de frente para o mar deverá receber operações de alimentação e bebidas. A ideia é fazer com que parte do complexo funcione também fora dos dias de feiras e congressos, aproveitando uma localização que hoje praticamente não gera receita quando o CentroSul está sem eventos.
O projeto estabelece ainda estacionamento térreo com pelo menos 350 vagas, alterações nos acessos para reduzir filas na Avenida Gustavo Richard, obras de drenagem e uma nova passarela com melhores condições de acessibilidade. A concessionária terá margem para propor soluções arquitetônicas próprias, desde que cumpra os requisitos mínimos estabelecidos no edital.
A ampliação também mexe com a capacidade comercial do equipamento. Em apresentação do projeto, o secretário municipal de Turismo e Desenvolvimento Econômico, Juliano Richter Pires, afirmou que uma expansão estimada entre 20% e 25% permitiria ao CentroSul, na avaliação do município, receber entre 98% e 99% dos formatos de eventos realizados no Brasil. A configuração buscada permitiria inclusive a realização de até três eventos simultâneos.
O argumento econômico para esse investimento aparece no calendário recente. Há menos de um mês, o Startup Summit 2026 reuniu cerca de 10 mil participantes presenciais no CentroSul. Em agosto, o Encatho & Exprotel registrou 5.517 pessoas, vindas de 150 cidades. Nesta semana, o Congresso Brasileiro de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial reúne mais de 4 mil participantes.
São eventos realizados fora da temporada de verão, exatamente quando hotéis, restaurantes, transportes e serviços precisam de demanda adicional. Em setembro do ano passado, por exemplo, a ocupação hoteleira média ponderada de Florianópolis e região ficou em 57,3%; na região central da cidade, onde está o CentroSul, chegou a 65,3%, segundo dados da ABIH-SC citados pela organização do congresso que ocorre nesta semana.
Há também uma operação já estabelecida para quem assumir. Segundo números apresentados pelo atual consórcio operador e publicados pela coluna de Estela Benetti, o CentroSul registra uma média de cerca de 70 eventos e 105 dias de ocupação por ano, com receita informada de aproximadamente R$ 88 mil por dia ocupado, o equivalente a R$ 9,24 milhões anuais nesse recorte. Os números são do operador e não correspondem a uma demonstração financeira auditada da futura concessão, mas ajudam a dimensionar a atividade existente.
O vencedor também não deverá receber as chaves de um complexo com agenda zerada. A Prefeitura afirma que a comercialização de eventos continuou durante a preparação da concessão e que a expectativa é de transferência da operação com datas contratadas para os dois anos seguintes. A previsão é de que o novo concessionário assuma a gestão em janeiro de 2027.
Isso transforma a disputa desta sexta-feira, dia 18, numa espécie de precificação do futuro do turismo de eventos de Florianópolis. Os R$ 16,5 milhões dizem quanto a Prefeitura aceita como valor mínimo pelo direito de exploração. Os lances na B3 mostrarão quanto empresas esp
