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05/09/2026
10 min

Dia da Amazônia: 'Não é preciso desmatar mais nenhum hectare para desenvolver o bioma'

Em entrevista exclusiva à EXAME, Ritaumaria Pereira, diretora-executiva do Imazon, aponta grilagem, baixa produtividade de pastagens e impunidade entre os obstáculos para conter novas derrubadas

Dia da Amazônia: 'Não é preciso desmatar mais nenhum hectare para desenvolver o bioma'

Celebrado neste sábado, 5 de setembro, o Dia da Amazônia chega em um momento de queda nos índices de desmatamento, mas também de pressão para que o Brasil transforme o recuo recente em uma trajetória capaz de levar a floresta ao desmatamento zero até 2030.

No calendário do desmatamento que vai de agosto de 2025 a julho de 2026, a Amazôniaperdeu 2.702 quilômetros quadrados de floresta, a menor área dos últimos 12 anos. O resultado representa queda de 23% em relação ao período entre agosto de 2024 e julho de 2025.

A diferença é ainda maior quando a comparação recua quatro anos. Entre agosto de 2021 e julho de 2022, foram desmatados 10.781 quilômetros quadrados, a maior área desde 2007/2008. Em relação àquele período, a devastação atual é 75% menor.

Os números são do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), do Imazon, que monitora a floresta por imagens de satélite desde 2008.

Em entrevista exclusiva à EXAME, Ritaumaria Pereira, pesquisadora e diretora-executiva do Imazon(Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), afirma que a trajetória pode estar relacionada à retomada de políticas de controle do desmatamento.

“Os dados do Imazon mostram que o desmatamento na floresta amazônica vem apresentando tendência de queda, o que pode ser resultado da implementação do novo Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm)", conta.

O tamanho da área perdida, porém, coloca o recuo em perspectiva. Os 2.702 quilômetros quadrados derrubados no último calendário equivalem a quase duas vezes a área da cidade de São Paulo. Na estimativa apresentada pelo instituto, isso significa a perda de 740 campos de futebol de floresta por dia.

“Esses dados mostram que estamos no caminho certo, mas ainda precisamos intensificar a resposta a esse crime ambiental para cumprir a meta de desmatamento zero até 2030”, afirma Pereira.

Para a pesquisadora, algumas das prioridades são destinar áreas ainda sem uso definido à conservação, por meio de Terras Indígenas, Territórios Quilombolas ou Áreas Protegidas, combater a grilagem e estimular ganhos de produtividade agropecuária nos territórios que já foram desmatados.

O que o número do desmatamento não mostra

A extensão da floresta derrubada por completo é apenas um dos indicadores da pressão sobre a Amazônia. Há também a degradação florestal, situação em que a vegetação não é totalmente removida, mas sofre danos provocados, por exemplo, pela exploração de madeira ou pelo fogo.

Nesse indicador, a floresta passou por uma mudança acentuada em dois anos.

Entre agosto de 2024 e julho de 2025, foram degradados 35.229 quilômetros quadrados de floresta, um recorde e quase quatro vezes a área registrada no período anterior. Segundo o Imazon, o pico ocorreu em meio ao aumento das queimadas.

Já entre agosto de 2025 e julho de 2026, a degradação caiu 93% em relação ao período recorde e atingiu o menor nível dos últimos três anos. A oscilação mostra por que olhar apenas para o corte raso pode produzir uma fotografia incompleta da condição da floresta.

“Para evitar novos picos de degradação, é essencial fortalecer as políticas de combate aos incêndios florestais e à exploração ilegal de madeira”, diz Pereira.

Tecnologia já consegue antecipar áreas de risco

Ao mesmo tempo em que a floresta continua sob pressão, aumentou a capacidade tecnológica de localizar — e até antecipar — regiões vulneráveis ao desmatamento.

Um dos exemplos citados pela pesquisadora é a PrevisIA, primeira plataforma de previsão do desmatamento da Amazônia, desenvolvida pelo Imazon. A ferramenta combina a análise de dados geoespaciais e socioambientais com inteligência artificial para identificar áreas sob maior risco de destruição e fornecer informações que possam orientar a atuação de órgãos públicos.

Atualmente, 90% do desmatamento registrado na Amazônia ocorre em áreas indicadas pela plataforma.

Lançada em 2021, a PrevisIA é usada pelos Ministérios Públicos de Acre, Amazonas, Mato Grosso e Pará. Esses quatro estados cobrem 80% da Amazônia brasileira, área equivalente a cerca de 4 milhões de quilômetros quadrados.

A plataforma é gratuita e mantém tanto o código quanto os dados abertos no site previsia.org.br. Segundo Pereira, isso permite o uso por governos, órgãos públicos, universidades, imprensa e organizações da sociedade civil, além da replicação, adaptação ou expansão da tecnologia para outros lugares.

A disponibilidade de ferramentas de previsão, no entanto, não significa que o monitoramento seja automaticamente convertido em prevenção.

“Para que tecnologias como essa sejam mais usadas, é preciso ampliar a divulgação científica e as oportunidades de parceria entre os órgãos públicos e instituições de pesquisa”, afirma.

Ritaumaria Pereira, pesquisadora e diretora-executiva do Imazon: "É possível aumentar a produtividade das áreas desmatadas e, ainda assim, destinar espaço à restauração"

A pressão sobre a Amazônia também mudou de lugar

A tecnologia se torna ainda mais relevante à medida que a própria geografia do desmatamento muda.

Durante anos, a derrubada esteve fortemente associada ao chamado arco do desmatamento, região em formato de semicírculo que abrange o leste, sudeste e sul do Pará, o norte de Mato Grosso, quase todo o território de Rondônia, o leste do Acre e o sul do Amazonas.

Segundo Pereira, nos últimos cinco anos outra região ganhou peso no mapa da devastação. “A Amazônia passou a sofrer forte pressão de devastação na região chamada de ‘Amacro’, que fica na divisa do Amazonas, Acre e Rondônia.”

A mudança de localização se soma a uma questão mais ampla sobre o modelo de ocupação do território. Para a diretora-executiva do Imazon, conter a perda de floresta não depende de uma única frente.

O combate ao desmatamento, diz ela, exige participação dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além do setor privado e da sociedade. No caso do poder público, a pesquisadora defende que políticas federais, estaduais e municipais estejam alinhadas às melhores práticas de enfrentamento da derrubada.

É nesse contexto que o Imazon aborda o problema no estudo “O Paradoxo Amazônico”, que trata desmatamento, emissões e desemprego como três grandes desafios da região, mas também discute essas questões a partir de oportunidades de desenvolvimento socioambiental.

No caso da produção rural, o argumento é que o crescimento pode ocorrer dentro das áreas que já foram abertas.

“No caso do desmatamento, é possível aumentar a produtividade das áreas já desmatadas e, ainda assim, destinar espaço à restauração. Não há necessidade de abrir novas áreas”, afirma Pereira.

74% da área desmatada é ocupada por pastagens

Esse raciocínio parte do tamanho da área já convertida na Amazônia. A destruição acumulada alcança 86,2 milhões de hectares, o equivalente a 21% da região. Segundo a comparação apresentada pelo instituto, é uma extensão semelhante à soma das áreas da Espanha e da Itália.

Para Pereira, essa quantidade de terras já abertas comportaria todo o crescimento da produção agropecuária previsto até 2030 e ainda deixaria espaço disponível para restauração florestal.

A questão passa principalmente pela pecuária. Atualmente, 74% das áreas desmatadas na Amazônia são ocupadas por pastagens, e grande parte delas está degradada.

Segundo estudos do Imazon citados pela pesquisadora, recuperar esses pastos degradados para elevar a produtividade é mais barato do que desmatar novas áreas. A produção poderia ser triplicada dentro das mesmas extensões ou até mesmo em áreas menores.

“Estudos mostram que não é preciso desmatar mais nenhum hectare de floresta para desenvolver a Amazônia”, diz Pereira.

O cálculo apresentado pelo instituto é que, com aumento da produtividade da pecuária, seria possível atender à demanda por carne utilizando menos pastagens. A mudança deixaria 37 milhões de hectares disponíveis para restauração florestal.

A tese coloca produtividade, conservação e restauração dentro da mesma discussão. Em vez de usar a abertura de novas fronteiras como mecanismo para expandir a agropecuária, o Imazon aponta a intensificação da produção nos territórios já convertidos como alternativa.

Restaurar a floresta não elimina a perda

A restauração ocupa um papel importante nessa estratégia, mas a pesquisadora faz uma ressalva sobre tratá-la como substituta da conservação de áreas ainda preservadas.

Segundo Pereira, recuperar a floresta contribui para o enfrentamento das mudanças climáticas, para a preservação dos recursos hídricos e para a proteção da biodiversidade.

Os números apresentados pelo instituto indicam também uma dimensão econômica. A restauração de apenas 10% da área degradada da Amazônia, ou 5,7 milhões de hectares, poderia gerar até R$ 132 bilhões em receita e remover 2,6 bilhões de toneladas de CO₂ da atmosfera.

Isso, porém, não torna equivalentes uma floresta restaurada e uma vegetação primária que não foi derrubada.

“Essa medida não compensa a perda de floresta, pois a vegetação secundária pode demorar mais de 30 anos para adquirir características semelhantes às da vegetação primária e aos seus serviços ecossistêmicos”, afirma a pesquisadora.

Imazon: Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia acompanha desde 1990 a conservação e desenvolvimento sustentável do bioma

A restauração também exige investimento para implantação e monitoramento contínuo. Sem proteção, a vegetação secundária pode voltar a ser removida.

Um estudo do Imazon identificou que, entre 2014 e 2024, 2,7 milhões de hectares de vegetação secundária foram desmatados. O custo estimado para recuperar novamente essas áreas varia entre R$ 814 milhões e R$ 33 bilhões.

“A melhor alternativa é sempre evitar o desmatamento, tendo a restauração florestal como medida adicional”, diz Pereira.

Grilagem e impunidade entram no caminho do desmatamento zero

Para a diretora-executiva do Imazon, discutir desmatamento zero exige ir além da constatação de que há terra suficiente já aberta ou de que existem ferramentas capazes de identificar onde a pressão pode avançar.

Um dos problemas está nos incentivos à ocupação ilegal de áreas públicas. “Precisamos falar sobre desmatamento zero de forma comprometida e com estratégias factíveis de serem executadas.”

Segundo Pereira, para isso é necessário enfrentar a grilagem, o roubo de terras públicas, e a impunidade relacionada ao desmatamento ilegal.

Pesquisas da área de Direito e Sustentabilidade do Imazon, citadas pela diretora-executiva, indicam que leis e práticas de regularização fundiária na Amazônia podem acabar favorecendo pessoas que invadem terras públicas.

“As leis e práticas de regularização fundiária na Amazônia acabam por favorecer os invasores de terras públicas, que, em vez de serem punidos, recebem títulos de propriedade”, afirma.

A responsabilização judicial aparece como outro ponto do problema. “Além disso, no Judiciário, poucas ações por desmatamento ilegal ou grilagem resultam em punições.”

Dia da Amazônia: bioma já perdeu 21% da sua cobertura original

O quadro que emerge neste Dia da Amazônia combina, portanto, sinais que caminham em direções distintas. O desmatamento e a degradação recuaram no último calendário acompanhado pelo Imazon, enquanto sistemas de monitoramento conseguem indicar previamente boa parte das áreas que acabam sendo atingidas.

Ao mesmo tempo, milhões de hectares já abertos seguem ocupados por pastagens degradadas, a pressão territorial migra para novas regiões e mecanismos de regularização e responsabilização ainda podem preservar incentivos à ocupação ilegal.

Na leitura de Pereira, o espaço para aumentar a produção sem avançar sobre a floresta já existe. A disputa é o que será feito com as áreas desmatadas e se as políticas de fiscalização, uso da terra e responsabilização conseguirão tornar desnecessária — também na prática — a abertura de novas fronteiras.

AutorLetícia Ozório
FonteExame
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