Diego Fernandes e Temer discutem a nova corrida global por capital

Cerca de 60 diretores financeiros de grandes empresas brasileiras e multinacionais participaram neste sábado do CFO Fórum, promovido pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (IBEF-SP) no Clara Ibiúna Resort, no interior de São Paulo.
No painel de abertura, o investidor Diego Fernandes, fundador da O8 Partners, dividiu o palco com o ex-presidente Michel Temer e José Filippo, presidente do IBEF-SP, para discutir os impactos da inteligência artificial, da geopolítica e da segurança jurídica sobre a atração de investimentos em um cenário global cada vez mais competitivo.
Os temas discutidos ao longo do encontro refletem a ampliação da agenda dos executivos financeiros, hoje cada vez mais envolvidos em decisões relacionadas a tecnologia, energia, regulação e gestão de riscos.
“O líder financeiro tem um papel cada vez mais estratégico dentro das organizações, participando diretamente das decisões de negócios e da definição dos rumos das empresas”, afirmou Filippo.
A corrida por tecnologia e infraestrutura
Os investimentos necessários para sustentar o avanço da inteligência artificial nortearam boa parte das discussões. Além do desenvolvimento de novas aplicações, o tema envolve a expansão de data centers, redes de conectividade e capacidade energética — áreas que vêm atraindo volumes crescentes de capital em diferentes mercados.
A disputa entre Estados Unidos e China apareceu como pano de fundo desse movimento. Para os executivos, a competição entre as duas potências econômicas ultrapassa o campo comercial e envolve setores estratégicos como semicondutores, inteligência artificial, infraestrutura digital e atração de talentos.
“Estamos entrando em uma disputa global por capital, energia, tecnologia e talentos”, afirmou Fernandes.
Oportunidades para o Brasil
Nesse contexto, o Brasil surgiu como um dos países com potencial para participar desse novo ciclo de investimentos. Para Fernandes, o país reúne condições relevantes, mas ainda precisa avançar em fatores estruturais para transformar vantagens em crescimento.
“O país possui vantagens estratégicas, mas precisará combinar competitividade, segurança jurídica, estabilidade institucional e visão de longo prazo para transformar potencial em crescimento sustentável”, afirmou.
Entre os ativos brasileiros citados no encontro estão a disponibilidade de energia, a relevância crescente dos minerais estratégicos e a posição do país em cadeias ligadas à transição energética e à economia digital.
As chamadas terras raras, usadas em setores como defesa, mobilidade elétrica, tecnologia e energia limpa, também foram destacadas como recursos cada vez mais estratégicos em um cenário de reorganização das cadeias globais de produção.
Segurança jurídica entra no radar dos investidores
Se o potencial brasileiro foi amplamente reconhecido, os participantes reforçaram que a atração de investimentos depende de fatores que vão além de vantagens naturais ou setoriais.
Michel Temer destacou a importância da estabilidade institucional e da previsibilidade regulatória para fortalecer a confiança de investidores.
“Quando digo que o Brasil é o país do futuro, procuro transmitir uma mensagem de otimismo. Temos uma tendência ao pessimismo, mas é preciso reconhecer que o país avançou em diversos setores ao longo do tempo”, afirmou.
O ex-presidente também defendeu o fortalecimento das instituições como condição para o crescimento econômico.
“O Brasil ainda tem muito potencial pela frente. O que precisamos é organizar melhor o país por meio do cumprimento das regras estabelecidas. O descumprimento do texto constitucional gera instabilidade e afasta investimentos, tanto nacionais quanto estrangeiros.”
Temer ainda citou o agronegócio como exemplo de setor que conseguiu transformar vantagens competitivas em liderança global e impulsionar diferentes elos da economia brasileira.
Geopolítica como variável de negócios
A influência da geopolítica sobre as decisões corporativas também ganhou destaque no debate. O tema foi relacionado a medidas recentes adotadas pelos Estados Unidos no combate ao crime organizado transnacional e seus potenciais impactos sobre instituições financeiras, operações internacionais e estruturas de compliance.
Segundo Fernandes, esses fatores passaram a integrar de forma permanente a agenda das empresas com atuação global, especialmente em áreas expostas a cadeias internacionais de valor e fluxos financeiros transfronteiriços.
O desafio de transformar vantagens em investimentos
Ao final do encontro, os executivos apontaram que o Brasil reúne condições para desempenhar um papel relevante na nova economia global, mas precisa avançar em competitividade e previsibilidade para converter oportunidades em investimentos de longo prazo.
“O país tem enormes oportunidades. Vem recebendo investimentos importantes em infraestrutura e desperta interesse de investidores globais. Assim como se tornou uma potência no agronegócio, o Brasil pode aproveitar suas vantagens competitivas para participar do crescimento que a inteligência artificial deve gerar nos próximos anos”, afirmou Fernandes.
