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MundoCMDT
25/09/2026
5 min

Diesel caro vira problema político para Trump antes das eleições americanas

Enfrentando preços altos em casa e pressões globais, republicanos pressionam Trump a interditar exportações de diesel para conter crise doméstica

Diesel caro vira problema político para Trump antes das eleições americanas

A disparada dos preços do diesel nos Estados Unidos, impulsionada pelo conflito no Irã e pela guerra entre a Rússia e a Ucrânia — conflitos que afetam os maiores produtores e as principais rotas de transporte de combustíveis do mundo —, começa a ganhar peso político às vésperas das eleições de meio de mandato.

O preço médio do combustível nos EUA ultrapassou US$ 6,50 (cerca de 33 reais) por galão, ante cerca de US$ 3,70 (em torno de 19 reais) um ano atrás, enquanto os estoques americanos recuam e alguns postos enfrentam dificuldades de abastecimento. Nesse contexto, alguns políticos republicanos passaram a pressionar o presidente americano, Donald Trump, a adotar uma medida drástica para conter os aumentos: um banimento às exportações da commodity.

O senador republicano pelo estado de Iowa, Chuck Grassley, defende a ideia no X, antigo Twitter: "Com o diesel custando US$ 6,57 em Iowa, por que o presidente Trump não impõe um embargo às exportações de diesel, assim como presidentes fizeram nos anos 70 com produtos agrícolas, quando os preços dos alimentos estavam inflacionados? Os preços elevados do diesel ESTÃO DESTRUINDO A RENDA DOS AGRICULTORES."

No Congresso, o deputado republicano Tim Burchett, do Tennessee, foi à tribuna da Câmara na semana passada para defender um projeto que proibiria as exportações de diesel dos Estados Unidos; ao lado do parlamentar, um painel classificava os preços do combustível como “fora de controle”.

A proposta também ganhou o apoio até mesmo do governador da Louisiana, Jeff Landry, que, apesar de governar um estado que abriga algumas das maiores refinarias de petróleo do país, defendeu a suspensão, por 90 dias, das exportações americanas de diesel.

Por sua vez, Trump está inclinado a ouvir as demandas. Na última terça-feira, o presidente disse a repórteres: "Eu disse para não enviarmos o diesel." O republicano também reproduziu a ideia na Assembleia Geral da ONU, que começou nessa segunda, 21, em Nova York. "Nós produzimos muito diesel", disse Trump. "Pedi à minha equipe [que interrompesse as exportações]. Tenho falado sobre isso."

Pilar econômico

Apesar de veículos que circulam nas cidades preferirem a gasolina, o diesel é favorecido para longas viagens de transporte por estradas ou vias aquáticas, já que é tem maior eficiência energética. (Silvio Avila/AFP/Getty Images)

A alta é particularmente relevante porque o diesel abastece boa parte da infraestrutura econômica americana, alerta um estudo do think tank britânico Chatham House. Caminhões, tratores, locomotivas, navios e máquinas de construção dependem do combustível mais eficiente em longas viagens, o que faz com que seu encarecimento tenha efeitos que vão muito além do preço pago diretamente pelos motoristas.

A pressão sobre o mercado aumentou desde o início da guerra entre o Irã e os Estados Unidos, em 28 de fevereiro. Antes do conflito, cerca de 900 mil barris por dia de diesel circulavam pelo Golfo, volume equivalente a aproximadamente 10% da oferta marítima global do combustível, segundo dados de rastreamento citados pela Reuters.

Ao mesmo tempo, ataques ucranianos contra refinarias russas reduziram a disponibilidade de derivados no mercado internacional, intensificando a pressão sobre outras fontes de abastecimento. O resultado foi uma combinação de oferta mais apertada e de custos crescentes para refinarias e consumidores americanos.

O encarecimento do diesel também ameaça se espalhar por toda a economia. Como o combustível é amplamente utilizado no transporte de cargas e na agricultura, custos mais altos podem ser repassados aos preços de fretes, alimentos e outros produtos, aumentando a pressão inflacionária em um momento politicamente sensível.

Com as eleições de meio de mandato marcadas para novembro, parlamentares republicanos passaram a pressionar o presidente Donald Trump a adotar medidas para aumentar a oferta doméstica., apura o Chatham. O senador Chuck Grassley, republicano de Iowa, renovou, em 22 de setembro, seu pedido de suspensão temporária das exportações de diesel.

A proposta parte de uma lógica simples: manter no mercado americano o combustível que hoje é vendido no exterior poderia ampliar a oferta doméstica e reduzir os preços. Os Estados Unidos, porém, são um importante exportador de diesel, e a retirada desse volume do mercado internacional também afetaria países que dependem do diesel americano.

Base legal

Donald Trump concede entrevista de dentro de um caminhão de lixo, em Green Bay, Wisconsin. (AFP)

Do ponto de vista jurídico, as regras da Organização Mundial do Comércio, em princípio, proíbem restrições quantitativas às exportações. O Artigo XI:1 do GATT estabelece essa regra, mas o XI:2(a) permite restrições temporárias destinadas a prevenir ou aliviar “escassez crítica” de alimentos ou de outros produtos considerados essenciais para o país exportador.

Isso não significa, porém, que qualquer alta de preços seja suficiente para justificar uma proibição. A jurisprudência da OMC indica que a exceção está vinculada a situações de escassez crítica e temporária, e que a classificação de um produto como essencial depende das circunstâncias concretas enfrentadas pelo país no momento da medida.

O debate mais difícil, portanto, é econômico. Analistas ouvidos pela CNN avaliam que uma proibição de exportações poderia reduzir os preços nos EUA inicialmente, mas teria efeitos limitados no tempo e poderia gerar novas pressões posteriormente, inclusive sobre refinarias americanas e consumidores de países aliados.

Há também o risco de que uma redução das exportações altere o funcionamento do mercado de combustíveis americano. Como as refinarias produzem diferentes derivados simultaneamente, mudanças artificiais na relação entre a oferta doméstica e a externa podem afetar a rentabilidade do setor e, segundo analistas, reduzir os incentivos para aumentar a produção de derivados no futuro.

A discussão coloca Trump diante de uma escolha de política energética cujos efeitos vão além do preço imediato nas bombas de combustível, segundo o Chatham.

Enquanto parlamentares republicanos defendem medidas para aliviar a situação de agricultores, caminhoneiros e outros consumidores, analistas alertam que uma restrição às exportações também poderia provocar consequências no mercado internacional e na própria cadeia energética americana.

O governo Trump, segundo reportagens recentes, ainda não adotou a proibição e tem demonstrado resistência à medida.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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