Diesel dispara e se comporta como se o petróleo custasse US$ 140

O preço do diesel no mercado internacional está descolado do petróleo bruto. Enquanto o barril é negociado perto de US$ 72, a margem de refino do diesel, conhecida como crack spread, já supera US$ 77. Na prática, o combustível reflete um cenário de petróleo muito mais caro do que o preço à vista sugere. O fenômeno afeta o mercado global de refino, com epicentros nos Estados Unidos, no Golfo Pérsico e na Rússia.
A distorção ganhou destaque depois que a Ucrânia atacou 30 navios-tanque russos em apenas dois dias, segundo o analista financeiro independente Lukas Ekwueme, especializado em macroeconomia global e commodities. Em publicação na rede social X, ele afirmou que "as margens de refino do diesel agora superam o preço do próprio petróleo bruto".
Para Ekwueme, o diesel, e não o petróleo, é o verdadeiro termômetro da economia real. Segundo ele, o combustível responde por cerca de 80% do frete rodoviário nos Estados Unidos, por 80% do comércio global transportado por via marítima e é insumo central para a agricultura e a mineração. "Vamos sentir a pressão inflacionária de um diesel a US$ 140", escreveu.
O que é o crack spread e por que ele disparou
O crack spread mede a diferença entre o preço do petróleo bruto e o preço dos derivados, como diesel, gasolina e querosene de aviação. É, na prática, a margem de lucro das refinarias em qualquer parte do mundo. Segundo a Axios, o crack spread do diesel nos Estados Unidos subiu cerca de US$ 10 na quarta-feira passada, registrando a maior alta já registrada desde que a série histórica começou, em 2023.
Já o indicador "3-2-1 crack", que estima o ganho teórico de transformar três barris de petróleo em dois de gasolina e um de diesel, ultrapassou US$ 60 na quarta-feira, também um recorde histórico.
Para Jordan Rizzuto, diretor de investimentos da gestora GammaRoad Capital Partners, a queda do petróleo não reflete o mercado físico global. "A realidade física subjacente ainda está muito mais apertada", disse ao Yahoo Finance. Segundo ele, "a precificação do mercado provavelmente ficou um pouco à frente da realidade física".
Rússia suspende exportação de diesel após ataques ucranianos
Parte da pressão vem da guerra na Ucrânia. Semanas de ataques com drones ucranianos a refinarias russas prejudicaram a produção no país, provocando desabastecimento interno. Como resultado, a Rússia suspendeu as exportações de diesel, país que responde por cerca de 10% do diesel exportado no mundo.
A medida elevou a demanda por diesel americano, que sai principalmente do Golfo do México. As exportações de combustível dos Estados Unidos bateram recorde em junho, segundo a Axios, o que reduziu os estoques domésticos e pressionou os preços internos para cima. O movimento também ajuda a explicar por que os preços do petróleo reagem a cada novo sinal de interrupção no fornecimento russo.
Refinarias danificadas em várias regiões do mundo pressionam o mercado
A guerra entre Estados Unidos e Irã também afetou a oferta global. Ao menos nove grandes refinarias na região do Golfo, incluindo unidades no Bahrein, no Kuwait e na Arábia Saudita, foram danificadas e paralisadas durante o conflito. Nos quatro anos de guerra entre Rússia e Ucrânia, outras 18 refinarias russas também foram atingidas.
Fora das zonas de conflito, o setor global de refino também sofreu incidentes: explosões e incêndios na refinaria australiana de Geelong, em abril, e uma explosão na refinaria da Valero em Port Arthur, no Texas, que fechou várias unidades.
Para Natasha Kaneva, chefe de pesquisa de commodities do JPMorgan, a dúvida central é quanto da capacidade de refino do Oriente Médio, de 11,7 milhões de barris por dia, pode voltar a operar rapidamente e quanto os reparos extensos vão exigir. O cenário-base do banco prevê que apenas 250 mil barris por dia de capacidade permaneçam parados até o fim do ano, mas, segundo Kaneva, "a confiança nessa estimativa continua baixa".
Demanda por petróleo cai no mundo, mas diesel segue apertado
Enquanto o mercado global de derivados aperta, a demanda por petróleo bruto caminha na direção oposta. Segundo relatório da Agência Internacional de Energia (AIE), a demanda mundial por petróleo deve cair em 2026 pela primeira vez desde o auge da pandemia de Covid-19, em 2020, uma redução estimada em 1 milhão de barris por dia.
Jim Burkhard, vice-presidente e chefe de pesquisa de petróleo bruto da S&P Global Energy, afirma que o futuro do Estreito de Ormuz segue incerto. "O futuro de Ormuz provavelmente é mais incerto hoje do que era no início da guerra", disse à Fortune. Segundo Burkhard, o Irã continua tentando controlar o estreito, enquanto os Estados Unidos ainda não conseguiram restabelecer operações normais na região.
Parte da queda na demanda global vem da China, que reduziu suas compras de petróleo em quase 6 milhões de barris por dia durante a alta de preços na primavera do hemisfério norte, segundo Burkhard. Já Daniel Sternoff, pesquisador sênior do Center on Global Energy Policy da Universidade Columbia, afirma que o país também acelerou a adoção de veículos elétricos, o que reduziu o consumo de combustíveis rodoviários. Segundo suas estimativas, a China deve registrar uma perda de demanda de 500 mil a 600 mil barris por dia de gasolina e diesel desde o início da crise.
Próximo capítulo: balanços corporativos
O mercado agora observa como o custo do diesel vai aparecer nos balanços do próximo trimestre, especialmente em setores como transporte rodoviário, mineração, ferrovias e agricultura.
As gigantes americanas de refino já sentem o efeito da margem elevada: as ações da Valero Energy e da Phillips 66 acumulam alta de 51% e 33%, respectivamente, nos últimos seis meses, enquanto a Marathon Petroleum, maior refinaria listada em bolsa nos Estados Unidos, subiu 60% no mesmo período.
*com agências internacionais
