Disputa por poder na Casa Branca se intensifica diante de possível derrota de Trump nas 'midterms'
A disputa pela chefia de gabinete de Susie Wiles expõe tensões internas no governo, enquanto republicanos temem perder o controle da Câmara e enfrentam uma eleição apertada para o Senado

RESUMO +
A possível derrota republicana nas eleições legislativas de novembro intensificou a disputa por influência no governo de Donald Trump, segundo o jornal The Washington Post, que ouviu 20 funcionários, conselheiros e pessoas próximas ao presidente. Stephen Miller, Bill Pulte e Lee Zeldin estariam entre os possíveis sucessores da chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles.
A possibilidade de uma derrota republicana nas eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para novembro, tem intensificado as disputas internas na Casa Branca de Donald Trump, diz o Washington Post. Assessores do presidente já começaram a disputar abertamente espaço e influência no governo, em meio à expectativa de mudanças na equipe após o pleito, segundo apuração do The Washington Post, baseada em entrevistas com 20 funcionários, conselheiros e pessoas próximas ao presidente.
A movimentação inclui possíveis sucessores de Susie Wiles, atual chefe de gabinete da Casa Branca. Entre os nomes que estariam se articulando para ocupar o posto estão Stephen Miller, vice-chefe de gabinete e uma das principais figuras da agenda migratória de Trump; Bill Pulte, responsável pela área de habitação do governo; e Lee Zeldin, administrador da Agência de Proteção Ambiental (EPA).
Wiles, que comandou a campanha presidencial vitoriosa de Trump em 2024, não sinalizou a assessores ou aliados que pretende deixar o cargo. Ainda assim, a pressão de uma rotina considerada desgastante e o histórico de rotatividade no posto alimentam as especulações. Durante seu primeiro mandato, Trump teve quatro chefes de gabinete, incluindo um interino, em meio a conflitos recorrentes dentro da administração.
A disputa ganhou força na semana passada, quando Trump procurou Katie Zacharia (agora demitida0 para discutir sua entrada no governo como secretária de imprensa da Casa Branca, sem consultar Wiles previamente, segundo quatro pessoas familiarizadas com a decisão. O episódio foi interpretado internamente como um sinal de enfraquecimento da chefe de gabinete e de falta de coordenação na equipe presidencial.
Para interlocutores do presidente, a movimentação representa um retorno a características do primeiro mandato de Trump, quando diferentes grupos de assessores e integrantes da família presidencial disputavam influência e frequentemente atuavam uns contra os outros. Durante boa parte do segundo mandato, os conflitos haviam permanecido relativamente discretos.
Às sombras das midterms
Donald Trump: presidente enfrenta partido fragmentado e importante teste nas urnas (Filip Singer/POOL/AFP)
A tensão ocorre em um momento de crescente preocupação eleitoral. A 18 dias das eleições legislativas, Trump tem demonstrado frustração com a falta de defesa pública de seu governo por parte de aliados, segundo pessoas próximas a ele. O presidente também estaria insatisfeito com o desempenho dos estrategistas políticos James Blair e Chris LaCivita, ambos próximos de Wiles e responsáveis por parte da estratégia republicana para o pleito.
Nas últimas semanas, Trump intensificou a agenda de comícios para mobilizar a base republicana. A ofensiva, porém, ocorre em um cenário de baixa popularidade e insatisfação dos eleitores com o custo de vida. Pesquisas internas do Partido Republicano indicaram uma deterioração do apoio aos candidatos da legenda após a convenção partidária de setembro, com eleitores demonstrando preocupação com a capacidade do governo de responder às pressões econômicas.
Em vez de dedicar todo o mês de setembro à campanha, Trump passou parte do período recebendo o presidente chinês, Xi Jinping, na Casa Branca e acompanhando projetos de construção e reforma, incluindo a instalação de um novo heliponto e a proposta de um salão de festas na sede do governo. A atenção a essas iniciativas também se tornou alvo de críticas em um momento em que os republicanos tentam conter o desgaste eleitoral.
Apesar das declarações públicas de confiança, assessores de Trump e aliados do partido avaliam que os republicanos provavelmente perderão o controle da Câmara dos Representantes. A dimensão da possível derrota, no entanto, ainda é incerta. No Senado, a disputa é considerada equilibrada, mesmo após o aumento dos investimentos de grupos alinhados ao presidente, como o super PAC MAGA Inc. e o Senate Leadership Fund. Estados tradicionalmente republicanos, como Kansas e Texas, também passaram a ser considerados competitivos.
Nesse contexto, uma derrota expressiva nas eleições poderia abrir espaço para que adversários internos de Wiles tentassem assumir seu cargo. Um aliado da chefe de gabinete afirmou ao Washington Post que um resultado ruim daria aos integrantes mais ambiciosos do governo uma oportunidade de avançar na disputa pela posição.
Pulte tem buscado reforçar sua influência junto ao presidente por meio de apresentações visuais com propostas para resolver problemas que chamam a atenção de Trump. Segundo pessoas familiarizadas com a rotina da Casa Branca, ele costuma levar cartazes e painéis a encontros no campo de golfe presidencial e a viagens a bordo do helicóptero Marine One ou do avião presidencial.
Os materiais incluem sugestões sobre temas como as reformas do Kennedy Center e a resistência do Federal Reserve em reduzir os juros. Alguns trazem imagens do próprio Trump e de seus comícios. A estratégia, porém, parece ter provocado irritação: assessores afirmam que o presidente reclamou do excesso de painéis, que estariam ocupando espaço na residência oficial.
Wiles também enfrenta desgaste devido a controvérsias envolvendo os dois estrategistas da campanha presidencial. Blair e LaCivita viajaram recentemente à República Srpska, território de maioria sérvia na Bósnia e Herzegovina, para prestar consultoria política ao governo local, alinhado à Rússia. A atividade provocou uma reação negativa de Trump, que demonstrou incômodo com a possibilidade de ex-assessores usarem a proximidade com ele para obter ganhos privados.
O presidente publicou uma mensagem na rede Truth Social para se distanciar dos dois e afirmou que poderia demiti-los caso identificasse conflito de interesses. A situação se agravou após a divulgação de uma fotografia de Katie Wiles, filha da chefe de gabinete, durante uma visita à região. Ela é sócia da Continental Strategy, empresa de lobby que representa o governo da República Srpska, embora não conste individualmente nos registros de lobby relacionados ao cliente.
Segundo assessores externos ouvidos pelo Washington Post, críticos de Wiles, Blair e LaCivita têm apresentado a Trump reportagens negativas sobre o trabalho de consultoria internacional, alimentando as suspeitas do presidente. Embora Blair continue participando da estratégia eleitoral e mantenha contato frequente com Trump, o episódio pode ter reduzido a capacidade dos dois estrategistas de orientar campanhas e transmitir instruções a candidatos republicanos.
A Casa Branca rejeitou a interpretação de que o governo esteja dividido. Em resposta ao jornal, a porta-voz Danielle Alvarez afirmou que as alegações se baseiam em fontes anônimas e refletem interesses pessoais de pessoas mais preocupadas com suas próprias posições do que com o presidente. Segundo ela, Trump mantém uma equipe unida e dedicada à agenda "America First".
A proximidade das eleições, contudo, amplia o impacto potencial das disputas. A perda do controle do Congresso reduziria a margem de manobra de Trump no restante do mandato e poderia desencadear uma reorganização da equipe presidencial. Nesse cenário, a sucessão de Wiles tornou-se um dos principais focos de uma disputa por poder que, até recentemente, permanecia nos bastidores.
