Dividendos acima da Selic? Rico indica as ações para renda passiva que superam os juros, mas faz um alerta
Com a alta da Selic, o preço da ação tende a ser pressionado pelo custo de oportunidade elevado da renda fixa. A analista da Rico explica quando o dividendo vale realmente a pena

Competir com a renda fixa virou um verdadeiro desafio para os ativos de risco. Porém, mesmo com os juros altos ainda é possível encontrar retornos com dividendos acima da Selic para quem se interessa por renda passiva.
Um levantamento da Rico realizado neste mês analisou os papéis que compõem o Ibovespa, o Índice de Dividendos (Idiv) e o Índice Brasil 100 (IBrX 100) — os principais índices da B3 por liquidez e representatividade — para encontrar quais são as ações que apresentam um dividend yield (DY; taxa de retorno de dividendos) anualizado acima de 14% ao ano.
Antes de sair correndo para embolsar essas ações, no entanto, o investidor precisa ter em mente o risco de investir de olho em apenas um número. Confira as empresas que entraram no ranking e entenda o alerta dos especialistas a seguir.
| Empresa | Ticker | Setor | DY 12M |
| Syn | SYNE3 | Outros | 64,53% |
| Grendene | GRND3 | Têxtil | 43,19% |
| Vulcabras | VULC3 | Têxtil | 32,62% |
| Log | LOGG3 | Construção | 27,54% |
| Lavvi | LAVV3 | Construção | 27,26% |
| Marcopolo ON | POMO3 | Veículos e peças | 22,42% |
| União Pet | AUAU3 | Comércio | 21,06% |
| Marcopolo PN | POMO4 | Veículos e peças | 20,89% |
| Even | EVEN3 | Construção | 20,09% |
| Moura Dubeux | MDNE3 | Construção | 19,13% |
| MBRF | MBRF3 | Alimentos e Bebidas | 17,49% |
| BB Seguridade | BBSE3 | Finanças e Seguros | 16,98% |
| Unipar | UNIP6 | Química | 16,92% |
| Tegma | TGMA3 | Transporte e Serviços | 14,87% |
| Azzas | AZZA3 | Têxtil | 14,55% |
Porém, Maria Giulia Figueiredo, analista de research da Rico, faz um alerta sobre as primeiras colocadas: “yields muito acima da média costumam ter origem em eventos que não se repetem todo ano, como venda de ativos, reduções de capital ou distribuições extraordinárias”, afirma especialista.
Além disso, com a alta da Selic, o preço da ação tende a ser pressionado pelo custo de oportunidade elevado da renda fixa. Essa queda do papel eleva o DY sem que o dividendo tenha realmente crescido.
Entendendo o dividend yield
O dividend yield mede quanto uma empresa distribuiu em dividendos em relação ao preço atual da ação. Para isso, os proventos pagos nos últimos 12 meses são divididos pelo valor do papel e, em seguida, multiplicados por 100. Ou seja, se uma ação custa R$ 10,00 e pagou R$ 1,20 em dividendos no ano, o DY é de 12%.
Mas se um papel que custava R$ 10,00 e pagava R$ 1,00 — com um dividend yield de 10% — cai para R$ 5,00, o DY aparente vai para 20%. Só que o acionista que entrou antes está com um ativo desvalorizado e, possivelmente, uma empresa em deterioração.
Por isso, para avaliar se vale a pena investir na empresa, essa métrica é apenas o ponto de partida, e não a história inteira.
Segundo Figueiredo, o investidor precisa fazer outras três perguntas para saber se a ação representa uma boa oportunidade:
- Os dividendos pagos no período têm caráter recorrente ou incluem eventos extraordinários — como JCP acumulado, venda de ativo, resultado não-operacional?
- A queda de preço que elevou o DY reflete um problema estrutural da empresa ou um ajuste de mercado que tende a se reverter com o tempo?
- O nível de endividamento é compatível com a manutenção dessas distribuições em um ambiente em que o crédito ainda está caro?
As empresas de peso que pagam mais que a Selic
A analista recomenda ainda que o investidor faça uma avaliação do DY médio dos últimos anos. O dado reflete a consistência da política de distribuição, e não apenas o retrato de um exercício.
“Empresas que aparecem em ambas as métricas têm uma distribuição mais sustentável do que as que figuram apenas em uma delas”, afirma a especialista.
A Rico também levantou as empresas que se enquadram nesta avaliação. Confira, a seguir, as ações que superam 14% ao ano considerando a média do DY dos últimos três exercícios (2023, 2024 e 2025):
| Empresa | Ticker | Setor | DY Médio 3 Anos |
| Grendene | GRND3 | Têxtil | 21,68% |
| Vulcabras | VULC3 | Têxtil | 17,38% |
| Petrobras ON | PETR4 | Petróleo e Gás | 17,29% |
| Petrobras PN | PETR3 | Petróleo e Gás | 16,22% |
| Mahle Metal Leve | LEVE3 | Veículos e peças | 15,64% |
| Bradespar | BRAP4 | Outros | 14,02% |
A analista destaca que apenas Grendene e Vulcabras aparecem nos dois rankings. Já as demais empresas que figuram no topo da primeira tabela não se sustentam na posição ao olhar o médio prazo.
“Quando se olha o histórico de três anos, o nível de pagamento não é recorrente, o que indica que o yield elevado tem origem pontual. Do outro lado, Petrobras e Bradespar mostram consistência histórica, mas distribuíram menos nos últimos 12 meses do que sua própria média”, analisa Figueiredo.
