Do alternativo ao executivo: como ele transformou R$ 40 em uma marca de granolas de R$ 120 milhões

Quando tinha 17 anos, Marcos Fenício sofreu um acidente de moto que mudou sua vida. A amputação de uma das pernas o levou a questionar caminhos que pareciam óbvios. O jovem agrônomo baiano mergulhou na meditação, na yoga, na alimentação natural e passou a enxergar o mundo de outra forma.
Três décadas depois, aquela busca por uma vida mais consciente deu origem a um negócio que faturou mais de 120 milhões de reais em 2025 e espera crescer 15% neste ano.
A Tia Sônia, marca criada a partir de uma receita caseira de granola feita por sua mãe, tornou-se líder no Nordeste e a segunda maior marca nacional da categoria.
Hoje, a empresa produz cerca de 300 toneladas de granola por mês em Vitória da Conquista, na Bahia, possui mais de 80 produtos no portfólio e prepara uma nova fase de expansão nacional, com foco em São Paulo, o maior mercado consumidor do país. "Eu saí do alternativo para o executivo", diz Fenício.
A história da Tia Sônia
Tia Sônia: marca de granola começou com receita da mãe de Marcos
A origem da companhia remonta a meados dos anos 1990. Na época, Fenício trabalhava como agronômo prestando assistência técnica em fazendas e levava uma vida simples, distante das grandes corporações do agronegócio.
Foi nesse período que sua mãe, Dona Sônia, preparou uma granola para ele levar em uma viagem a Machu Picchu, no Peru. A receita tinha ingredientes que fugiam do padrão da época: coco, tapioca e rapadura davam um toque baiano a um produto que ainda era nichado.
A mãe preparou seis quilos da mistura. Parte ficou com amigos. Quando voltou da viagem, Fenício encontrou uma surpresa. "Todo mundo queria mais", conta.
A demanda chamou atenção, mas a decisão de empreender veio por necessidade. Aos 30 anos, ele enfrentava dificuldades financeiras e ouviu o conselho de um amigo de fazer a granola para vender.
O capital inicial foi modesto. "Meu investimento inicial foi R$ 40 emprestados da minha mãe", diz.
Sem sócios e sem investidores externos, a empresa começou de forma artesanal e cresceu reinvestindo os próprios resultados. Enquanto o negócio ganhava tração, Fenício passou a estudar marketing, finanças e gestão para profissionalizar a operação.
A virada da granola
Durante os primeiros anos, a Tia Sônia vendia quase exclusivamente para lojas de produtos naturais. A mudança veio no início dos anos 2000, quando a granola deixou de ser um produto alternativo e passou a ganhar espaço entre consumidores de maior renda.
Fenício atribui parte desse movimento a popularização da combinação de açaí com granola.
A mudança abriu caminho para os supermercados. Por volta de 2003, a rede Bompreço, na Bahia, tornou-se o primeiro grande cliente da companhia. Foi o momento em que Fenício percebeu que a empresa poderia atingir outra escala.
A partir dali, a expansão ganhou velocidade. Entre 2010 e 2020, segundo o empresário, a companhia cresceu mais de 20% ao ano em média.
O avanço foi impulsionado não apenas pelos produtos, mas por uma decisão que acabou se tornando uma vantagem competitiva.
A empresa criou sua própria estrutura de distribuição.
Como não conseguia absorver as margens exigidas pelos distribuidores no início da operação, Fenício decidiu fazer as entregas por conta própria. Comprou uma Fiorino, depois outra, depois mais uma.
O que começou como improviso virou estratégia. Hoje a Tia Sônia possui uma rede própria de distribuição espalhada pelo Norte e Nordeste, com vendedores, promotores e representantes comerciais.
A estrutura ajuda a companhia a ganhar espaço nas gôndolas e também abre caminho para novos negócios.
São Paulo no centro do plano de expansão

Durante muitos anos, o crescimento esteve concentrado na Bahia e no Nordeste, mas uma análise mais detalhada do mercado revelou uma oportunidade.
Segundo Fenício, São Paulo representa cerca de 30% do consumo brasileiro da categoria, enquanto os estados do Sul respondem por mais 18%. Apesar de ocupar a vice-liderança nacional, a Tia Sônia ainda tinha presença limitada nessas regiões.
A decisão foi mudar isso. Desde 2025, a empresa montou uma equipe dedicada ao estado, abriu um centro de operação comercial e inaugurou a Casa Tia Sônia, espaço conceito criado para apresentar a marca ao consumidor paulista.
Os primeiros resultados já aparecem. A operação em São Paulo cresce entre 30% e 40% ao ano, enquanto metade das vendas do e-commerce da companhia já vem do estado. O canal digital, por sua vez, responde por cerca de 8% do faturamento total.
A marca também começou a ganhar espaço em redes como Pão de Açúcar, Carrefour, Santa Luzia, Santa Maria e St Marche.
O momento é favorecido pelo posicionamento da empresa.
Em um mercado dominado por produtos premium e super premium, Fenício acredita que a Tia Sônia consegue oferecer uma relação entre qualidade e preço difícil de encontrar entre os concorrentes.
A diversificação do portfólio
Embora a granola ainda responda por cerca de 65% das vendas, a companhia vem ampliando sua atuação.
O portfólio inclui barras de cereais, snacks, cereais integrais, cafés especiais e, mais recentemente, uma linha de suplementação chamada Ultra B, com whey protein, creatina e barras proteicas.
Além disso, a empresa começou a testar um novo modelo de crescimento. Utilizando sua estrutura de distribuição, passou a investir em pequenas marcas de alimentos, como fabricantes de banana chips e pipocas gourmet.
Em um dos casos, segundo Fenício, uma das empresas cresceu 300% em apenas três meses após entrar na rede comercial da Tia Sônia.
Para sustentar os próximos anos de expansão, a companhia já prepara uma nova sede industrial.
A empresa adquiriu uma área de 16 mil metros quadrados em Vitória da Conquista e iniciou a primeira etapa das obras. A expectativa é começar a construção principal da nova fábrica em 2027.
Depois de quase três décadas de trajetória, Fenício diz que continua guiado pelos mesmos valores que o levaram à alimentação natural após o acidente na juventude. A diferença é que agora ele tem uma ferramenta maior para colocar essas ideias em prática.
O agrônomo que começou com R$ 40 emprestados da mãe transformou uma receita caseira em uma das maiores marcas de granola do Brasil. E acredita que a expansão para São Paulo é apenas o começo do próximo capítulo.
